Dá para lucrar mais na renda fixa quando a taxa de juros começar a cair?
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São Paulo, 02/02/2026 - Quando a taxa básica de juros está prestes a ser reduzida, surge uma boa oportunidade na renda fixa. Os títulos com taxas prefixadas costumam garantir lucros acima do esperado para aqueles investidores que, em vez de permanecer com os papéis até o vencimento, vendem o ativo para aproveitar a alta do preço no mercado.
A tese vale tanto para ativos com taxas de juros nominais quanto juros reais, aqueles que pagam uma taxa prefixada mais a variação de um índice de inflação no período.
Juro real e juro nominal: qual a diferença?
A principal diferença aqui está na inflação. O juro real envolve uma conta em que o valor é ajustado pela inflação do período em análise é feita e representa o ganho 'real' do ativo em questão.
O juro nominal serve somente como referência, base para cálculo, e não considera a composição de juros sobre juros ao longo do tempo.
Exemplo: a taxa básica da economia, a Selic, está em 15% ao ano nominalmente. Mas a taxa real retira da conta a expectativa da inflação no período. Como em 2025, a inflação medida pelo IPCA foi de 4,26%, a taxa real seria próxima de 10%.
Leia também: Renda fixa: como investir melhor seu dinheiro com a taxa Selic a 15%
Combinação pouco comum e atraente
Segundo a XP, o ambiente atual reúne uma combinação pouco comum e bastante atrativa na renda fixa: juros reais em patamares historicamente elevados e a perspectiva de início de cortes da Selic no próximo mês. "Esse conjunto de fatores abre uma janela de oportunidade especialmente relevante para os títulos indexados ao IPCA", afirma a XP em relatório.
Vale a pena destacar que, quanto mais longo o prazo dos títulos, maior será a sensibilidade do preço do papel aos movimentos dos juros e que os ganhos e perdas sugeridos em exemplos por analistas e economistas são decorrentes da marcação a mercado. Ou seja, só ocorrem em caso de venda do título antes da data de vencimento.
O que é marcação a mercado?
Marcação a mercado é um mecanismo de atualização diária do preço unitário (PU) de um título de renda fixa. Esse ajuste é ditado por alguns fatores, como mudanças nas taxas de juros e condições de oferta e demanda pelo ativo e podem ser realizadas tanto para baixo quanto para cima.
Seu principal objetivo é calcular o valor presente (atual) dos ativos no momento da negociação.
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Como fica com Selic em queda?
Marcelo Freller, estrategista do C6 Bank, explica que a Selic deve cair este ano, segundo o consenso de mercado, cerca de 2,75 pontos porcentuais, levando a taxa de 15% para 12,25%. “No entanto, isso já está totalmente precificado no Tesouro Prefixado 2032. Dessa forma, à medida que a Selic cair este ano, não haverá correlação direta com a rentabilidade dos títulos com vencimento em 2032, por exemplo.”
Freller comenta que é possível ocorrer o contrário: a Selic pode cair, e o prefixado de 2032 ter uma queda no preço na marcação a mercado. “O que pode-se dizer é que, se a taxa do título de 2032 cair 2 pontos porcentuais, como ele tem uma duration de seis anos, ele vai valorizar algo próximo de 12%, mais o seu carrego de 12%, ele poderia render algo em torno de 24% em um ano. Isso ocorreria caso ele caia dos níveis atuais, em que é negociado perto de 13% para cerca de 11%. Mas ele hoje já é negociado a 13% porque já embute a queda da Selic que ocorrerá este ano. Então, para finalizar, a queda da Selic até 12,5% já está totalmente precificada no prefixado de 2032”, comentou.
Esse cálculo não é linear nem simples, o que faz muitos agentes do mercado a divergirem nas respostas. Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos e autora do livro "Renda Fixa não é fixa!", explica que, se um investidor possui um título de um ano e a taxa cair 1 ponto porcentual, por exemplo, de 15% para 14%, o investidor ganha 1%. Em um título de dois anos, o ganho seria de aproximadamente 2% para cada 1 ponto porcentual que a taxa cai. Em um título de 15 anos, o ganho seria de cerca de 15%. Ou seja, para ganhar 30% em um ano, é necessário investir em um título prefixado de 15 anos cuja taxa venha a cair 2 pontos porcentuais nesse período de um ano.
A dinâmica do mercado de juros futuros
Marília decidiu escrever seu livro depois de vivenciar uma situação em que percebeu que o investidor pessoa física não entende a dinâmica do mercado de juros futuros e a marcação a mercado. Em 2016, quando a Selic estava em 17% no Brasil, ela elaborou um relatório destacando a possibilidade de obter um retorno de 30% ao ano com investimentos pré fixados nesta taxa.
Mandei esse relatório e fui almoçar. Quando voltei, havia milhares de e-mails na minha caixa de entrada me perguntando como eu faria essa mágica. Como iria comprar um título prefixado que rende 17% e ganhar 30%. Foi então que percebi que o investidor pessoa física, de varejo, não conhece a marcação a mercado. Para os gestores profissionais, isso é o dia a dia. É o básico, é o que mais se faz, a marcação a mercado o dia inteiro, diz a autora.
O que vale mais a pena agora?
Na atual conjuntura macroeconômica e diante dos atuais preços de mercado, especialistas enxergam maior potencial de lucros nos títulos com juros reais. O CIO da Monte Bravo, Guilherme Loureiro, reforça essa escolha, explicando que isso se deve à expectativa de que o Banco Central provavelmente começará a cortar juros, o que já causou uma queda na inflação implícita.
Rachel de Sá, estrategista de Investimentos, XP, diz que o momento que se faz a comparação entre o pós-fixado, os prefixados e os ativos atrelados à inflação, o que teve maior retorno histórico em períodos de queda da Selic - principalmente quando se olha a antecipação do ciclo -, foram os papéis prefixados. Depois, os prefixados foram os títulos de inflação e depois o CDI. Ambos ganharam do CDI, afirma. Ela explica também que os prefixados e os títulos de inflação tiveram uma performance melhor.
(Com Jean Mendes)
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