Upcycling: ateliê com costureiras 50+ transforma itens descartados em peças
Divulgação/CÓS Costura Consciente
São Paulo - Guarda-chuvas descartados, velas de paraquedas, pipas de kitesurf e materiais de parapente ganham nova vida e viram peças de roupa nas mãos das costureiras da CÓS Costura Consciente, ateliê de Porto Alegre que trabalha com upcycling (reaproveitamento de materiais que seriam descartados) e economia circular na moda.
A iniciativa também mantém uma rede de costureiras formada por mulheres com diferentes trajetórias profissionais, incluindo aposentadas e profissionais 50+ que encontram no espaço uma alternativa de geração de renda, aprendizado e convivência.
Leia também
A CÓS surgiu a partir de um projeto de formação de costureiras e, ao longo dos anos, passou a desenvolver produtos a partir de resíduos têxteis e materiais que perderiam sua utilidade.
A proposta vai além de reaproveitar tecidos, explica a co-fundadora da CÓS, Marina Anderle Giongo. O ateliê adapta a produção às possibilidades de cada profissional, com horários e volumes de trabalho flexíveis.
“A ideia é acolher mulheres que estão fora do mercado de trabalho tradicional e enfrentam dificuldades com carga horária. Temos mães solo, mulheres que cuidam de familiares, mães de filhos PCD, aposentadas e mulheres em recuperação de doenças", afirma Marina.
Rede reúne mais de 100 costureiras
A CÓS mantém cerca de 112 costureiras cadastradas, segundo o levantamento mais recente informado pelo ateliê. A participação na produção, porém, é variável. Aproximadamente 15 profissionais integram o grupo de produção mensalmente.
Entre elas estão mulheres que trabalham com a CÓS há anos e outras que entraram recentemente. A dinâmica permite que cada uma participe de acordo com sua disponibilidade e nível de experiência.
A remuneração é relacionada à quantidade produzida. A equipe também organiza os produtos de acordo com diferentes níveis de complexidade, permitindo que as costureiras avancem gradualmente no aprendizado. Para a co-fundadora, o trabalho tem impacto que ultrapassa a geração de renda.
"A autoestima de produzir algo é muito importante. O trabalho também proporciona acolhimento, relações sociais, autonomia e aprendizado. Vejo o quanto elas ficam felizes em fazer parte do grupo e como isso fortalece a amizade entre elas", ressalta Marina.
Além da costura, o ateliê oferece troca e união
Para além da costura, as profissionais 50+ da CÓS Costura Consciente encontram no ateliê um espaço de convivência, aprendizado e troca. Foi esse ambiente que chamou a atenção de Jurema Garcia quando ela passou a integrar a equipe.
“O que mais me chamou a atenção desde o primeiro dia foi a forma como fui recebida. Era um espaço de trabalho, mas também de acolhimento. As pessoas entendiam minhas dificuldades e meus medos”, conta.
A experiência também fez Jurema perceber que aprender uma nova atividade depois dos 60 anos pode representar uma oportunidade de manter a rotina em movimento e ampliar os contatos.
A gente não aprende só sobre aquela atividade. Aprende também na convivência com outras pessoas, na troca e nas experiências do dia a dia."
A costureira defende que mulheres mais velhas não deixem de experimentar novas atividades por medo ou insegurança. “No primeiro dia pode existir receio, pode existir medo, mas faz parte. A vida é um eterno aprendizado", relata.
Aos 71 anos, Lucia das Graças também encontrou na CÓS uma maneira de continuar trabalhando com aquilo que já fazia parte da sua trajetória.
Hoje, entre as atividades que realiza, está o desmanche de guarda-chuvas para o reaproveitamento do material. “Para mim, esse trabalho representa motivação e a sensação de continuar sendo útil. Eu me aposentei aos 62 anos e hoje estou com 71, mas acredito que trabalhar nunca é demais quando é uma coisa de que você gosta”, conta.
Segundo Lucia, a convivência com a equipe se tornou parte da experiência. “Eu adoro estar na CÓS porque as meninas são maravilhosas. Elas me tratam muito bem e eu também gosto muito delas”, afirma.
Sandra Judes também voltou a se aproximar da costura depois de conhecer o projeto por indicação da filha. Ela já tinha familiaridade com a atividade e viu na CÓS a oportunidade de retomá-la em um contexto ligado ao reaproveitamento de materiais.
Mesmo depois de começar a trabalhar no ateliê, Sandra continua se colocando no lugar de aprendiz. Para ela, a experiência mostra que o aprendizado não precisa terminar com a chegada à aposentadoria ou com o avanço da idade.
