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Clube de leitura e oficinas ampliam horizontes no Tremembé II

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A literatura é ferramenta que amplia horizontes e permite espiar por cima dos muros, defendem ex-internos - Envato
A literatura é ferramenta que amplia horizontes e permite espiar por cima dos muros, defendem ex-internos

São Paulo, 02/01/2026 – Imagine a seguinte cena. Um vozerio interminável ecoa pelos corredores da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, mais conhecida como Tremembé II, no interior de São Paulo, à noite. Um policial penal desavisado caminha em direção à origem do som, o banheiro da unidade, único setor que permanece com as luzes acesas após o toque de recolher.

Quanto mais se aproxima do banheiro, o som se intensifica e o alerta também – neste momento surgem vários cenários imaginários: uma briga, tentativa de fuga, o princípio de uma rebelião?

Se este fosse um filme, não seria um de ação. A cena que o agente encontra no banheiro é a seguinte: uma dezena de homens, ora entrouxados nas cabines, ora sentados no chão, atentos e atuantes, com direito a discussões acaloradas, em uma oficina de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Pouco tempo depois, a mesma imagem se repete: o grupo debate, em noite parecida, suas impressões sobre a leitura de “Torto Arado”, premiado romance contemporâneo do baiano Itamar Vieira Junior. Essas cenas, adianto, carregadas de dramaticidade, não estão tão distantes da realidade.

Capa de O Folhetim, periódico literário do Tremembé II, com ilustração de rosto e o texto: Sem ti, senti saudades.
Capa do "O folhetim" de março de 2023, periódico dos participantes do "Café Literário" - Reprodução/BibliON

Os banheiros são, de fato, frequentemente o único espaço disponível para as atividades noturnas do “Café Literário”, clube de leitura iniciado pelos internos da P2 em 2017, que ampliou, desde então, as manifestações artísticas, culturais e educacionais para além das rodas de livros.

Hoje, o grupo que começou com a proposta de debater filosofia dissemina literatura por meio de encontros regulares, mantém um periódico de textos e ilustrações autorais, ostenta um artigo publicado na Revista Cult, promove oficinas de preparação para vestibulares e o Enem, organiza grupos de teatro e abriga um escritor interno, com títulos à venda na Amazon.

De acordo com os fundadores do “Café Literário”, Marcos Rocha, 44, e Carlos*, o grupo que começou com 12 internos alcançou 58 participantes ativos – 33 no regime fechado e 25 no semiaberto –, adesão que supera 10% da população carcerária da instituição.

“Um ambiente prisional, pessoas supostamente perigosas dentro de um banheiro, participando de uma oficina de redação para o Enem, o quão surreal é essa questão”, diz Rocha.

Ambos cumprem hoje pena em regime aberto, mas, por uma regressão, Marcos retornou recentemente ao Tremembé II, onde esteve até outubro deste ano, e se surpreendeu ao encontrar o clube atuante, independentemente da presença de seus criadores.

A ideia é desierarquizar o conhecimento, nos sentamos em círculo para demonstrar que nenhum ponto de vista é mais importante que o outro”.

Leitura amplia horizontes

Marcos Rocha e Carlos criticam a visão bastante difundida de que a leitura liberta ou tem o poder de teletransportar os internos para outras realidades. Para Rocha, a restrição é uma dura realidade, que não passa despercebida. Mas a literatura é ferramenta que amplia horizontes e permite espiar por cima dos muros.

"Eu não saio [da cadeia], mas eu enxergo um pouquinho mais além. O caminho do mistério aponta para dentro, então, quando você começa a ler, começa também a se interiorizar”, reflete Rocha.

O clube, que atrai inicialmente pela possibilidade de remição de pena, funciona como uma isca que permite aos internos rever comportamentos e abandonar práticas hostis, por meio do debate sobre racismo estrutural, machismo e homofobia – como quando o grupo leu e discutiu o romance LGBTQIAPN+ “Me chame pelo seu nome”. Isso dentro de uma penitenciária exclusivamente masculina.

"Havia essa postura inicial de chamarem o Café Literário de um encontro de ‘baitolas’. Mas aos poucos essa visão foi caindo. Uma história que lembro bem é de um ex-agente penitenciário entrou para o grupo somente pelos quatro dias [de remição], que tinha uma postura bem chucra e ficou. E aí, no final, quando eu estava indo embora, ele me disse, ‘Marcos, não me deixe sem ler’.”

Reconhecimento

Por meio de parcerias e permissões concedidas pela administração, o “Café Literário” resistiu às trocas de governo e às mudanças políticas no Brasil, inclusive no entendimento sobre a função do cárcere. Enquanto muitas instituições optam cada vez mais por atividades laborais, o Tremembé II manteve ações culturais e educacionais ativas, mesmo quando as condições eram adversas – como as aulas noturnas no banheiro.

O apoio de organizações externas, como a SP Leituras e a Rede Escrevedeiras, foi fundamental para profissionalizar a mediação e ampliar o acervo do grupo. Em certa ocasião, o escritor amazonense Milton Hatoum, na época recém-eleito membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), visitou o “Café Literário” e levou os internos ao êxtase.

“Quando saiu a chamada no Jornal Nacional de que o Milton Hatoum integraria a ABL, a ala parou. Todos pararam para observar uma matéria sobre literatura, sobre um autor brasileiro. E os que não participavam do clube vinham assim, ‘Marquinhos, esse cara aí que vai vir aqui?’ O pessoal ficou encantado", relembra Rocha.

Para os dois fundadores, o legado do “Café Literário” é um modelo replicável em outras unidades prisionais.

Espero que o clube deixe de ser uma iniciativa para se tornar uma política pública. Você pega um monte de pessoas, as trancafia e a mente delas continua produzindo. Ou elas vão começar a discutir sobre crime ou vão canalizar para outra coisa", conclui.

*O nome foi alterado para preservar a identidade da fonte.

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