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‘Quem faz o que gosta não cansa’, diz líder da Rosas de Ouro rumo ao bi em 2026

Emanuele Almeida

Angelina Basílio, 68 anos, é presidente da Rosas de Ouro há 22 anos - Emanuele Almeida
Angelina Basílio, 68 anos, é presidente da Rosas de Ouro há 22 anos
Por Emanuele Almeida

07/02/2026 | 09h04

São Paulo, 07/02/2026 - Para Angelina Basílio, 68 anos, a história da Sociedade Rosas de Ouro não é apenas um registro em livros de carnaval; é a sua própria biografia. Nascida no que ela descreve com orgulho como o "quilombo Brasilândia", Angelina é filha de Eduardo Basílio, um dos quatro amigos que, no final da década de 1960, agitavam o bairro com batucadas após os jogos de futebol de várzea e fundaram a escola.

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A escola foi fundada oficialmente em 18 de outubro de 1971, quando Angelina estava na pré-adolescência. Desde aquele momento, sua vida pessoal e a agremiação tornaram-se inseparáveis. "Eu nasci na Brasilândia, onde nasceu a Rosas de Ouro", afirma a atual presidente, que acompanhou de perto os primeiros passos da escola, quando os fundadores precisavam de ajuda financeira dos comerciantes locais para colocar o carnaval na rua.

Origem da Roseira

Homem idoso branco em foto preto e branco
Eduardo Basílio é um dos quatro fundadores da escola de samba. Reprodução/Rosas de Ouro

A identidade visual da escola, hoje inconfundível, carrega histórias curiosas que Angelina ajudou a preservar. O nome "Rosas de Ouro" foi inspirado em uma condecoração dada pelo Papa a personalidades ilustres, como a Princesa Isabel após a assinatura da Lei Áurea. 

Já as cores originais seriam apenas rosa e branco. Contudo, a necessidade falou mais alto: durante os preparativos para o carnaval de 1972, a tia de Angelina encontrou uma liquidação de tecidos azul-turquesa. Sem recursos sobrando, a escola arrematou o estoque, e o azul tornou-se parte oficial da bandeira da Roseira.

Crescendo sob o preconceito

A trajetória de Angelina não foi isenta de dificuldades. Ela recorda vividamente o preconceito que as escolas de samba sofriam há cinco décadas. De criação inicialmente católica e estudando em colégio de freiras, ela chegou a ser questionada pela madre superiora sobre o envolvimento de seu pai com o samba. 

Eu lembro que ela chegou em mim e perguntou: ‘Angelina, você desfila numa escola de samba?’, ao que eu respondi: ‘Sim, meu pai é o presidente’. Aí ela não teve como falar mais nada."

A atual presidente da escola conta que, ainda na Brasilândia, os vizinhos fechavam a porta na cara durante os ensaios na rua. Isso porque, segundo ela, na época em que a escola nasceu ainda havia muito a marginalização do carnaval e a cidade de São Paulo era focada estritamente em negócios. “Eu entrava na igreja, as mulheres saíam. Eu andava na rua e as mulheres desviavam de mim no bairro”, conta a Angelina. 

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Apesar da resistência, para ela seu pai foi um homem visionário. Foi ele quem avistou a área na Freguesia do Ó, onde a escola está hoje sediada, prevendo que ali seria o futuro do samba quando o local ainda era um “brejo mal iluminado”. Essa mudança geográfica foi crucial para a profissionalização da agremiação.

“Meu pai era muito visionário. Ele ajudou a fundar a Liga de Samba de São Paulo, assim como ele já falava de ‘cidade do Samba’ quando nem existia a cidade do Samba [local hoje conhecido como Fábrica do Samba”, relembra. 

De porta-bandeira a presidente

A ascensão da Rosas de Ouro foi meteórica — vencendo o segundo grupo já em 1974 e conquistando seu primeiro título principal em 1983 com o enredo "Nostalgia". Paralelamente, Angelina construía sua própria carreira dentro e fora da quadra. Formada em administração e funcionária pública aposentada, ela nunca deixou de estudar, seguindo os conselhos do pai.

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Dentro da escola, Angelina passou por todos os postos possíveis antes de assumir o comando: “Fui porta-bandeira, destaque de chão, destaque de carro alegórico, diretora de ala e vice-presidente”, conta. Há mais de 22 anos na presidência, ela lidera em um universo majoritariamente masculino. 

Angelina em seu escritório, sentada com vestido azul sentada mexendo no celular
Angelina brinca dizendo que presidente de escola de samba não descansa. "Emendamos 2025 e 2026", conta. Emanuele Almeida

No grupo de elite você tem 14 escolas e há apenas três mulheres presidentes", destaca Angelina, que afirma não ligar para o machismo estrutural do meio: 'Os cães ladram e a caravana passa', brinca.

Ela conta que já sofreu muito machismo e teve embates com outros homens líderes dentro do mundo do samba, mas reforça que para ela não há prazer maior do que ser presidente da Rosas de Ouro. “Quem faz o que gosta não cansa”, diz.

Legado social

Sob sua gestão, a Rosas de Ouro não apenas manteve sua tradição de luxo e requinte, mas expandiu seu papel social. A escola possui uma das maiores alas inclusivas do Brasil, que completará 20 anos em 2027, e permite que mais de 200 pessoas com deficiência, incluindo deficientes visuais, sintam a energia do desfile tocando as alegorias e participando ativamente da festa.

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Mais uma vitória em 2026?

A resiliência de Angelina foi testada recentemente. Após a escola amargar um 11º lugar em 2024, ela liderou uma virada histórica que culminou no campeonato de 2025. Apostando na emoção e na memória afetiva, a presidente bancou um enredo que falava sobre jogos e superação, provando que sua intuição e experiência de mais de 50 anos de samba continuam afiadas.

Fundo estrelado com planetas escrito "Escrito nas Estrelas", enredo das Rosas de Ouro em 2026
Enredo da escola neste ano falará sobre astrologia. Reprodução/Instagram

“Me convença”, relembra ela sobre a resposta direta na reunião com diretores e criadores de enredo na apresentação da história que entregou o título à Roseira em 2025. Angelina reforça que para que a escola saia na avenida a cada ano é preciso que a história contada seja sentida no seu coração, para que todos que estão assistindo no sambódromo também sintam. 

Hoje, com 8 títulos do Grupo Especial e uma comunidade apaixonada, Angelina Basílio segue sem férias, aposentada e sem viver de renda da escola, como gosta de reforçar. Assim, ela vive intensamente para a escola que viu nascer no quintal de casa. Este ano a agremiação desfila com mais de 2.500 pessoas e pretende contar a história da astrologia com o nome “Escrito nas estrelas”, título com o qual ela brinca que também escreverá a vitória da escola neste ano.

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