Após vitória, Lula enfrenta desafio de ampliar apoio no Congresso
Presidente terá de negociar com partidos de centro e manter o apoio de sua base, segundo analistas ouvidos pela Broadcast
Por Broadcast
26/10/2026 | 08h00Ricardo Stuckert/PR
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva marca o início de uma intensa disputa política, com a necessidade de formar uma base ampla no Congresso e lidar com a desconfiança do mercado, especialmente em um Legislativo mais conservador.
Analistas destacam que a mobilização social e a redução do 'não voto' foram cruciais para a vitória, enquanto o dólar futuro já apresentou alta, refletindo a incerteza econômica após as eleições.
Para garantir governabilidade, Lula precisará estabelecer uma aliança sólida com o Centrão e manter o engajamento popular, enfrentando a pressão de um Congresso majoritariamente opositor e possíveis desafios institucionais.
São Paulo - A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva abre uma fase de forte disputa política, com o presidente eleito sob pressão para costurar uma base mais ampla no Congresso, manter o engajamento que impulsionou a virada no segundo turno e administrar a desconfiança do mercado, avaliam analistas ouvidos pela Broadcast.
Eles apontam que o desafio central agora é a governabilidade em um Legislativo mais à direita, com risco de judicialização e ruídos institucionais no pós-eleição, mas baixa probabilidade de anulação do pleito.
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O principal tema a partir desta segunda-feira, 26, será a governabilidade do presidente reeleito diante de um Congresso com maioria mais expressiva à direita e um ambiente de desconfiança do mercado, avalia o analista político da 4Intelligence Ricardo Ribeiro.
Ele citou que o dólar futuro "já deu um salto" e foi para R$ 5,50 na noite deste domingo. "Acho que pode dizer que a possibilidade de anulação da eleição é quase zero. O Lula está eleito", afirmou.
No diagnóstico de Ribeiro, o petista terá de equilibrar forças que puxam em direções diferentes: a pressão do mercado, a cobrança de uma base de esquerda mobilizada e um Legislativo mais conservador. Para ele, o resultado foi influenciado pela redução do "não voto", com mais eleitores indo às urnas após mobilização de campanha e redes sociais.
"Vai ser um grande desafio para o Lula conseguir se equilibrar com essas forças políticas importantes", diz, ao avaliar que o petista terá de fazer um quarto mandato "até maior do que nos anteriores". Ele acrescenta que a possibilidade de anulação da eleição após a prorrogação permitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é "genuína", mas "quase zero".
Aliança com o Centrão
A leitura de que o novo governo dependerá de articulação com o Centrão é compartilhada pelo professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Aldo Fornazieri. Ele afirma que Lula terá de construir uma aliança "mais sólida" com esses partidos para governar e abandonar o "exclusivismo do PT", diante de um Congresso majoritariamente de oposição.
Na visão dele, a virada foi favorecida por sinais de estagnação do adversário nas últimas pesquisas, pela queda de abstenções e pela migração de parte do eleitorado de Renan Santos para Lula.
Fornazieri destacou ainda que a mobilização espontânea da juventude e a atuação do deputado André Janones (Sustentabilidade-MG) nas redes sociais foram decisivas no segundo turno, mas disse que esse engajamento tende a ser cobrado no governo, sem "cheque em branco".
Questionado sobre eventual judicialização do resultado, o professor avaliou que "a vitória é incontestável" e que "prefeitos alinhados" ao adversário tentaram "dar um golpe eleitoral", ao citar a falta de circulação de ônibus em certas cidades.
Mobilização social
Para o professor da FGV/EAESP Eduardo Grin, a vitória de Lula foi resultado de uma mobilização social "enorme" no segundo turno, com coordenação entre ações nas ruas e ofensiva digital, em um ambiente marcado pelo temor de retrocesso democrático. "Eu acho que a vitória do Lula representa, no meu entendimento, uma vitória monstruosa da democracia brasileira", afirmou.
Na análise dele, o segundo turno teve um "petismo de chegada", em contraste com o "antipetismo de chegada" observado no primeiro turno, movimento que poucos institutos teriam captado.
Grin avaliou que a campanha petista conseguiu pautar o adversário ao combinar "anunciar e denunciar", levando o oponente a passar a maior parte do tempo na defensiva. "Quem pautou a campanha do segundo turno foi o Lula, o que é inacreditável", diz.
Para o professor, o receio de autoritarismo e de riscos à democracia pesou na decisão de voto, levando o eleitorado a optar por "seguir com segurança", apesar de críticas ao petista.
No pós-eleição, Grin afirmou não ver, necessariamente, uma governabilidade pior no quarto mandato em relação ao terceiro, apesar do avanço de bancadas vinculadas à extrema-direita. Ele sustentou que o Centrão pode atuar como um "colchão de arrefecimento" entre Lula e a extrema-direita e viabilizar votações, desde que haja um pacto político com divisão de poder.
"Se Lula dividir poder com o Centrão, ele poderá ter um governo até melhor do que esse em termos de apoio no parlamento. Se ele achar que não, aí ele vai enfrentar dificuldades iguais ou piores", declara.
Instrumento de pressão
A manutenção do engajamento, inclusive como instrumento de pressão sobre o Parlamento, também foi defendida pelo cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva. Para ele, Lula terá de continuar a mobilização nas redes e nas ruas para "assustar" o novo Congresso, majoritariamente oposicionista, mas ponderou que o petista não adotou essa estratégia nos últimos quatro anos.
Ricci afirmou que a eleição reforça a necessidade de cautela com "ideias pré-concebidas", já que as pesquisas indicavam empate técnico, e destacou a diminuição das abstenções do primeiro para o segundo turno.
Ricci alertou, porém, para possíveis "problemas institucionais" no novo mandato, citando que parlamentares devem pressionar por um processo de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes, criando um dilema para o Planalto. "Ou Lula fica isento ou apoia Moraes e desgasta com o Congresso", disse.
(Por Luísa Laval e Thais Porsch)
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