Nunca é tarde para aprender. Somos capazes de fazer muitas coisas e podemos, sim, inspirar outras mulheres”, afirma.
Hoje, além de costurar, ela segue aprendendo a produzir novos tipos de peças.
Guarda-chuva vira capa de chuva e jaqueta
O modelo da CÓS reúne três frentes: reaproveitamento de materiais, desenvolvimento de produtos e geração de renda para costureiras.
A lógica do upcycling consiste em dar uma nova utilização a materiais que seriam descartados, transformando-os em produtos com outra função e evitando que os resíduos sigam diretamente para o descarte.
No caso da CÓS, o processo começa pela análise do material disponível. A equipe avalia características como resistência, espessura, textura e formato antes de definir o que pode ser produzido.
A rede também envolve cooperativas e organizações que ajudam na destinação dos resíduos que não podem ser aproveitados. Dessa forma, o material é separado conforme sua possibilidade de reutilização ou reciclagem.
Os guarda-chuvas descartados são um dos principais materiais utilizados pela CÓS. A escolha está relacionada às características do tecido, que é resistente à água. Essa ideia ganhou força depois que uma empresa fabricante de guarda-chuvas procurou o ateliê para destinar um estoque de materiais que estava parado.
Em vez de simplesmente reproduzir modelos já existentes, a equipe desenvolveu uma forma própria de trabalhar com o material. Um dos primeiros produtos foi uma capa de chuva construída a partir de uma modelagem inspirada no quimono. O método buscava aproveitar os tecidos sem gerar novos recortes e sobras.
No nosso processo, a gente sempre olha para o material e procura entender qual é o potencial dele. Por isso, nesse primeiro modelo de capa de chuva, escolhemos esse tecido justamente por ser resistente à água, ou seja, hidrorepelente", relata Marina.
A experiência com resíduos também foi ampliada, por isso a CÓS passou a testar materiais como velas de paraquedas e equipamentos de kitesurf e parapente. Alguns materiais são destinados a roupas. Outros acabam transformados em acessórios, como chapéus, carteiras e bolsas.
Enchente de 2024 mudou a operação
A trajetória da CÓS também foi marcada pela enchente que atingiu Porto Alegre em 2024. O ateliê funcionava no térreo de um centro cultural e recebeu cerca de 1,10 metro de água. Máquinas de costura, estoque, mobiliário e materiais foram atingidos.
A equipe precisou recuperar as máquinas e buscar recursos para retomar as atividades. Depois do desastre, o ateliê mudou de endereço e passou a funcionar no terceiro andar de uma galeria, em uma área que não havia sido atingida pela enchente. A experiência também trouxe um novo projeto de reaproveitamento.
Uma empresa de guarda-chuvas parceira da CÓS havia perdido cerca de 30 mil unidades durante a enchente. O ateliê conseguiu recolher aproximadamente 6 mil peças.
O trabalho envolveu seleção, desmontagem, separação dos tecidos e das estruturas metálicas e higienização dos materiais. Para a desmontagem, a CÓS contou com uma rede de 12 pessoas, formada majoritariamente por mulheres mais velhas.
As armações foram encaminhadas para reciclagem, enquanto os tecidos passaram por lavagem industrial antes de serem utilizados novamente. Ao todo, cerca de meia tonelada de tecido deixou de ser encaminhada para descarte.
O projeto também foi financiado de forma coletiva. A campanha arrecadou quase R$ 30 mil, valor utilizado para cobrir os custos de processamento dos materiais, remuneração das costureiras e despesas do ateliê.
O financiamento funcionou como uma pré-venda: foram comercializadas mais de 50 jaquetas, além de acessórios produzidos a partir dos guarda-chuvas recuperados. Para Marina Giongo, o episódio reforçou a importância de manter o negócio em funcionamento. "Foi muito esforço para manter funcionando, para retomar", relata.
Os produtos desenvolvidos pelo ateliê têm diferentes faixas de preço. Os itens mais simples, como nécessaires, começam em torno de R$ 50. Entre os produtos de maior valor está uma saia confeccionada com tecido de paraquedas, com preço informado de aproximadamente R$ 520.
A CÓS afirma que os valores são atualizados conforme os custos de produção e os reajustes salariais. O cálculo da remuneração das costureiras considera o salário mínimo regional da categoria.
Segundo Marina, a proposta é manter os produtos acessíveis dentro dos custos de uma produção que envolve reaproveitamento, desenvolvimento técnico e trabalho artesanal.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.