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Processos trabalhistas crescem por falhas em empresas, como gestão de ponto

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Ações trabalhistas crescem e revelam desafios além das mudanças legais - Freepik
Ações trabalhistas crescem e revelam desafios além das mudanças legais
Por Alexandre Barreto

02/03/2026 | 11h44

São Paulo, 02/03/2026 - Novas ações na Justiça do Trabalho cresceram 8,47% entre 2024 e 2025. No ano passado, o Judiciário recebeu 2,231 milhões de novos processos, em comparação com 2,134 milhões em 2024, segundo o sistema estatístico do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

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O TST aponta que questões como horas extras, verbas rescisórias e adicional de insalubridade continuam sendo os principais temas das ações na Justiça do Trabalho, mesmo após a Reforma Trabalhista de 2027.

Segundo o Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), a persistência desses processos indica que os conflitos vão além da legislação. Isso sugere que falhas de gestão e problemas operacionais desempenham um papel importante na continuidade desses temas nas disputas judiciais.

“A Reforma alterou regras importantes, mas as causas dos conflitos continuam sendo, em grande parte, operacionais e estruturais, e não apenas normativas, afirma a professora Isabella Limeira, docente de Direito do Trabalho do UDF e sócia do projeto digital Direito Trabalhista com Elas.

 Falhas de gestão e problemas no controle de obrigações trabalhistas seguem impactando o volume de ações”.

O UDF aponta que a maioria das disputas por horas extras acontece por erros no ponto e má organização da jornada de trabalho. Esse cenário ficou mais complexo com o avanço do trabalho remoto e do modelo híbrido, que exigem maior controle e formalização dos horários. 

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A especialista explica que falhas no registro e no acompanhamento da jornada geram insegurança e aumentam as ações na Justiça. No encerramento do contrato, as verbas rescisórias também geram muitos conflitos. Erros nos cálculos, atrasos e falhas na demissão são as principais causas das ações.

“A complexidade das parcelas e a ausência de conferência adequada dos valores explicam boa parte das ações. Dificuldade financeira não afasta a obrigação legal”, pontua a professora.

Nas ações sobre adicional de insalubridade, as discussões envolvem a validade dos laudos e o tipo de atividade do trabalhador. Também há dúvidas sobre o percentual correto e o grau de exposição a agentes nocivos, o que torna esses casos mais complexos e frequentes na Justiça.

Dados do Tribunal Superior do Trabalho mostram que o volume de processos chegou a 2,648 milhões em 2017 e caiu para 1,748 milhão em 2018. Mesmo com essa redução inicial após a Reforma Trabalhista, o número de ações voltou a crescer nos anos seguintes.

“A Reforma reduziu momentaneamente o número de processos, mas não eliminou os conflitos estruturais das relações de trabalho. Ela alterou o perfil das ações, mas temas como horas extras e rescisões permaneceram”, diz.

O que ajudaria a evitar novos processos seria investir em uma boa gestão dentro das empresas. Segundo ela, evitar disputas não depende só de novas leis, mas de criar uma cultura que previna problemas e reduza riscos.

Ações trabalhistas vão além de cálculos

Karoline Monteiro, advogada trabalhista e CEO do Monteiro AKL Advocacia Especializada, afirma que toda ação trabalhista tem origem no rompimento de uma relação profissional.

Para ela, ações trabalhistas vão além de cálculos e debates legais e são resultado de expectativas frustradas, falhas na comunicação, decisões mal conduzidas e, principalmente, da falta de diálogo entre empresa e trabalhador.

“Quando o conflito chega ao Judiciário, o vínculo já está desgastado, e o processo passa a representar o último recurso para a busca por reconhecimento e reparação”, diz.
Karoline Monteiro é advogada trabalhista e CEO do escritório Monteiro AKL Advocacia Especializada - Foto: Divulgação
Karoline Monteiro é advogada trabalhista e CEO do escritório Monteiro AKL Advocacia Especializada - Foto: Divulgação

A advogada pontua que o elevado número de ações trabalhistas no País não pode ser atribuído apenas à complexidade das leis ou ao hábito de recorrer à Justiça.

Segundo Karoline, muitas dessas disputas surgem dentro das próprias empresas, motivadas por lideranças despreparadas, aplicação inadequada de políticas internas, falhas na comunicação e uma cultura organizacional que não valoriza as relações de trabalho.

“Situações como jornadas mal controladas, metas pouco claras, ausência de feedback, mudanças unilaterais de função ou remuneração e desligamentos conduzidos sem cuidado humano são exemplos recorrentes”, afirma.

A advogada explica que as empresas costumam ver os processos trabalhistas como um problema a ser resolvido, enquanto os trabalhadores os enxergam como uma forma de buscar reconhecimento e justiça.

Essa diferença mostra que o aumento das ações vai além das estatísticas e revela como as relações entre patrões e funcionários são tratadas no dia a dia.

Prevenir conflitos trabalhistas não se limita ao cumprimento formal da legislação. Envolve governança, decisões mais conscientes e uma liderança capaz de alinhar desempenho, respeito e transparência. Organizações que investem em orientação adequada, políticas claras e canais efetivos de diálogo tendem a reduzir significativamente o risco de litígios, além de fortalecer a confiança interna”.

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