Endividamento recorde reflete baixos salários e pouca educação financeira
Foto: Envato Elements
São Paulo - O endividamento das famílias cresce e preocupa especialistas que culpam os baixos salários e o mau uso do cartão de crédito pela situação. Os números mostram um novo recorde histórico em março, alcançando 80,4% e marcando o maior nível da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O índice superou a marca de 80,2% registrada em fevereiro.
Além da quantidade de endividados, o comprometimento da renda dos brasileiros com o pagamento de dívidas — como cartão de crédito, empréstimos e financiamentos — permanece elevado.
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Dados do Banco Central (BC) indicam que quase metade dos ganhos está comprometida, sendo o comprometimento médio da renda em 29,6%. A parcela de famílias com dívidas em atraso totalizou 29,6% no período.
Causas: Renda e Educação
Para o economista Bruno Corano, da Corano Capital, o combate ao problema precisa ser mais amplo, uma vez que o endividamento é uma questão complexa que envolve fatores econômicos e educacionais interligados. Corano aponta duas causas determinantes:
- Mão de obra mal remunerada: A combinação de salários baixos com o alto custo de vida força a população a contrair dívidas para sobreviver.
- Falta de educação financeira: Quanto menos educadas, as pessoas têm menos ferramentas para lidar com o dinheiro.
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Corano é direto ao afirmar que, para combater o problema, é preciso aumentar a renda.
Não existe melhor solução para as dívidas do que você aumentar sua renda. Com mais renda e com disciplina pressupõe que você possa pagar e quitar suas dívidas."
Vilão das dívidas
A jornalista, escritora e comentarista de finanças da TV Record Patricia Lages, concorda que a crise é agravada pelo mau uso do cartão de crédito.
Segundo Lages, o cartão permite que a pessoa gaste antes de verificar se tem condição de pagar. O não pagamento da fatura integral leva ao crédito rotativo, cujas taxas de juros estão entre as mais altas do mundo.
A consultora em finanças também alerta para outro fator preocupante: o limite pré-aprovado e oferecido pelos bancos, que é usado pelo correntista na ausência de um planejamento financeiro.
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No caso específico dos aposentados, Lages destaca a falta de planejamento para a terceira idade, aconselhando que, quem ainda não chegou lá, separe parte dos ganhos a longo prazo.
A especialista afirma que apesar das dificuldades, há oportunidades para pagar as contas pendentes, como a lei do superendividamento e mutirões para pagamento e renegociação das dívidas.
Ajuda do Governo
Em meio ao cenário de endividamento recorde, o governo federal estuda liberar até R$ 7 bilhões do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como parte de um pacote para aliviar a situação das famílias.
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Além disso, há um estudo para lançar um programa de renegociação de dívidas focado nas modalidades mais caras, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.
o Economista Bruno Corano ressalta, contudo, que, embora as iniciativas de renegociação ajudem, elas não abordam a necessidade essencial de aumentar a renda dos cidadãos.
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