'Não penso em parar, nem quando morrer', diz dono do Famiglia Mancini
Manuela França/Viva
São Paulo, 18/02/2026 - Com 83 anos, Walter Mancini, proprietário de três restaurantes e uma loja de arte, sendo um deles o Famiglia Mancini, um dos restaurantes italianos mais famosos da cidade de São Paulo, não pensa em parar, nem quando morrer.
O Famiglia Mancini, lembra ele, começou por necessidade, sem planejamento. Antes, o espaço abrigou três outros restaurantes, mas nenhum deles se manteve aberto. Isso ocorreu, na sua opinião, em razão de o imóvel, à época, ter como vizinho o emblemático Gigetto, que recebia artistas e o pessoal do teatro e do cinema.
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Na época, a casa que abrigaria o restaurante foi colocada à venda e queriam negociar. Mesmo sem dinheiro, ele não desistiu. Procurou um amigo e pediu emprestado. Para explicar como conseguiu sobreviver ao lado de um restaurante tão famoso, ele menciona o ditado popular: “Onde come o peixe grande, come o peixe pequeno. Falei: vou ficar ao lado dele, que eu pego a sobra e vou vivendo.”
Amizades valiosas
O empresário, filho de imigrantes italianos, teve ajuda de muitos amigos para começar o restaurante - antes do restaurante, Mancini era DJ.
Um amigo desmontou a vitrola, me deu o toca-disco, o outro trouxe garrafas para o bar, a vizinha me dava torta para vender, o outro falsificava um salame... A vida foi assim. Eu ligava e dizia: vem me ajudar, estou vendendo macarrão."
Mancini revela que não sabia cozinhar e chamou a mãe para cuidar de cozinha e a tia, para ficar no caixa, e ele foi para o salão. Amigos cozinheiros iam "dar uma mão" nas horas de folga e ajudavam a sua mãe. Assim nasceu o Famiglia Mancini.
Sucesso desde o começo
Já no início, o restaurante começou a ter fila de espera e era frequentado pelo pessoal do teatro, cinema, cantores e músicos. Logo foi encontrando seu eixo, seu universo. A fila, aliás, se mantém até os dias de hoje.
Se você me perguntar se a Famiglia Mancini é fruto do meu talento, eu vou dizer que não. Ela tem a digital de Deus. Você vai dizer: 'o restaurante abriu em 10 de maio de 1980 e até hoje tem fila de espera todos os dias'. Sim, tem. Caiu na simpatia do público."
Seriedade, integridade e produto de primeira qualidade são alguns dos motivos que fizeram o restaurante se tornar um dos mais famosos de São Paulo. Mancini explica que isso é atender bem o cliente.
O empreendedor diz ainda que conserva, desde que o restaurante foi inaugurado, um atendimento com acolhimento, como forma de agradecimento aos clientes. E que servir o outro é o trabalho "mais lindo do mundo". Mancini se orgulha de, por meio da sua comida e do seu espaço, poder fazer as pessoas felizes.
'Nem a morte me aposenta'
O empresário avalia que momentos difíceis são os melhores, porque são desafiadores, e ele gosta de desafios.
Eu gosto tanto que eu vou dizer uma coisa para você, nem a morte me aposenta. Quando eu morrer eu vou bater na porta da casa de Deus e falar: 'Me dá um crachá aqui que eu quero continuar trabalhando.”
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Para Mancini, sempre haverá altos e baixos. "Não é só o Walter que tem [problemas], o mundo tem. Todo ser vivente tem. Tem que ter resiliência. A gente vai, puxa daqui, puxa de lá, pede ajuda para o amigo, confessa com o outro seu problema, de repente o outro tem a solução”, diz.
Ele ressalta que uma das suas vantagens foi sempre achar que a inteligência mora na cabeça do outro. Ele confessa que, sempre que tem um problema, pergunta se alguém pode ajudar e que não tem vergonha de falar sobre as suas necessidades.
Amor pelas fontes
O local onde estão situados todos os seus restaurantes, na rua Avanhandava, no centro de São Paulo, se tornou um ponto turístico charmoso, conhecido como um "pedacinho da Itália". Revitalizada, com paralelepípedos, paisagismo, fontes e iluminação, a rua passa a sensação de estar caminhando por uma pequena vila italiana.
A rua se tornou esse espaço charmoso por causa da sua paixão por fontes. Ele conta que, no início dos anos 2000, passava todos os dias pela rua Gabriel Monteiro da Silva, onde tinha uma fonte que ele ficava "paquerando". Um dia, ao passar por ali, viu que a fonte não estava mais. Ele foi atrás para saber o que tinha acontecido e descobriu que o dono havia desmontando. Ele ficou indignado e decidiu comprá-la do proprietário.
Daí, contratou um engenheiro para instalá-la na rua do restaurante, mas ele o desencorajou, dizendo que seria um processo difícil, e que a prefeitura não iria aprovar. Teimoso, ele não desistiu.
O projeto entrou na Prefeitura e foi indeferido. Em um domingo, Andrea Matarazzo, que trabalhava na subprefeitura, esteve no restaurante e sugeriu que ele revitalizasse a rua. “Eu revitalizo, mas eu coloco a fonte...e eu fiz a rua por causa da fonte”, revela.
Além da fonte no início da rua, há outra, idealizada por ele, dentro de um dos restaurantes e mais duas na rua, sendo uma para os pets tomarem água.
É lindo ver as pessoas passearem aqui na rua. Eu fiz uma pequena pracinha nessa calçada que é mais larga. Botei bebedor de água para cachorro, bancos, as pessoas sentam, se distraem. Isso é maravilhoso. As ruas são lindas, de uma ponta até a outra.”
O empreendedor avalia ainda que não foram os restaurantes que o tornaram uma figura pública e, sim, a rua. “A rua foi a minha assinatura."
Poeta e sonhador
Mancini se define como um poeta que vive sonhando. “Entre o sonho e a moeda, eu fico com o sonho. Eu nunca persegui uma moeda, mas sempre persegui um sonho. O grande lucro da minha alma é a tua felicidade. Essa é a cabeça do Walter”, explica, dizendo que comprou recentemente dois cavalinhos de um parque de diversões de Florianópolis, e que pretende colocar na rua para as crianças brincarem.
E ele não para. Está concluindo a reforma do seu novo restaurante Marianinha e Marieta, no mesmo endereço, que é uma homenagem a sua mãe e a sua tia. A inauguração do novo espaço está prevista para 22 de maio, dia de Santa Rita de Cássia.
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