Mary Del Priore
Colunista VIVA
11/05/2026 | 10h27
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Historiadora e doutora pela FFLCH/USP, pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, é autora de mais de 50 livros de História do Brasil, premiada no Brasil e exterior.
Quando a vida dói: o fenômeno da solidão independe de idade
Envato
Teresópolis - “Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. (…) Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer.” A imagem lancinante é de Fernando Pessoa. Quando escreveu essas linhas, ainda não se falava em “morte social”.
Hoje, sabemos nomear esse abismo: isolamento extremo, ausência de vínculos, rarefação de afetos. Solidão e exclusão caminham juntas, como irmãs siamesas, e deixam marcas profundas — no espírito e no corpo.
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Não se aprende a ser só. Aprende-se, quando muito, a suportar a solidão. Ainda assim, ela se impõe como um fenômeno de nosso tempo. A própria Organização Mundial da Saúde já a reconhece como uma epidemia global, associada a centenas de milhares de mortes anuais."
Solidão não tem idade
Engana-se, porém, quem imagina que esse drama pertence apenas à velhice. Jovens também sofrem de morte social. Afinal, a idade é um dado biológico, mas também uma construção social — manipulável, relativa.
A distância entre juventude e velhice é menos um fato do que uma convenção.
Em muitos aspectos, o que empurra os mais velhos para a solidão também atinge os mais jovens. De um lado, o luto: pela perda de um cônjuge, de amigos, de referências. De outro, perdas mais silenciosas: autonomia, renda, pertencimento, lugar no mundo.
Entre jovens, há também um luto — o do corpo infantil que desaparece, das certezas que se dissolvem, dos pais que deixam de ser heróis para se tornarem frágeis.
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Velhos e jovens, cada qual à sua maneira, atravessam desamparos semelhantes. Uns sentem o peso do corpo que já não responde; outros, o estranhamento de um corpo que muda rápido demais. Uns se veem esquecidos; outros, invisíveis. E ambos, paradoxalmente, vivem conectados a um mundo que os desconecta: a tecnologia aproxima à distância, mas empobrece o contato físico, o gesto, o olhar.
A pergunta que se impõe é simples — e urgente: como aproximar essas duas margens do mesmo rio?
Talvez o caminho esteja menos em fórmulas e mais em encontros reais.
- Criar espaços onde jovens e velhos possam trocar saberes e experiências, não como concessão, mas como necessidade mútua.
- Estimular diálogos que substituam a pressa pelo tempo da escuta. Misturar gerações em projetos comuns, onde a novidade não despreze a memória, e a experiência não tema o novo.
- Valorizar habilidades antes da idade.
- Cultivar uma cultura de aprendizado contínuo, onde todos ensinam e todos aprendem.
- E, sobretudo, construir propósitos compartilhados — pois nada aproxima mais do que sonhar juntos.
Atividades e afetividades
Na vida de todos os dias, por que não oficinas de memória e escrita, nas quais os mais velhos partilhem suas histórias e os jovens as recriem em novas linguagens? Por que não projetos de leitura, teatro ou música que misturem repertórios e sensibilidades, fazendo dialogar tempos distintos?
Também hortas comunitárias e cozinhas afetivas, onde gestos simples ganham densidade de aprendizado. Ou as chamadas mentorias reversas, em que jovens ensinam tecnologia e idosos devolvem com conselhos e experiência.
E, por que não, rodas de conversa, jogos cooperativos ou ações de voluntariado conjunto, capazes de transformar a convivência em vínculo?
No fundo, o que nos separa na idade pode ser justamente o que nos une na humanidade. E então, a diferença de anos não seria um abismo, mas uma ponte."
A solidão não se vence apenas com companhia, mas com sentido. E talvez seja justamente isso que falte, tanto a jovens quanto a velhos: não apenas presença, mas pertencimento. Porque, no fundo, a dor de viver — como intuiu Pessoa — não escolhe idade. Mas pode, quem sabe, encontrar alívio quando atravessamos juntos o mesmo rio.
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