Pais e avós são chave para salvar o Guarani, dizem lideranças indígenas
Museu das Culturas Indígenas
São Paulo - Para manter a língua Guarani viva, os “mais velhos” das aldeias precisam ensinar os mais novos a usar a língua materna. É o que defendem lideranças indígenas. Para eles, pais, mães e avós são os maiores responsáveis por ensinar a língua materna. Ao reconhecer isso, também pedem por recursos para auxiliar a preservar a língua que, segundo a Unesco, é vulnerável.
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“A língua materna é frágil porque tem muito mais ferramentas dentro do território falando português e menos com a nossa língua. A gente só recebe esse ensino através dos nossos pais, mães e os avós”, explicou Márcio Boggarim, integrante do Conselho Indígena Aty Mirim, gestor do Museu das Culturas Indígenas (MCI).
Somente no Estado de São Paulo, mais de seis mil indígenas Guarani vivem em 38 territórios, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao mesmo tempo em que esta é uma das línguas mais faladas no Brasil pelos indígenas, este deve ser o povo originário que mais teve contato e influência de não indígenas, segundo a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), são mais de 500 anos de contato direito.
Mesmo assim, a língua materna segue viva. Segundo Boggarim, há uma luta do próprio povo para fortalecê-la dentro do território. Ele é indígena do povo Guarani Mbya, de Jaraguá.
Aprendemos a falar português e várias tecnologias já adentraram as aldeias. As crianças desde cedo já aprendem o português devido à internet dentro de casa, celulares, hoje a gente tem fácil acesso."
Por vezes, falam português dentro de casa, o que é aprovado pelos mais experientes. Os ‘’mais velhos” só falam Guarani, mas alguns adultos já não são considerados fluentes na língua.
A escola indígena
Catia Martim é indígena e professora de português e matemática na Escola Estadual Indígena Djekupe Amba Arandy, em Jaraguá. Apesar de lecionar em Guarani, tem o português como língua materna porque a mãe não cresceu na aldeia e não é fluente na língua. “Eu aprendi Guarani no dia a dia, mas não com a minha mãe, por isso não tenho fluência. Eu não penso em Guarani”, disse.
Na escola, falam Guarani sempre, mas para ser professor de saberes tradicionais e língua materna, é preciso fluência no idioma. Esse é o caso da professora Mari Bolgarim, que cresceu em outra aldeia e tem uma língua materna diferente, mas, ao se casar e mudar para Jaraguá, aprendeu o Guarani ouvindo as crianças.
Os conhecimentos e saberes tradicionais são passados muito na oralidade”, contou Mari.
Oralidade e adaptação do ensino ao Guarani
Essa cultura dos “ensinamentos dos mais velhos”, como disse ela, já é muito forte na comunidade e se reflete na escola. Como as escolas indígenas são estaduais, recebem o material didático padrão do Estado de São Paulo, todo em português. As professoras precisam desenvolver e adaptar todas as atividades para o Guarani.
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Segundo Cristiano Kiririndju, coordenador de Políticas para os Povos Indígenas da Secretaria da Justiça e Cidadania de São Paulo, a escola indígena não deve ser a responsável pela língua materna. Para ele, esta “é uma obrigação da própria comunidade”, que deve manter as casas de reza e os costumes no território a fim de cultivar a língua materna.
“A escola está dentro do território indígena para complementar a cultura e levar para os alunos a oportunidade de ter todo conhecimento da cultura não indígena para que ele possa também poder competir aqui fora no mercado de trabalho”, disse Cristiano.
Na escola os professores incentivam, mas de fato se aprende a língua materna dentro de casa”, pontua Boggarim, do MCI.
Língua como patrimônio cultural
Pensando nisso, foi feito um abaixo-assinado para que o Guarani seja registrado como Patrimônio Imaterial do Estado de São Paulo, mesmo que já seja cadastrado nacionalmente. Esta é uma demanda gerada pelo Conselho Aty Mirim do Museu das Culturas Indígenas, com cerca de 7 mil assinaturas até o momento.
Segundo o museu, o abaixo-assinado baseia-se no Decreto Estadual nº 57.439/2011, que estabelece os critérios para registro de bens culturais como patrimônio imaterial, destacando a necessidade de salvaguardar expressões ameaçadas. Para Boggarim, do MCI, esse reconhecimento pode ser importante para conseguir mais recursos estaduais para, por exemplo, produção de material didático na língua materna.
A língua é muito importante para a preservação da cultura, para reforçar a identidade, para mostrar nossa resistência diante ao preconceito”, destacou a professora Catia.
Segundo a Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado, não há solicitação oficial de registro da língua como patrimônio histórico protocolado junto ao Condephaat. O museu diz que só vai entregar quando completarem 1 milhão de assinaturas.
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“A pasta reafirma seu compromisso com a valorização e preservação das heranças ancestrais do Estado. Prova disso é a elaboração, em andamento, do primeiro Plano Estadual de Cultura dos Povos Indígenas que vivem no território paulista, construído a partir de propostas captadas em audiência pública e escutas nos territórios, diz a nota. O documento deve ser apresentado ainda esta semana.
Material didático
Segundo Cristiano, o material didático na língua indígena é uma construção dos próprios professores. Mari, por exemplo, faz um curso de professores indígenas intercultural na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela conta que, para lecionar, basta ter ensino médio completo, mas na faculdade existem grupos de estudo que propõem a consolidação de materiais didáticos em Guarani.
“Eu acho que eles ficam um pouco perdidos [com os livros em português] porque não é a língua materna deles, eles estão tendo o contato muito cedo com o português, o que dificulta bastante no aprendizado”, disse Mari.
Comumente, a aula é prática e oral. “Como a gente vive e mora com nossos alunos no território, eles estão sempre vendo a gente, andando para lá e para cá, convivendo mesmo. Então, a oralidade é uma forma de manter realmente os saberes tradicionais”, pontuou a professora.
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