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Sem desculpas: Vovó Zilda de 107 anos treina o corpo e a mente em casa

Arquivo Pessoal

Vovó Zilda com o seu neto, Nikolas Chavez, faz exercícios físicos todos os dias, treinando também cognição - Arquivo Pessoal
Vovó Zilda com o seu neto, Nikolas Chavez, faz exercícios físicos todos os dias, treinando também cognição
Por Alessandra Taraborelli

24/06/2026 | 11h20

São Paulo - Se você é daquelas pessoas que têm preguiça de fazer exercícios, precisa conhecer Zilda Franco Chavez, de 107 anos. Ela se exercita três vezes por semana e caminha duas vezes por dia. O personal trainer dela é o neto Nikolas Chaves Nascimento, profissional de Educação Física que atua há 18 anos com o público idoso.

A ideia começou logo após ele sair da faculdade. Nikolas conta que a avó tinha uma fisioterapeuta que a atendia em casa e, como estava se formando, pensou: por que não atender ele mesmo. Isso foi quando ela tinha 89 anos — ou seja, ela começou octogenária e hoje é uma centenária, próxima de se tornar uma supercentenária - termo usado para quem alcança a faixa etária de 110 anos ou mais, um subgrupo raro entre a população de centenários.

“Eu comecei a me aventurar no universo dos exercícios físicos voltados para a população idosa e, desde então, venho acompanhando minha avó, paralelamente a outros projetos da área, como academia e treinamento esportivo”, explica.

Zilda afirma que gosta de fazer os exercícios com o neto e de fazer suas caminhadas todos os dias. Além disso, ela conta que adora ler e estudar os grandes mestres da espiritualidade, o que também ajuda na preservação cognitiva.

Eu tomo sol todas as manhãs, é vitamina D, muito importante. Isso é saúde. Também contemplar a criação divina. Ser feliz é respirar e agradecer a todo momento pela vida, pela saúde, pelo sol que nos aquece. A vida é uma canção eterna, uma alegria.”

O neto conta que a vovó é muito animada. “Sempre que eu chego aqui, ela está disposta. Eu falo: 'Vó, vamos ali treinar?' e ela vai. Mas agora tenho muita atenção para não deixá-la cansada. Tem que ser bem delicado, sutil, para ela passar o dia com vigor. Mas a vovó Zilda, em geral, sempre é animada.”

Exercício físico e desafios para o cérebro

Nascimento explica que desenvolveu um modelo que trabalha o físico e a cognição simultaneamente: ele passa o movimento e, ao mesmo tempo, pede para ela fazer uma conta e/ou uma rima. O estímulo motor foca na força, como o ato de levantar da cadeira. O estímulo cognitivo é, justamente, essa dupla tarefa, que melhora tanto a mente quanto a mobilidade.

A autonomia está mais ligada à cognição, comportamento, humor e aspectos de saúde mental, por exemplo; já a independência diz respeito à mobilidade e à comunicação.”

Ele ressalta que, se essa autonomia e independência começam a ser comprometidas, a capacidade funcional sofre um declínio, levando o idoso a um quadro de fragilidade. "É tudo o que a gente evita”, afirma.

Qual o treino ideal conforme a idade avança?

Segundo o profissional, há uma grande diferença entre prescrever treinos para uma pessoa de 89, 95 ou 106 anos. Por isso, é necessário ajustar as cargas conforme a idade.

Com o passar dos anos, é natural diminuir o volume do treinamento em relação ao número de exercícios, à intensidade e à duração da sessão — que hoje, no caso da dona Zilda, é mais curta. “A gente treina três vezes por semana, com uma duração de no máximo 15 minutos de exercícios de força muscular. Ao longo do processo, fui diminuindo o volume e a intensidade, até pela segurança dela, para minimizar riscos e não deixá-la muito cansada”.

Além disso, para reduzir o tempo de sedentarismo da vovó, as cuidadoras fazem pequenas caminhadas com ela duas vezes por dia – de manhã e à tarde – por cerca de 10 minutos cada.

Ainda de acordo com o profissional, hoje a recomendação para a pessoa idosa vai além da caminhada: é preciso incluir exercícios fisícos. A preparação física ideal para essa faixa etária chama-se treinamento multicomponente ou multimodal. Ou seja, deve-se praticar exercícios de alongamento, flexibilidade e equilíbrio (focando na prevenção de quedas), além da resistência aeróbica. Isso diminui a possibilidade de adoecer e aumenta a longevidade.

Ele explica ainda que exercício físico é diferente de atividade física. Atividade física é todo movimento do corpo que gasta energia, como levantar de uma cadeira. Já o exercício físico é planejado e tem o objetivo de melhorar a resistência e a capacidade locomotora.

A avó confirma: "Ele é muito inteligente e gosta muito do que faz. Ele ama, sabe? Eu faço tudo com muita felicidade.”

Como começar

O neto da dona Zilda lembra que muitos idosos e familiares têm medo de começar, por acharem que a pessoa está velha demais para um novo desafio. Mas, segundo ele, não há desculpa.

A boa notícia é que as adaptações ao treinamento ocorrem em todas as idades: no jovem, no adulto e no idoso. Então, se a pessoa começa, ela vai gozar dos benefícios da prática para a melhora da saúde. Evitar o sedentarismo é fundamental para afastar a fragilidade e o declínio funcional.”

Ele ressalta a importância de trocar hábitos sedentários por movimentos e explica que, quanto menor for o tempo de inatividade, melhor será a saúde.

“Isso não quer dizer que a pessoa precise treinar pesado diariamente. O simples fato de fazer mais atividade física já ajuda. Por exemplo: se ficou uma hora sentada, fica em pé um pouquinho, anda 10 minutos... Isso ajuda muito, porque se eu diminuo 10 minutos do tempo sentado, ganho 10 minutos de atividade física”, detalha.

Se você ainda está com preguiça de começar suas atividades diárias, a vovó Zilda tem um recado:

Eu me amo, meu primeiro amor sou eu, porque Deus está dentro de mim. E se a gente ama a vida, fazer exercício para deixar de ser sedentário e praticar a respiração nos traz mais alegria. A gente sente que a obra da criação divina é maravilhosa, viver com amor e sabedoria. E a prática de exercícios físicos é uma ajuda importantíssima”, conclui.

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