Indústria e bancos criticam nova proposta de tarifaço dos EUA
Daniel Torok/Casa Branca
Brasília, Rio e São Paulo – O anúncio de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros por parte do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) mobilizou entidades industriais e representantes do sistema financeiro, que manifestaram preocupação com os impactos da medida e defenderam a ampliação do diálogo entre os dois países.
A proposta foi apresentada pelo USTR após uma investigação baseada na Seção 301 da Lei Comercial dos Estados Unidos apontar supostas práticas desleais do Brasil. As tarifas adicionais estão previstas para entrar em vigor em 15 de julho. O órgão norte-americano também realizará uma audiência pública sobre o tema em 6 de julho.
Em nota, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que a eventual adoção das tarifas prejudicará tanto a indústria brasileira quanto o mercado norte-americano, com efeitos negativos sobre cadeias produtivas.
“A relação entre Brasil e Estados Unidos é estratégica, sólida e construída ao longo de décadas. A eventual adoção de tarifas adicionais vai prejudicar a indústria brasileira e o mercado norte-americano”, afirmou o presidente da entidade, Ricardo Alban.
A CNI reforçou a importância do “diálogo e cooperação” na busca de “soluções equilibradas” e informou que continuará acompanhando o tema e atuando junto às autoridades e ao setor produtivo dos dois países para defender soluções que preservem e fortaleçam a parceria econômica bilateral.
A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) também manifestou preocupação com a proposta. Segundo a entidade, a medida reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, aumentaria a incerteza e poderia afetar investimentos no setor.
“A Fiemg defende que o governo brasileiro mantenha atuação firme, técnica e diplomática junto às autoridades norte-americanas, com o objetivo de evitar a entrada em vigor da tarifa, ampliar a lista de produtos isentos e preservar a competitividade das empresas brasileiras no mercado dos Estados Unidos”, afirmou a federação.
Leia também
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), por sua vez, avaliou que a decisão preliminar do governo norte-americano agrava o cenário de imprevisibilidade nas relações bilaterais e representa um risco para as exportações fluminenses.
Segundo a entidade, a medida “contribui para o agravamento do cenário de imprevisibilidade e incerteza no relacionamento entre Brasil e EUA, impactando na geração de investimentos, empregos e renda em ambos os países”.
A federação informou ainda que se habilitou junto ao USTR como parte da investigação em curso, em conjunto com a CNI e outros representantes setoriais. Durante consultas e audiências públicas, representantes da indústria apresentaram argumentos para reiterar os compromissos brasileiros com a justa concorrência, a sustentabilidade e as melhores práticas de comércio internacional.
Bancos
As conclusões do USTR também motivaram reação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que contestou as críticas feitas ao Pix no relatório da investigação comercial.
Em nota, a entidade afirmou que as avaliações do órgão norte-americano refletem informações “incompletas” sobre os objetivos e o funcionamento do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. A federação rejeitou ainda as alegações de que o Pix seja discriminatório.
“O PIX é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica”, afirmou a Febraban.
Segundo a entidade, não há restrições à entrada de novos participantes, independentemente do porte ou segmento, desde que atuem no mercado nacional, por se tratar de um sistema local e denominado em reais.
A federação destacou ainda a “ampla cooperação” das instituições financeiras no desenvolvimento do Pix, definido como uma plataforma aberta disponível para todos os residentes no Brasil, brasileiros e estrangeiros, pessoas físicas e empresas. O sistema é gratuito para pessoas físicas e pode ser cobrado de pessoas jurídicas, sem distinção entre empresas brasileiras e estrangeiras.
A Febraban afirmou ter boa expectativa de que as contribuições do Banco Central e das instituições financeiras, incluindo bancos norte-americanos, ajudem a esclarecer os pontos levantados pelo USTR durante o processo de audiência pública, que permanece aberto.
Negociações
O vice-presidente e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo brasileiro continuará buscando negociações para reverter a medida e que pretende envolver o setor privado nas conversas.
“O caminho é do diálogo”, disse Alckmin a jornalistas após reunião com ministros no Palácio do Planalto. “Todo o setor privado, vamos unir todo mundo, uma união do País em defesa da soberania nacional e do interesse do povo brasileiro.”
Segundo ele, o diálogo com o governo norte-americano será permanente, dada a relevância da parceria comercial entre os dois países. Alckmin também mencionou que o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, estará em Paris na quarta-feira, 3, onde também estará o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
(Por Cícero Cotrim, Mateus Maia, Gabriel de Sousa, Daniela Amorim e André Marinho)
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.