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Vítimas do Césio-137 vivem de doações para completar pensão de salário mínimo

Bárbara Ferreira / VIVA

Donizeth Rodrigues de Oliveira e Marcelo Neves, sobreviventes do Césio-137, contam das dificuldades econômicas e de saúde - Bárbara Ferreira / VIVA
Donizeth Rodrigues de Oliveira e Marcelo Neves, sobreviventes do Césio-137, contam das dificuldades econômicas e de saúde
Por Bárbara Ferreira

29/07/2026 | 12h05 ● Atualizado | 12h11

São Paulo - 38 anos depois do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina, os sobreviventes do Césio-137 envelhecem com dificuldades para acessar medicamentos e tratamentos de saúde. Hoje, a Associação das Vítimas denuncia que muitos dos atingidos dependem de doações para continuar sobrevivendo.

Donizeth Rodrigues de Oliveira, de 61 anos, sobreviveu ao Césio mas luta para continuar vivo apesar das sequelas causadas por ele. Acumula oito infartos, um AVC, uma hérnia grande na barriga, diabetes, além de problemas na tireoide e nos rins. "Eu perdi minha dignidade, perdi minha filha, perdi os dentes", desabafa.

Vítima do Césio precisa de cirurgia para hérnia na barriga
Vítima do Césio precisa de cirurgia para hérnia na barriga - Bárbara Ferreira / VIVA

Há poucos meses parou de trabalhar como catador de recicláveis, profissão que já exercia antes do acidente. Ele precisa do apoio do carro, enquanto pessoa com deficiência, mas o veículo pegou fogo e seria necessário arrecadar o dinheiro para consertá-lo. Enquanto isso, o tratamento para a hérnia ficou urgente e também precisou pedir o dinheiro necessário.

Ele ainda não conseguiu os valores para consertar o carro nem fazer a cirurgia - inclusive, está com uma "vaquinha" online pedindo R$ 12 mil.

Vivo pedindo a um e outro, é pedir esmola. A gente pede ajuda para sobreviver, comer. Senão, nem estaríamos aqui hoje para contar essa história".

O presidente da Associação das Vítimas, Marcelo Santos Neves, explica que esta é a realidade da maioria dos sobreviventes, que convivem com a pobreza enquanto tratam doenças como câncer, depressão e pânico.

O Césio não contamina mais. Hoje a contaminação é interna. Nós carregamos o Césio dentro de nós", descreve.

Dificuldades de acesso a medicamentos

O acidente aconteceu em Goiânia, em 1987, quando jovens de 20 e 21 anos, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, encontraram um equipamento de radioterapia com Césio-137 abandonado na antiga sede do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR).

Segundo a advogada da Associação das Vítimas, Nara Rúbia Ribeiro, apesar do Estado ter criado uma estrutura administrativa para atender os sobreviventes, esta é "pouco solícita e pouco eficaz". 

Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara), da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO)
Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara), da SES-GO - Divulgação / Secretaria de Estado de Saúde de Goiás

O Governo de Goiás afirma que existe uma política permanente de assistência às vítimas com cerca de mil pacientes, entre vítimas e descendentes até a terceira geração. O acompanhamento é realizado pelo Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA) e o Estado custeia o Ipasgo Saúde.  

No entanto, a distribuição de remédios deixou de ser uma atribuição do CARA há mais de 20 anos.

O fornecimentos de medicamento para as vítimas passou a seguir o fluxo regular da assistência farmacêutica do SUS, como Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e no Programa Farmácia Popular. Já no Centro Estadual de Medicamentos de Alto Custo Juarez Barbosa (CEMAC-JB) têm acesso a remédios para doenças crônicas, raras ou complexas.

Essa logística faz com que seja necessário comparecer a diferentes unidades de saúde para conseguir os vários remédios que precisam. Segundo Neves, o número de carros disponibilizados ao CARA para atender aos pacientes foi diminuindo ao longo dos anos, enquanto a idade fez as demandas aumentarem.

Muitos ficam por conta própria, à mercê de favores e ajuda de familiares e amigos. Para comprar medicamentos que não são disponibilizados por essas unidades de saúde, as vítimas dependem de doações.

As vítimas se sentem abandonadas. Embora exista uma estrutura, nas horas que mais necessitam, a estrutura que deveria acolhê-las muitas vezes aparenta virar as costas. Isso é muito doloroso", pontua a advogada.

O CARA permanece responsável pelo acompanhamento clínico, prescrição médica e pelos encaminhamentos necessários para acesso aos tratamentos disponíveis na rede pública.

O Ministério Público Federal entendeu, em ações de 1990, que os danos foram ambientais, mas também econômicos, sociais e psicológicos às vítimas. Por isso foram estabelecidas uma série de obrigações ao Estado e à União, como o fornecimento de remédio e tratamento, para cuidar das necessidades dos sobreviventes.

