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Alfabetização transforma realidade e devolve autonomia a adultos 50+

Montagem/Divulgação Instituto Paulo Freire

Quatro educandos 50+ contam os desafios que os levaram a deixar a escola na infância e retomar na vida adulta - Montagem/Divulgação Instituto Paulo Freire
Quatro educandos 50+ contam os desafios que os levaram a deixar a escola na infância e retomar na vida adulta
Por Bianca Bibiano

08/09/2026 | 14h38

São Paulo - As narrativas sobre alfabetização de adultos costumam ser acompanhadas por dados que dimensionam o problema e revelam os milhões de brasileiros que convivem diariamente com as limitações provocadas pela falta de domínio da leitura e da escrita.

O cenário, porém, ganha contornos mais humanos quando observado a partir de histórias de pessoas 50+ como as de Vanderlucia Tavares da Silva, Grécia Maria de Abreu Moura Cordeiro, moradoras de Fortaleza (CE), e Maria Francisca de Alencar e Crispim Cesar Esquivel dos Reis, de São Francisco do Conde (BA).

Para eles, retomar a alfabetização representa a oportunidade de transformar situações que durante décadas fizeram parte da rotina. Confira mais nos relatos a seguir:

Alfabetização muda rotina e ajuda a superar barreiras

Para quem não conseguiu estudar na infância, a falta de domínio da leitura e da escrita pode significar dependência e constrangimento em tarefas aparentemente simples, como identificar o nome de uma linha de ônibus, ler uma placa de rua ou preencher uma ficha para solicitar um documento.

Vanderlucia Tavares da Silva, de 58 anos, moradora de Fortaleza (CE), nasceu em Cacimba de Dentro. Criada sem os pais e com uma infância marcada pelo trabalho na roça, ela conta que nunca teve oportunidade de frequentar a escola.

Minha vida toda foi só trabalhar para os filhos. Não tive lazer, eu não tinha nada. Aí agora, depois dessa idade todinha, eu voltei a estudar, eu nunca tive essa oportunidade na vida."
Vanderlucia Tavares da Silva, de 58 anos, moradora de Fortaleza (CE)
Vanderlucia Tavares da Silva, de 58 anos, moradora de Fortaleza (CE), está no segundo ano de EJA - Divulgação

O incentivo veio dos filhos e ela buscou a escola há cerca de dois anos. "Meus filhos diziam 'Mãe, ainda tá em tempo de estudar'. Porque quando eu pegava o ônibus, eu pegava o ônibus errado. Eu parava em bairro que eu nem conhecia. Todo mundo pegava, eu ficava para trás, tinha vergonha de perguntar o nome daquele ônibus. Hoje não, hoje eu sei para onde eu vou."

Atualmente, ela trabalha cuidando de pessoas idosas e frequenta as aulas à noite. Conta também que a escola se tornou um espaço de convivência: "Eu me sinto muito bem na sala de aula. Ali é como fosse uma família para mim."

Autonomia, comunicação e novos objetivos

Grécia Maria de Abreu Moura Cordeiro, de 54 anos, moradora de Fortaleza (CE), também interrompeu os estudos ainda criança. Ela deixou a escola por volta dos 12 anos e foi para a capital, onde trabalhou, se casou e criou as filhas.

Hoje, com as filhas encaminhadas, decidiu retomar um projeto que havia ficado para trás. Ela conta que vê com orgulho o fato de as filhas acompanharem sua trajetória e comemorarem a decisão de voltar à escola. "Elas terminaram o terceiro ano e agora é a minha vez, né?"

Para Grécia Maria, o retorno aos estudos também mudou sua forma de se comunicar. Ela se considera hoje mais aberta e menos tímida. A educanda questiona ainda o rótulo de analfabeta atribuído a quem não concluiu a escolarização formal.

Grécia Maria de Abreu Moura Cordeiro, de 54 anos, moradora de Fortaleza (CE)
Grécia Maria de Abreu Moura Cordeiro, de 54 anos, de Fortaleza (CE), está focada em terminar o ensino médio - Divulgação 
"Primeiro, o pessoal disse que a gente é analfabeto. Mas eu não me sinto analfabeta, eu sei ler, sei escrever, sei a tabuada, mas eu não tenho currículo no terceiro ano. A minha expectativa é terminar o ensino médio, concluir, e ter meu diploma ali na mão, e quem sabe fazer um curso e seguir em frente."

Embora reconheça as limitações da ausência de um diploma, afirma que já domina conhecimentos que utiliza no cotidiano. "Eu estou aprendendo mais, me comunicando mais e está sendo muito bom. [...]. Agora são elas que ficam orgulhosas", resume, fazendo referência às filhas.

Realização e projeto de vida

A trajetória de Maria Francisca de Alencar, de 58 anos, também foi marcada pela prioridade dada à formação dos filhos. Nascida no Ceará e pertencente aos povos ciganos, ela deixou a escola cedo por questões familiares.

