'Quem Ama Cuida' retrata relacionamento abusivo: por que é difícil sair?
Globo
São Paulo - A novela 'Quem Ama Cuida' retrata um relacionamento abusivo entre Tom (Allan Souza Lima) e Elenice (Mariana Sena). Desde as chamadas, Elenice é descrita como uma mulher que não consegue perceber o quanto seu casamento é tóxico.
Profissionais de saúde mental destacam que existe diferente entre uma discussão pontual, comum em relacionamentos amorosos, e um padrão de comportamento danoso que vai progressivamente reduzindo a autonomia e a autoestima do outro. Homens e mulheres podem ser vítimas de relações tóxicas.
Leia também
Os primeiros sinais de alerta de um relacionamento tóxico são comportamentos de controle fantasiados de cuidado, de acordo com as psicólogas Joyce Rezende e Thais Belluci, da equipe de atendimento da Defensoria Pública na Casa da Mulher Brasileira. Exemplos disso são:
- Controle sobre a rotina: o parceiro insiste em buscar ou acompanhar em todos os lugares, dificultando a convivência com colegas e amigos.
- Controle sobre amizades: passa a controlar com quem o parceiro conversa ou demonstra incômodo quando mantém contato com determinadas pessoas.
- Exigência de senhas: pedir ou exigir senhas de celular, redes sociais e e-mail pode ser um sinal de controle e invasão da privacidade.
- Afastamento da família e dos amigos: o parceiro afirma que familiares e amigos não são confiáveis, não gostam dele ou não se importam com ela.
- Críticas constantes: o parceiro desvaloriza conquistas, aparência, roupas ou comportamentos e exige mudanças na forma como se veste ou se apresenta.
- Piadas que diminuem a autoestima: comentários ofensivos são apresentados como brincadeiras, mas acabam reforçando inseguranças.
- Ciúme tratado como prova de amor: atitudes de controle e possessividade podem ser normalizadas como demonstrações de carinho.
Esses comportamentos retratados na novela podem gerar isolamento e perda da rede de apoio ou ainda fazer com que a vítima acredite que só pode contar com o companheiro. Um risco é, por conta da manipulação e culpabilização, que a vítima acredite que é culpada ou responsável pelos problemas da relação.
Por que é tão difícil deixar um relacionamento abusivo?
Essa situação gera um ciclo de violência, segundo as psicólogas da Defensoria Pública. O envolvimento da vítima aumenta pela alternância entre momentos de carinho e de violência, o que aumenta a esperança da reconciliação, mesmo que reconheça que os comportamentos do parceiro são nocivos.
Sair de uma relacionamento abusivo não é uma decisão racional, segundo a psiquiatra Maria Isabel Nestarez, especialista em saúde mental da mulher pela USP. "Existe vínculo afetivo, história compartilhada, dependência emocional ou financeira, medo e, muitas vezes, um processo gradual de perda de autonomia".
O medo de ser afastado da rotina, casa, filhos e família também é uma forma de controlar a vítima. Agressores podem usar de tratamento de silêncio ou gaslighting (alteração da realidade propositalmente) para que a vítima duvide da própria sanidade mental.
Quanto mais a pessoa é desqualificada, mais passa a duvidar da própria capacidade de tomar decisões", aponta a psiquiatra.
Relacionamento abusivo deixa sintomas psicológicos
Um “relacionamento tóxico” não é um diagnóstico médico, apontou Nestarez. Nesses casos, do ponto de vista da saúde mental, é avaliado o impacto daquela relação sobre a vítima e a dinâmica que se estabelece entre o casal.
A psiquiatra destaca que uma relação cronicamente estressante pode contribuir para o surgimento de sintomas psiquiátricos ou agravar condições que já existiam. "Em uma avaliação, é muito importante entender não apenas os sintomas, mas também o contexto em que eles aparecem", disse.
A vítima pode perceber sintomas como culpa e hipervigilância, de estar constantemente esperando que algo ruim aconteça. Ou ainda sentimentos como ansiedade, irritabilidade, tristeza, alterações do sono, dificuldade de concentração, perda de prazer, insegurança e queda de autoestima.
O estresse da relação ainda pode desencadear até sintomas físicos, como dores de cabeça, alterações gastrointestinais e tensão muscular, disse a psiquiatra. Mesmo que o sofrimento continua após o término, a psiquiatra destaca que muitas vezes deixar a relação abusiva é o começo da recuperação.
O término encerra a relação, mas não necessariamente encerra imediatamente os efeitos psicológicos que ela produziu. Por isso, reconstruir a própria identidade depois de uma relação muito prejudicial pode ser um processo".
Como a família e amigos podem ajudar?
De acordo com a Defensoria Pública, familiares e amigos podem ajudar colocando-se à disposição da vítima, oferecendo apoio tanto emocional quanto financeiro. As psicólogas apontam que o apoio não pode cessar, mesmo que a vítima retome a relação por estar em um ciclo de violência e de dependência.
A psiquiatra recomenda que a rede de apoio ouça a vítima sem julgá-la ou pressioná-la a tomar uma decisão. Quando alguém está em uma dinâmica difícil, muitas vezes não consegue enxergar o padrão imediatamente, e um confronto agressivo pode afastá-la.
A rede de apoio tem a função de devolver à vítima aquilo que a relação abusiva frequentemente retira: autonomia, segurança e capacidade de confiar em si mesma.
Dicas do que dizer à vítima:
- Você se sente respeitado nessa relação?
- Você consegue dizer não?
- Você se sente livre para encontrar seus amigos?
- Você tem medo da reação dele ou dela?
- Você se sente mais você mesmo ou menos você mesmo desde que começou essa relação?
Diante de violência ou ameaça à integridade física, a prioridade é a segurança e a construção de uma rede de proteção. Esta rede pode envolver familiares e amigos, mas também suporte psicológico, apoio jurídico e financeiro, e serviços especializados para situações de violência.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.