Rotina rural conquista as redes e desperta nostalgia em quem vive na cidade
Também chamada de “FarmTok”, a tendência vem crescendo na internet; conteúdo pode favorecer o bem-estar emocional de pessoas 60+, diz especialista
Arquivo pessoal
Cleide Ferreira, a influenciadora conhecida como Cleide Lifestyle, tem conquistado seguidores ao compartilhar sua rotina no campo em Teófilo Otoni, Minas Gerais, onde exibe atividades rurais que atraem um público em busca de um estilo de vida mais tranquilo e nostálgico.
Com mais de 1,38 milhão de inscritos no YouTube e presença em outras redes sociais, Cleide utiliza sua plataforma para promover a vida rural, que ressoa emocionalmente com muitos, especialmente aqueles que buscam uma pausa da agitação urbana.
Além de seu sucesso nas redes, Cleide apresenta o programa 'A Virada' na RedeTV! ES e destaca a importância das mulheres rurais, que representam 19% dos produtores agropecuários no Brasil, contribuindo para a valorização de saberes tradicionais e a diversidade no campo.
São Paulo - Colher jabuticabas no quintal, cuidar das galinhas, preparar receitas caseiras e passar um café quentinho no fogão a lenha. Essa é a rotina da influenciadora Cleide Ferreira, conhecida como Cleide Lifestyle, que vem conquistando espaço nas redes sociais ao compartilhar o dia a dia no campo.
Ex-advogada trabalhista, a criadora de conteúdo vive em um sítio em Teófilo Otoni, no interior de Minas Gerais. Seus vídeos mostram o plantio, a colheita, os cuidados com animais e o preparo de pães, bolos e outros pratos.
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O canal já ultrapassa 1,38 milhão de inscritos no YouTube, e ela também faz sucesso no Instagram e no TikTok. Além disso, a criadora chegou à televisão, onde apresenta o programa "A Virada", na RedeTV! ES.
Vida no campo atrai público que quer desacelerar
Em meio à rotina acelerada dos centros urbanos, vídeos que mostram o cotidiano no campo atraem milhões de visualizações e reúnem comunidades de seguidores interessados em acompanhar atividades que, para muitos, remetem à infância, à família e a um modo de vida mais tranquilo.
“Minha intenção sempre foi levar a leveza do campo para quem vive na correria da cidade, como uma forma de desacelerar, descansar a cabeça e até trazer boas lembranças do passado de quem já viveu na roça”, afirma Cleide.
A tendência, conhecida internacionalmente como FarmTok ou Agri-TikTok, reúne conteúdos sobre agricultura, culinária rural e tarefas diárias em sítios e fazendas. De acordo com Adriana Fóz, neuropsicóloga ouvida pelo VIVA, a popularidade vai além de quem conhece essa realidade.
Ela explica que pessoas que vivem em cidades grandes também encontram nesses conteúdos uma oportunidade de descansar a mente e conhecer outros estilos de vida.
Esses vídeos oferecem algo que muitas vezes está em falta na vida urbana: a percepção de um tempo menos acelerado, de simplicidade e de conexão com a natureza e com as relações humanas.
Adriana Fóz, neuropsicóloga
A especialista afirma que assistir a cenas como colher uma fruta do pé, cuidar de uma horta ou ouvir os pássaros pode despertar familiaridade e "mobilizar sistemas cerebrais relacionados à memória e às emoções".
Porém, o interesse não significa necessariamente que o espectador queira abandonar a cidade para morar no campo.
“Muitas vezes, o que essas pessoas procuram é recuperar simbolicamente uma maneira de viver, com mais tempo para observar, conviver e sentir”, diz Adriana.
É o caso de Silvania Prete, de 68 anos, que assiste com frequência aos conteúdos de Cleide. Embora tenha nascido no interior do Rio Grande do Sul, ela conta que não teve uma vida propriamente rural e que aprendeu sobre esse universo acompanhando os vídeos da influenciadora.
O que mais a atrai são as cenas de contato com a natureza, especialmente os momentos em que Cleide pesca, planta e realiza atividades ao ar livre.
“Acho tudo muito lindo. É muito bom sair um pouquinho dessa rotina de São Paulo, em que a gente só fica aqui”, conta a seguidora, que também acompanha o programa Globo Rural. Ela relata que, enquanto cuidava de uma senhora com Alzheimer, começou a assistir aos vídeos das colheitas de jabuticaba, que encantaram as duas.
A cuidadora diz que não gostaria de morar no campo, mas que passaria alguns dias no sítio para descansar e aproveitar a paisagem. Essa distinção ajuda a compreender o fenômeno: o desejo de acompanhar a vida rural não corresponde necessariamente à vontade de adotar esse estilo de vida, explica a neuropsicóloga Adriana Fóz.
Para quem tem mais de 60 anos, o interesse pode ganhar uma dimensão afetiva. O preparo de um alimento, o cultivo de uma planta ou a imagem de uma cozinha antiga podem remeter à casa dos pais e dos avós, mesmo quando o espectador não viveu diretamente no campo.
"Nosso cérebro não armazena as lembranças como fotografias isoladas. As memórias autobiográficas são reconstruídas a partir de experiências que envolvem emoções, pessoas, lugares, sons e cheiros", explica Fóz.
A especialista também menciona o chamado pico de reminiscência, fenômeno pelo qual adultos mais velhos tendem a recordar com intensidade especial acontecimentos da adolescência e do início da vida adulta.
"Às vezes, a pessoa não sente saudade da roça. Sente saudade de quem ela era, de quem estava ao seu lado e de como se sentia naquela época", diz.
Assim, a nostalgia despertada por esses conteúdos pode favorecer sentimentos de continuidade da identidade, conexão social e valorização da própria trajetória. Revisitar experiências passadas pode ajudar a reconhecer vínculos, conquistas e aprendizados, especialmente durante o envelhecimento.
“O que aproxima essas pessoas não é apenas o interesse pela vida rural, mas o reconhecimento de experiências humanas compartilhadas”, afirma a neuropsicóloga.
Dados do Google Trends confirmam essa aproximação do público e mostram que as buscas pelo termo “rotina rural” cresceram 250% nos últimos cinco anos, com pico de interesse em 2026.
Mulheres rurais ganham visibilidade nas redes sociais
Cleide Lifestyle é apenas um exemplo de tantas outras mulheres rurais que colocaram seu trabalho em evidência em vídeos publicados na internet e, com isso, transformaram suas vidas financeiramente.
A influenciadora considera que as redes sociais ajudam a mostrar a diversidade de atividades realizadas por essas mulheres e a valorizar conhecimentos transmitidos entre gerações.
Toda roça que tem uma mulher que trabalha nela tem lembrança de vó, essência de lar e culinária nostálgica. Isso, por si só, representa nossa força e a importância da mulher do campo.
Cleide Lifestyle, criadora de conteúdo rural
No Brasil, os dados do Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ajudam a dimensionar a presença feminina no setor. No levantamento, 946,1 mil mulheres estavam à frente de estabelecimentos agropecuários, o equivalente a 19% dos produtores recenseados.
O mesmo censo identificou cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos de agricultura familiar, que correspondiam a 76,8% do total de estabelecimentos agropecuários do País. Vale destacar que os números se referem a 2017 e não representam uma estimativa atualizada da situação do setor, prevista para 2027.
"O que fortalece a imagem da mulher rural é justamente essa visão ampla, que mostra sua força e tudo o que ela é capaz de fazer na roça. Além disso, ela transforma o que plantou e cultivou em receitas incríveis, que despertam a nostalgia e aguçam o desejo de quem está assistindo", conclui Cleide.
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