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Tempo livre virou artigo de luxo para 77% dos brasileiros, diz estudo

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O cansaço e falta de tempo impulsiona a chamada "economia do eu mereço", onde a conveniência e a previsibilidade são comercializadas para mitigar essas sensações - Adobe Stock
O cansaço e falta de tempo impulsiona a chamada "economia do eu mereço", onde a conveniência e a previsibilidade são comercializadas para mitigar essas sensações
Por Emanuele Almeida

24/08/2026 | 08h22

São Paulo - Ter tempo livre para si mesmo deixou de ser parte da rotina comum e se tornou um artigo de luxo: segundo estudo da Casa Mundo Latam, para 77% dos brasileiros, conseguir um momento para si virou um verdadeiro privilégio. Essa escassez crônica não é um fato isolado; ela acompanha a percepção de outros 77% de que a vida está consideravelmente mais cansativa do que deveria.

A coincidência do mesmo patamar percentual reforça a tese do estudo de que a exaustão diária e a falta de tempo para si são problemas diretamente conectados na realidade do País.

Diante de um cotidiano marcado pelo esgotamento mental e pela sobrecarga, decisões simples — como pedir uma refeição diferenciada após um dia exaustivo, pagar por um frete expresso ou optar por transporte individual mais confortável — deixaram de ser meros mimos esporádicos para atuar como ferramentas de alívio e sobrevivência diária.

É o motor que impulsiona a chamada "economia do eu mereço", onde a conveniência e a previsibilidade são comercializadas como o recurso definitivo para mitigar o estresse.

Contradição do dinheiro

Os dados do estudo revelam um ciclo irônico na rotina moderna: embora a preocupação financeira lidere as dores e fatores de estresse na vida dos entrevistados, o próprio dinheiro é apontado como o principal meio para aliviar o desgaste gerado por essa rotina. O dinheiro atua, simultaneamente, como a causa da ansiedade cotidiana e como o remédio imediato para comprar pequenas pausas e confortos.

"Novo premium"

A pesquisa aponta que o consumo de produtos e serviços "premium" mudou radicalmente de significado. No passado, pagar mais caro estava fortemente associado à busca por status social ou exclusividade. Hoje, o consumidor aceita pagar um valor adicional primariamente para evitar problemas e reduzir o atrito do dia a dia.

Ao justificarem a opção por experiências ou produtos superiores, os brasileiros priorizam:

  • Buscar mais conforto: 55%;
  • Evitar problemas: 51%;
  • Ter mais segurança: 49%;
  • Ganhar tempo: 37%;
  • Exclusividade ou status: 18%.

De acordo com a fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam, Adriana Hack, "cresce outra lógica: pagar para evitar problemas. A fila, a espera, o atraso e o imprevisto passam a ser tratados como situações que podem ser evitadas por quem possui recursos. A tranquilidade também se transformou em produto".

Sucateamento do básico

Essa migração para os serviços pagos e premium é acelerada por uma forte desconfiança em relação aos serviços padrão:

  • 52% dos brasileiros acreditam que as experiências e serviços considerados básicos funcionam mal de maneira intencional para induzir os clientes a assinarem ou migrarem para as versões premium;
  • Ao somar os entrevistados que concordam parcialmente com essa afirmação, o índice de percepção de "sucateamento" atinge alarmantes 94% da população.

Um exemplo nítido que o estudo cita, ocorre nos serviços digitais e de streaming, que limitam recursos básicos, como boa qualidade de áudio e imagem ou ausência de anúncios, a planos mais caros, transformando o "premium" na única via de acesso a uma experiência completa.

Risco de isolamento

Embora a busca por conforto e autocuidado seja uma reação legítima ao desgaste, o estudo faz um alerta sobre os limites desse comportamento. Recursos tecnológicos que nos permitem programar previamente a temperatura de um carro de aplicativo, silenciar interações humanas, pular esperas ou receber entregas instantâneas criam uma ilusão de controle absoluto sobre a realidade.

Segundo Adriana Hack, eliminar todo e qualquer inconveniente pode enfraquecer nossa resiliência emocional e tolerância social.

Quando a pessoa passa a pagar para não esperar, não conversar, não se adaptar ou não lidar com nenhum imprevisto, o conforto deixa de ser uma escolha pontual e passa a organizar sua relação com o mundo".

Ao evitarmos conversas, esperas e adaptações, corremos o risco de moldar uma sociedade cada vez mais intolerante a atritos e isolada do convívio humano real, segundo ela.

Como o estudo foi feito

Para compreender as profundas transformações na relação de consumo na América Latina sob a ótica do esgotamento, a consultoria de inteligência de mercado e comportamento Casa Mundo Latam realizou o estudo "Status Quo do Me Mimei".

A pesquisa quantitativa e qualitativa foi a campo em julho de 2026 e ouviu 524 pessoas distribuídas no Brasil, México, Colômbia e Argentina. O levantamento investigou como o cansaço acumulado alterou estruturalmente a percepção dos latino-americanos sobre conceitos fundamentais de conforto, necessidade e bem-estar.

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