Brasil conclui desligamento da TV analógica; relembre história da televisão
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São Paulo - O Brasil concluiu oficialmente nesta semana o desligamento da TV analógica, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), após anos de digitalização dos canais de TV. Assim, o País consolida a transição para a televisão digital com a memória dos anos analógicos.
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Muito antes de a televisão chegar às casas brasileiras, o País já vivia experiências iniciais com a nova tecnologia. Segundo Elmo Francfort, diretor do Museu Brasileiro de Rádio e Televisão (MBRTV), os primeiros testes aconteceram ainda em 1939, durante uma feira de amostras no Rio de Janeiro.
Na época, empresas estrangeiras apresentaram demonstrações que simulavam transmissões audiovisuais, despertando curiosidade entre os empresários da comunicação e do rádio.
No entanto, o avanço da televisão acabou interrompido pelo contexto da Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, os investimentos tecnológicos foram direcionados para a guerra e o rádio se consolidou como o principal meio de comunicação de massa.
“O rádio teve um poder muito importante nesse período, foi a chamada era de ouro do rádio”, afirma.
Mesmo com as dificuldades do período, alguns brasileiros continuaram testando a nova tecnologia. Um dos pioneiros foi o engenheiro Olavo Bastos Freire, que em 1948, em Juiz de Fora (MG), construiu sua própria câmera e televisor. Com o equipamento, ele chegou a transmitir jogos de futebol e cenas do cotidiano da cidade. A tela era pequena, menor que uma bola de futebol, mas reunia pessoas em praças públicas para assistir às imagens.
Muitos diziam que era um rádio com imagens. Outros falavam que era um cinema em casa”, conta Francfort.
A chegada oficial da televisão brasileira em 1950
A televisão no Brasil começou oficialmente em 18 de setembro de 1950, com a inauguração da TV Tupi, em São Paulo. A emissora foi criada pelo empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. A estreia aconteceu com um grande programa de inauguração chamado “TV na Taba”, que apresentou diferentes formatos de conteúdo em um único dia: humor, dramaturgia, jornalismo e música.
Para estimular o público, Chateaubriand distribuiu cerca de 200 televisores pela cidade de São Paulo, instalados em locais estratégicos para que a população pudesse conhecer a novidade. “A maioria das pessoas nunca tinha visto uma televisão. Elas se aglomeravam para entender o que era aquilo que vinha pelo ar”, explica Francfort.
Nos primeiros anos, a televisão brasileira era transmitida quase totalmente ao vivo. Segundo Francfort, a televisão ainda buscava sua própria linguagem, por isso, os programas misturavam elementos do rádio com uma estética inspirada no cinema e nas apresentações teatrais.
Os chamados teleteatros, por exemplo, se tornaram uma das atrações mais populares da época, que deram origem às telenovelas. Entre os primeiros sucessos estavam atrações como Rancho Alegre, estrelado por Mazzaropi.
O primeiro telejornal brasileiro surgiu já no dia seguinte à estreia da TV Tupi, com o programa “Imagens do Dia”, apresentado por Maurício Loureiro Gama.
Televizinhos
No início da década de 1950, poucos brasileiros tinham televisão em casa. O aparelho era caro e podia custar o equivalente a um carro. Isso fez surgir uma figura curiosa da cultura televisiva brasileira: os “televizinhos”, pessoas que iam à casa de vizinhos para assistir à programação.
Segundo Francfort, a prática era tão comum que algumas famílias chegaram a pensar em cobrar ingresso para quem quisesse assistir. “As pessoas iam assistir televisão e acabavam passando horas ali. Era comum surgirem amizades, conversas e até namoros durante esses encontros”, conta.
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Popularização da TV analógica
A televisão começou a se popularizar a partir da segunda metade dos anos 1950, com a redução do preço dos aparelhos e o crescimento da programação.
Surgiram programas populares e de auditório, além de atrações de humor e games shows, como “O Céu é o Limite”. Também ganharam destaque produções como A Praça da Alegria, de Manoel de Nóbrega.
Ao mesmo tempo, os teleteatros dominavam a programação e abriram espaço para o surgimento das primeiras novelas. A novela diária, no entanto, só surgiu em 1963, com “2-5499 Ocupado”, estrelada por Tarcísio Meira e Glória Menezes.
A televisão brasileira também registrou momentos históricos logo em seus primeiros anos. Um dos mais lembrados aconteceu em 1951, com o primeiro beijo exibido na TV do País. A cena foi transmitida na novela Sua Vida Me Pertence, protagonizada por Walter Foster e Vida Alves, e marcou a história da dramaturgia televisiva brasileira.
Durante décadas, a televisão analógica foi o principal meio de entretenimento e informação no Brasil. O sistema começou a ser substituído pela televisão digital a partir de 2007, processo que culminou no desligamento definitivo do sinal analógico em todo o País.Para Francfort, a televisão brasileira nasceu de um processo criativo e experimental.
Era uma televisão feita no improviso da criação. Improviso não significa algo mal feito, mas sim descobrir caminhos. Foi assim que surgiram muitas das bases da TV que conhecemos hoje”, afirma.
Ao longo do processo de digitalização da televisão no País, mais de 14 mil canais analógicos foram desligados, 20 mil canais digitais passaram a integrar o plano básico de radiodifusão e mais de 14 milhões de kits de TV digital foram distribuídos para famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). Essa distribuição gratuita garantiu acessibildiade à TV aberta com qualidade, segundo o Ministério.
Para o Ministério das Comunicações, dessa forma a TV no Brasil tem mais qualidade de imagem e som, além da liberação da faixa de 700 MHz, fundamental para a expansão da internet móvel 4G. O saldo remanescente do processo de digitalização, cerca de R$ 500 milhões, está sendo direcionado para novos projetos nas áreas de telecomunicações e radiodifusão, segundo o Ministério.
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