Oito anos sem reajuste de pensão

As famílias atingidas pelo Césio já eram pobres antes do acidente. Depois, tiveram todos os bens e casas demolidos e removidos, hoje parte das cerca de 6.000 toneladas de rejeitos radioativos enterrados. "Muita gente perdeu muito. Esses bens, até hoje a gente não conseguiu recuperar", diz Oliveira.

As vítimas que tiveram contato direto com o Césio-137 recebem indenização vitalícia do Governo de Goiás e do Governo Federal. Ao todo, são 603 benefícios estaduais e 330 federais, sendo que 208 pessoas recebem as duas pensões, de forma concomitante. 

Desse total, 402 são militares que tem pensão federal ou estadual e foram promovidos, ou seja, aposentados, após trabalharem em local contaminado, segundo a Associação dos dos Militares do Césio-137. Das vítimas civis, a Associação tem conhecimento de duas aposentadorias de pessoas que trabalhavam com carteira assinada no momento do acidente. Segundo o presidente da Associação , Luiz Carneiro, pelo menos 125 militares morreram de câncer desde o acidente.

presidente da Associação das Vítimas, Marcelo Santos Neves
O presidente da Associação das Vítimas, Marcelo Santos Neves, relata dependência de doações - Bárbara Ferreira / VIVA

Os sobreviventes passaram oito anos recebendo R$ 954 de pensão, sem reajuste. Em nota, o Governo de Goiás pontuou que a atualização dependia do aval dos parlamentares e a assinatura final do governador.

Os benefícios só foram atualizados em abril 2026, pelo ex-governador Ronaldo Caiado. Agora, recebem 1 salário mínimo. As vítimas defendem que seja pago um valor retroativo pelos anos sem reajuste.

Sobreviventes enfrentam obstáculos para receber benefícios sociais

A maioria dos sobreviventes é de baixa renda e, sem condições de trabalhar por conta dos vários problemas de saúde, também não conseguem ajuda de benefícios sociais como BPC/LOAS (Benefício de Prestação Continuada) ou Bolsa Família.

Donizeth Oliveira, uma pessoa com deficiência, chegou a receber um Benefício de Prestação Continuada (BPC) entre 2013 e 2015, que foi cortado por decisão judicial. Segundo ele, o INSS considerou o dinheiro que recebia da indenização como renda.

Em nota, o INSS afirmou que a pensão especial indenizatória pode ser acumulada com o BPC, mas o valor da pensão é considerado no cálculo da renda familiar. O recebimento cumulativo é permitido, desde que a renda familiar por pessoa seja igual ou inferior a ¼ do salário mínimo. 

O mesmo vale para o Bolsa Família, cuja família é elegível quando a renda mensal por pessoa for de até R$ 218. Nota enviada pelo Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) reafirma que rendas como indenizações, aposentadorias e benefícios também entram nesse cálculo. 

A pensão que as vítimas do Césio recebem é indenizatória, ou seja, possui natureza reparatória e não pode ser considerada ou confundida com a remuneração salarial, de acordo com o Código Civil (Lei nº 10.406/2002). 

Como aconteceu o acidente com o Césio-137 em Goiânia?

O IGR, local onde o Césio foi encontrado, funcionou entre 1971 e 1985, quando a clínica foi desativada. Em 1987, os dois jovens que encontraram a máquina removeram o lacre da cápsula que continha Césio-137, um pó azul que emitia um brilho intenso no escuro.

Por acreditarem que o material era valioso, venderam a peça para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Encantado com o brilho e sem entender o perigo da substância, distribuiu fragmentos dela para familiares. Na época, Donizeth trabalhava no ferro velho que comprou as peças do aparelho de radioterapia abandonado.

Os sintomas imediatos foram náuseas, tonturas, vômitos e diarreia. Dez dias depois, as pessoas afetadas começaram a apresentar graves sintomas de contaminação por radiação, que se assimilavam a queimaduras na pele. Quando o material foi levado à Vigilância Sanitária, um físico identificou a radioatividade.

Leide e Lucimar das Neves, irmãos e vítimas do Césio-137
Leide e Lucimar das Neves, irmãos e vítimas do Césio-137 - Reprodução / Instagram @lourdesdasneves1987

Um dos maiores símbolos do acidente, Leide das Neves, de apenas 6 anos, era filha de Ivo Ferreira, irmão de Devair. Ela brincou e ingeriu ingeriu partículas do pó azul. Por isso, precisou ser enterrada em caixão de chumbo de 700 quilos, para conter a radiação.

Leide das Neves morreu em 23 de outubro de 1987. No último sábado, dia 25 de julho, o irmão dela, Lucimar das Neves Ferreira, que tinha 14 anos na época do acidente, foi encontrado morto aos 53 anos.

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