Prazer feminino após os 50: mudanças do corpo impactam a sexualidade
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Por Larissa Crippa
redacao@viva.com.brSão Paulo, 27/01/2026 - O prazer feminino não desaparece com o passar dos anos. Apesar das mudanças físicas e hormonais que acompanham a maturidade, é possível viver uma vida sexual plena, satisfatória e alinhada às novas necessidades do corpo e das emoções. Com informação, autoconhecimento e cuidados adequados, muitas mulheres relatam inclusive uma relação mais consciente e confortável com o próprio prazer após os 50 anos.
Com o avanço da idade, o corpo feminino passa por transformações importantes, especialmente relacionadas à menopausa, que pode começar antes mesmo dos 50 anos.
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A ginecologista Fabiana Rabaiolli, especialista pelo Hospital Maternidade de Campinas e professora universitária, explica que a redução na produção de hormônios como estradiol, progesterona e testosterona provoca impactos diretos na vida sexual. “A queda do estrogênio pode causar ressecamento vaginal, dor na relação, diminuição da lubrificação e mudanças na sensibilidade e no tempo de excitação, o que afeta o desejo e o conforto sexual”, afirma.
Quando a dor ou o desconforto passam a fazer parte da experiência sexual, muitas mulheres evitam o sexo, o que pode levar à redução da libido.
Como lidar com a nova fase?
Do ponto de vista médico, existem diferentes estratégias para lidar com essas mudanças. A reposição hormonal individualizada é uma das principais abordagens, inclusive com o uso de hormônios bioidênticos, que se assemelham aos produzidos naturalmente pelo corpo.
Para mulheres que não podem fazer reposição hormonal, Fabiana Rabaiolli diz que existem alternativas como laser e radiofrequência vaginal, que estimulam a produção de colágeno e elastina e aumentam o fluxo sanguíneo na região íntima, melhorando a lubrificação e o conforto por períodos que variam de seis meses a um ano.
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Os cuidados diários com a saúde íntima também fazem diferença. O uso de sabonetes inadequados e duchas vaginais pode prejudicar a flora e a imunidade da vagina.
“Mesmo sabonetes de bebê não são indicados. É importante usar produtos específicos para a região íntima”, orienta a médica.
Relações sexuais confortáveis também contribuem para a circulação sanguínea local e para a saúde vaginal.
Os hormônios funcionam como uma sinfonia no corpo feminino. A abordagem precisa ser sempre individual, considerando também cortisol e hormônios da tireoide”, completa.
Bem-estar mental também influencia o físico

No campo emocional e psicológico, o prazer após os 50 passa por transformações, mas não necessariamente por perdas. Para a psicanalista e sexóloga Luciane Angelo, do Núcleo Brasileiro de Psicanálise (NBP), as mudanças físicas impactam a sexualidade, mas não determinam o fim da satisfação.
Após os 50 anos, o prazer feminino costuma passar por transformações que envolvem tanto o corpo quanto as emoções, sem que isso signifique necessariamente uma perda de satisfação”, afirma.
Segundo a psicanalista, embora as alterações corporais possam afetar a autoestima, essa fase também pode favorecer uma relação mais positiva com o próprio corpo. “Muitas mulheres passam a valorizar o prazer de forma mais ampla, incluindo intimidade, afeto e conexão emocional”, diz.
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A psicóloga Marina Vasco, especialista em sexualidade humana pela SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana), explica que essas mudanças começam bem antes da menopausa. “Cerca de dez anos antes da menopausa, o nosso cérebro e a nossa fisiologia já começam a passar por mudanças”, afirma.
Com a queda hormonal, o prazer tende a ficar mais lento e a exigir mais estímulo para gerar a mesma resposta de antes, o que faz com que muitas mulheres interpretem essa transformação como perda de desejo. “Quando isso não é compreendido, é comum confundir desequilíbrios hormonais com depressão. Não adianta dar remédio para depressão se o problema é hormonal”, reforça.
Para as especialistas, retomar ou aprofundar o prazer nessa fase passa pelo autoconhecimento. “É absolutamente possível descobrir novas formas de prazer depois dos 50”, afirma Luciane Angelo.
Segundo ela, muitas mulheres passam a explorar a sexualidade de maneira menos centrada no desempenho e mais conectada às sensações, ao próprio ritmo e à intimidade. Caminhos como ampliar o tempo de excitação, experimentar novos estímulos e buscar apoio profissional fazem parte desse processo.
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Prazer feminino é cercado de tabus
Marina explica que a lubrificação constante ajuda a evitar fissuras e desconfortos, já que a pele da região íntima se torna mais fina com o passar dos anos, e lembra também que vibradores podem facilitar o prazer em mulheres. “Esses recursos não deveriam ser vistos como tabu, mas como parte do cuidado com a saúde sexual”, afirma.
A relação com o próprio corpo é decisiva. “Se a mulher não está à vontade com o corpo, ela se reprime, e repressão não combina com entrega”, diz a psicóloga. Luciane Angelo complementa que, quando a mulher reduz a culpa, aceita as transformações corporais e entende a menopausa como uma nova etapa da vida, o prazer pode não apenas continuar, mas se tornar mais consciente e alinhado às necessidades da maturidade.
Pesquisas da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Pessoal (ABEMSS), de 2023, indicam que cerca de 50% das mulheres brasileiras nunca tiveram um orgasmo ao longo da vida.
Entre mulheres heterossexuais esse número é ainda mais expressivo, e apenas 12% associam prazer ao sexo. Em 2024, a revista Sexual Medicine também apontou que a desigualdade no acesso ao orgasmo e ao prazer sexual afeta mulheres em todas as idades.
Em um estudo com quase 25 mil adultos entre 18 e 100 anos, mulheres relataram orgasmos com menos frequência do que homens ao longo de toda a vida, evidenciando que o chamado “orgasm gap” não é exclusivo da maturidade, mas atravessa diferentes fases da experiência feminina.
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