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Diacho de Gringo: do telejornalismo americano ao calor das feiras brasileiras

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O jornalista William Jeffrey, de 68 anos, é o idealizador do canal 'Diacho de Gringo' - Divulgação
O jornalista William Jeffrey, de 68 anos, é o idealizador do canal 'Diacho de Gringo'
Por Alessandra Taraborelli

26/04/2026 | 08h25

São Paulo - Depois de mais de 40 anos anunciando notícias urgentes e grandes tragédias nos telejornais dos Estados Unidos, o jornalista William Jeffrey, de 68 anos, decidiu que sua próxima grande pauta seria o som das feiras livres e o 'fica com Deus' das ruas brasileiras. Aposentado da TV norte-americana, mas recém-nascido na cultura verde-amarela, o criador do canal 'Diacho de Gringo' trocou a correria de Massachusetts pelo 'jogo de cintura' paulistano, provando que o Brasil não é apenas um destino turístico, mas um mestre na arte de viver.

Casado com uma brasileira, Jeffrey resolveu mudar para o Brasil em 2024, após se aposentar e sua esposa ainda continuar trabalhando como tradutora. Durante décadas, ele foi âncora e repórter de telejornal no nordeste dos Estados Unidos, trabalhando em cidades como Washington, D.C., Baltimore, Filadélfia e Boston. Ele revela que, com o tempo, certas coberturas acabaram pesando, especialmente quando você busca manter a objetividade todos os dias, como aconteceu em momentos marcantes como os atentados de 11 de setembro.

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Hoje, ele escolheu o Brasil para contar histórias leves e prazerosas, que vêm de dentro, e não de uma redação. A ideia do canal, que fala sobre o Brasil de uma forma carinhosa e com a visão de um turista que se encanta e se surpreende com o que encontra pela frente, surgiu por acaso, a partir de uma sugestão da esposa.

Sempre fui apaixonado por contar histórias de forma visual, e foi ideia dela levar isso para as redes sociais. Foi aí que comecei a reparar nas pequenas diferenças culturais: chuveiros elétricos, pizza com garfo e faca, feiras livres… E quando transformei tudo isso em conteúdo, virou um verdadeiro intercâmbio cultural com o público. Tem sido um aprendizado incrível, e só reforça que essa mudança foi uma das melhores decisões da minha vida.”

Veja a seguir trechos da entrevista com Jeffrey.

VIVA - Como sua profissão ajuda a filtrar o que é apenas exótico e o que é a essência da cultura brasileira?

William Jeffrey - Ao longo da minha carreira como jornalista, sempre tive prazer em fazer matérias nos EUA sobre temas que pouca gente conhecia — inclusive eu mesmo. Eu encontrava um tema, ficava fascinado por ele e decidia contar aquela história. Meu objetivo era provocar a reação: “Nossa, eu não fazia ideia!”.

Agora, no Brasil, sinto que estou fazendo exatamente a mesma coisa. Adoro descobrir curiosidades e fatos que passam despercebidos, esperando alguém contar suas histórias. Eu encaro meus vídeos como se estivesse sentado no sofá da casa de um desconhecido, empolgado para contar algo que acabei de descobrir. E se a pessoa fica tão animada quanto eu, me sinto realizado.

De onde surgiu a ideia de batizar o canal com esse nome?

Eu estava gravando um conteúdo em frente ao Museu do Ipiranga. Era um vídeo leve, brincando com o fato de eu ser um gringo desavisado, achando que estava nos Jardins de Versalhes. Na brincadeira, minha esposa me corrigia, dizendo que eu estava em São Paulo — e eu arrematava com um “Diacho de gringo!” O “diacho” foi ideia dela. Assim que ouviu a frase no final do vídeo, ela falou na hora: esse precisa ser o nome do canal. Tem um tom bem regional, brincalhão, e combina com a minha personalidade.

Qual foi o lugar que mais te desafiou ou que quebrou um preconceito que você nem sabia que tinha?

Willian Jeffrey, idealizador do canal Diacho de Gringo
Willian Jeffrey, criador do canal Diacho de Gringo - Divulgação

Eu diria que foi a primeira vez que visitei as Cataratas do Iguaçu. Quando vi aquelas quedas magníficas pela primeira vez, fiquei completamente impressionado por dois motivos. O primeiro é que, no ensino médio em Nova Jersey, quando estudávamos as grandes maravilhas naturais com o sr. Ferguson, ninguém sequer mencionou Iguaçu. E até hoje eu me pergunto: por quê? Aprendemos sobre as Cataratas do Niágara e o Grand Canyon, mas nada sobre essas Cataratas do Brasil. Se eu encontrar o sr. Ferguson um dia, terei uma longa conversa com ele.