Maria Francisca de Alencar, de 58 anos
Maria Francisca de Alencar, de 58 anos, mãe de cinco professores, retomou estudos na vida adulta - Divulgação

Hoje, nos anos finais do ensino fundamental na EJA, aproveita as oficinas para entrar em contato com linguagens que não fizeram parte de sua infância, entre elas as artes. Para ela, voltar à escola significa finalmente ter acesso a uma oportunidade que não existiu durante a infância.

"Para mim é maravilhoso porque inicia uma formação, um aprendizado bom. No meu tempo de criança, eu não tive essa oportunidade. E hoje, na minha idade, apesar de tantos anos, estou conseguindo fazer o que eu gosto, o que eu tenho vontade de fazer."

O retorno aos estudos aconteceu depois que os cinco filhos, todos professores, concluíram a própria formação. "São cinco filhos, todos são professores. Eu senti uma necessidade de fazer uma coisa que eu nunca pude, que eu não tive como fazer no início da vida."

Maria Francisca diz que a EJA representa uma oportunidade de aprendizado e qualificação que chegou mais tarde, mas ainda em tempo de transformar sua trajetória. "Eu me sinto realizada por ter encontrado um EJA desse. É uma riqueza pra gente adulto aprender e se qualificar melhor."

Luta contra o constrangimento

Crispim Cesar Esquivel dos Reis, de 60 anos
Crispim Cesar Esquivel dos Reis, de 60 anos, recomenda retorno aos estudos - Divulgação

A dedicação aos filhos e a interrupção precoce dos estudos também marcaram a trajetória de Crispim Cesar Esquivel dos Reis, de 59 anos, de São Francisco do Conde, na Bahia.

Desempregado atualmente, está no equivalente ao 5º ano do ensino fundamental. Conta que decidiu voltar à escola por entender que "precisava acompanhar as mudanças do mundo e não ficar para trás". 

Ele destaca que é agradecido em relaçaõ às professoras e que a escola o leva para o "caminho do bem".

Quem não está estudando, volte a estudar, é uma coisa rara".

Crispim conta que presenciou com vergonha uma cena em que uma pessoa precisou usar a digital para assinar um documento: "É a pior coisa do mundo não poder assinar", e faz um apelo: "Volte a estudar, lá na frente a gente vai ter um futuro."

Desafios da alfabetização de adultos e idosos no Brasil

Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 8,4 milhões de pessoas analfabetas. Desse total, 58% têm 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 4,9 milhões de idosos nessa condição. O índice representa 13,8% da população dessa faixa etária.

A concentração do analfabetismo entre os mais velhos reflete um contexto histórico. São gerações que nasceram entre as décadas de 1950 e 1970, quando o acesso à educação era mais restrito, sobretudo nas zonas rurais e periferias. Para muitas famílias, o trabalho infantil e a necessidade de contribuir para o sustento doméstico acabavam se sobrepondo ao direito de frequentar a escola.

Os autores dos relatos trazidos pelo VIVA, por exemplo, conseguiram retomar o controle de sua formação educacional somente após os 50, junto a oficinas de escrita e leitura do Projeto ALFA-EJA Brasil, realizado pelo Instituto Paulo Freire em parceria com a Petrobras. A iniciativa acontece em 15 municípios e atualmente beneficia mais de alunos 1.200 da rede pública, além de professores que passam por diferentes tipos de formação. 

Segundo a coordenadora-geral do projeto e doutora em educação Francisca Elenir Alves, as atividades utilizam múltiplas linguagens e valorizam a cultura e a história de vida do educando trabalhador. Entre as ações estão a apreciação de obras de escritoras como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, intervenções de arte de rua com grafiteiros locais e atividades com grafismo indígena em municípios do norte do Amazonas.

Apesar da melhoria dos índices de analfabetismo, Elenir relata que a EJA enfrenta desafios estruturais a nível nacional e local. "Nas regiões Norte e Nordeste, o índice de analfabetismo chega a 10,6%, bem acima da média nacional. [...] A presença expressiva de idosos nas turmas ocorre ao mesmo tempo em que a chamada 'juvenização' da EJA amplia a diversidade etária das salas de aula".

Nesse cenário, ela defende ações de formação de professores para facilitar o desenvolvimento de turmas intergeracionais, nas quais convivem estudantes com diferentes trajetórias e necessidades. Reforça também a necessidade de ampliação de apoio financeiro que ajude na permanência dos estudantes, como o Pé-de-Meia, que atualmente beneficia apenas estudantes até 25 anos de idade.

Ainda segundo a coordenadora do projeto, a violência urbana e a falta de transporte gratuito estão entre os fatores que desmotivam os estudantes mais velhos a retomar os estudos. "Se ele não tiver uma escola que oferte perto da casa, fica difícil ir. E se for tirar o recurso do transporte do próprio orçamento, não dá", finaliza.

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