O segundo motivo é que as Cataratas do Iguaçu parecem ter resistido ao tempo. Ainda conservam uma aparência muito próxima de como eram há milhares de anos, quando os povos indígenas viviam ali. Diferente das Cataratas do Niágara — que são lindas, sem dúvida — mas hoje são cercadas por cassinos, cafeterias e luzes de néon por todos os lados. Fico feliz em ver que as Cataratas do Iguaçu ainda estão cercadas por florestas exuberantes, habitadas por espécies que já estavam ali muito antes da chegada dos humanos. Proteger a biodiversidade da Mata Atlântica para as futuras gerações é algo essencial.

Cite três experiências turística que você usaria para apresentar o Brasil para um gringo.

Em primeiro lugar, eu destacaria a gentileza, a engenhosidade e a hospitalidade do povo brasileiro — algo que vejo todos os dias. Em segundo, a comida: a diversidade de sabores de cada região, da moqueca da Bahia aos queijos e cafés de Minas Gerais, passando pela variedade quase infinita de restaurantes em São Paulo. E, sobretudo, o fato de muitos desses lugares ainda serem tocados por famílias, com receitas passadas de geração em geração: algo muito especial para quem vem de uma cultura mais voltada ao fast food.

Por fim, o equilíbrio entre vida e trabalho. Nos Estados Unidos, eu vivia para trabalhar. Aqui no Brasil, estou aprendendo a desacelerar, respirar e aproveitar mais a vida. É quase uma desprogramação, e, para mim, além de admirável, é muito mais saudável.

Qual foi o vídeo que fez você perceber que mostrar o lado positivo do Brasil seria uma boa ideia?

Foi um que eu fiz há mais de um ano sobre algo que realmente me chama atenção: pessoas dizendo “fica com Deus” umas às outras. Eu escuto isso às vezes ao sair de um Uber, mas também vejo acontecer entre desconhecidos na rua. Para mim, isso é completamente novo. Nos Estados Unidos, é comum ouvir “God bless you” entre familiares ou pessoas próximas, mas não entre estranhos. Então fiz um vídeo sobre como os brasileiros usam essa expressão tão bonita no dia a dia, e a resposta foi extremamente positiva. Foi um verdadeiro momento de descoberta para mim.

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Depois de tanto tempo mergulhado na nossa cultura, o que hoje em você é "mais brasileiro que americano"?

Ainda sinto que estou passando por uma espécie de “desintoxicação” da cultura de trabalho do meu antigo país. Tenho colocado minha saúde como prioridade, mais do que nunca. Mas agora sinto isso diminuindo, tanto física quanto emocionalmente, e é muito revigorante. De vez em quando, minha paciência ainda é testada aqui no Brasil, mas estou aprendendo a levar tudo com mais leveza, até rir da situação. Se algo não acontece no tempo que eu quero, tudo bem, o mundo continua girando. Os brasileiros têm me ensinado muito sobre paciência.

Como você seleciona os lugares para trazer no seu canal?

É algo muito natural. Eu visito um lugar, aprendo alguma coisa, converso com alguém e, de repente, aparece uma ideia. Essa é a parte mais divertida de fazer esses vídeos. Eu não faço ideia do que vou postar na semana que vem. A única certeza é que vou postar alguma coisa. Era algo que eu também gostava muito no jornalismo. Seu dia e sua semana são guiados por coisas que ainda nem aconteceram. E isso é, sem dúvida, parte da emoção.

Qual é a coisa mais curiosa que você conheceu no Brasil?

Diria que o Sistema Único de Saúde (SUS) e os excelentes profissionais que tive o prazer de conhecer. Nenhum sistema é perfeito, e sei que o Brasil também enfrenta desafios. Mas o meu país de origem também tem grandes dificuldades quando o assunto é acesso a uma saúde de qualidade. Eu acredito que o acesso ao mais alto padrão possível de saúde é um direito fundamental de todo ser humano, independentemente de raça, religião, crença política ou condição social e econômica. E vejo o Brasil caminhando nessa direção. É algo inspirador.

Você acha que as empresas são preconceituosas em ter colaboradores 50+?

Acho que seria ingênuo da minha parte dizer que não. Muitas empresas nos Estados Unidos são obrigadas a arcar com planos de saúde para seus funcionários. E, naturalmente, quanto mais velha a pessoa, maior tende a ser a necessidade de cuidados médicos, o que impacta os custos das empresas. Por mais frio que soe, é a realidade. Ainda assim, a experiência que profissionais com mais de 50 anos trazem é extremamente valiosa e, muitas vezes, negligenciada

Quais as principais diferenças entre viver no Brasil e nos EUA?

Acho que a principal diferença é o ritmo de vida. Pelo que tenho observado, os brasileiros valorizam o tempo que têm com amigos e familiares. Isso é algo que eu quase não considerava quando vivia nos EUA, já que estava sempre focado na minha carreira. Olhando para trás, tenho muito orgulho da minha carreira e do que conquistei. Mas, olhando para frente, estou aprendendo aos poucos uma nova forma de valorizar o meu tempo. E isso é algo que eu provavelmente nunca teria aprendido se não tivesse me mudado para o Brasil. Hmm. Acabei de ter uma ideia para um novo vídeo…

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