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Olfato diminui com a idade e cérebro processa cheiros mais devagar, diz estudo

Pesquisa identificou mudanças no nariz e no processamento cerebral; especialistas explicam quando investigar a perda e como os testes ajudam a percebê-la

Redação Viva

Por Redação Viva

26/10/2026 | 09h05

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A redução do olfato nem sempre está relacionada à idade, dizem especialistas - Adobe Stock
A redução do olfato nem sempre está relacionada à idade, dizem especialistas
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Um estudo da Universidade Técnica de Dresden revelou que o envelhecimento afeta a capacidade olfativa, com adultos acima de 50 anos apresentando desempenho inferior na detecção e identificação de odores em comparação aos jovens.

Os pesquisadores observaram que, embora a mucosa olfatória dos mais velhos respondesse aos estímulos, o processamento cerebral dos cheiros se tornava mais lento, o que pode impactar a qualidade de vida e a percepção de riscos.

A pesquisa sugere a importância de testes olfativos regulares para pessoas acima de 60 anos, visando identificar perdas que podem estar associadas a condições tratáveis ou a doenças neurodegenerativas, reforçando a necessidade de avaliação médica adequada.

Resumo gerado por IA

São Paulo - O café passado na hora continua na mesa, mas seu cheiro parece menos intenso. Mudanças como essa podem acompanhar o envelhecimento e passar despercebidas por quem se acostuma, aos poucos, a sentir menos os aromas. Um estudo publicado na revista científica npj Aging investigou o que acontece nesse caminho e identificou alterações tanto na atividade elétrica da mucosa olfatória quanto na velocidade de processamento dos estímulos pelo cérebro.

A pesquisa foi realizada na Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, com 73 adultos considerados saudáveis na avaliação inicial. Foram comparados 40 jovens, com média de idade de aproximadamente 23 anos, e 33 pessoas acima dos 50, com média de 62 anos.

O pesquisador Thomas Hummel, um dos autores do estudo e referência internacional em pesquisa sobre olfato, destaca que a mucosa olfatória dos participantes mais velhos continuou respondendo aos estímulos. “Isso seria uma boa base para a exposição e o treinamento olfatório”, afirmou ao VIVA.

Os participantes mais velhos tiveram desempenho inferior em três capacidades: detectar odores em pequenas concentrações, distinguir um cheiro de outro e identificar qual aroma estavam sentindo. O diferencial da pesquisa foi observar o funcionamento do sistema olfatório em dois pontos ao mesmo tempo, com eletrodos posicionados no interior do nariz e no couro cabeludo.

“Para o público geral, o mais importante é entender que, com o envelhecimento, não é apenas o nariz que perde a capacidade de sentir os cheiros: o cérebro também passa a processá-los de forma mais lenta”, explica Marco Aurélio Fornazieri, pesquisador da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Do nariz ao cérebro

Durante o experimento, os pesquisadores apresentaram substâncias com aroma de rosas e cheiro de ovo podre. Também utilizaram dióxido de carbono, o CO₂, que provoca irritação por uma via sensorial diferente da olfativa, chamada trigeminal.

Algumas medidas da atividade elétrica em resposta aos odores foram menores entre os participantes mais velhos, tanto no nariz quanto nos registros cerebrais. O processamento mais lento apareceu em resposta ao CO₂ e, em algumas medidas, ao cheiro de ovo podre. Os resultados variaram conforme o estímulo: para o aroma de rosas, não houve diferença estatisticamente significativa nos tempos de resposta.

O trabalho também tem limitações. Nem todos os registros elétricos puderam ser aproveitados, devido a dificuldades técnicas e interferências nos sinais. Além disso, a comparação foi feita entre grupos de idades diferentes em uma avaliação pontual, sem acompanhar como o olfato de cada pessoa mudou ao longo dos anos.

Quando merece atenção?

A redução do olfato se torna mais comum com o avanço da idade, principalmente após os 60 anos, segundo Fornazieri. Mas isso não significa que toda dificuldade para sentir cheiros deva ser atribuída ao envelhecimento.

Questionado sobre quando uma alteração merece investigação médica ou neurológica, Hummel destaca situações em que a mudança aparece acompanhada de outros sintomas significativos, como tremores ou distúrbios do sono REM.

Fornazieri acrescenta que alterações súbitas, perdas importantes e obstrução nasal persistente também precisam ser avaliadas.

Uma redução lenta e progressiva pode estar relacionada à idade, mas também pode ser consequência de doenças bastante comuns, como rinossinusite crônica, rinite, infecções virais e outras condições que têm tratamento.
Marco Aurélio Fornazieri, pesquisador da UEL e da PUCPR

A associação com doenças como Parkinson e Alzheimer ajuda a explicar o interesse científico pelo tema. Segundo Fornazieri, alterações olfatórias podem surgir anos antes de outras manifestações dessas condições. Isso, porém, não permite usar a perda do olfato isoladamente como diagnóstico ou previsão de uma doença neurodegenerativa.

“Isso não significa, evidentemente, que uma pessoa com perda olfatória desenvolverá alguma doença neurodegenerativa, mas reforça a importância de uma avaliação adequada”, ressalta o pesquisador.

O estudo não acompanhou os participantes para verificar quem desenvolveria essas doenças. Também não avaliou especificamente o estado cognitivo dos voluntários, o que impede descartar alterações ainda não diagnosticadas em parte do grupo mais velho.

Que tipos de exames podem ser feitos?

Uma das dificuldades é que a percepção da própria pessoa nem sempre acompanha a mudança na capacidade de sentir cheiros. Quando a perda acontece devagar, ela pode se adaptar à nova condição.

Hummel explica que os registros eletrofisiológicos utilizados na pesquisa são exames muito especializados. Na rotina clínica, os testes psicofísicos — nos quais a pessoa responde aos odores apresentados — são ferramentas úteis e podem ser realizados a baixo custo.

Eles permitem avaliar diferentes capacidades, como detectar um cheiro em pequena concentração, diferenciá-lo de outro e identificá-lo. O desempenho pode ser comparado com valores de referência e acompanhado após tratamentos.

Identificar um aroma depende também da experiência de quem está sendo avaliado. Uma pessoa pode sentir o cheiro normalmente e, ainda assim, não saber reconhecê-lo porque nunca teve contato com ele.

Fornazieri cita uma adaptação realizada em um estudo anterior: o aroma de root beer, bebida conhecida nos Estados Unidos, foi substituído pelo cheiro de pneu de borracha, mais familiar aos brasileiros.

Essa preocupação também orientou o desenvolvimento do Olfato-UP, teste brasileiro criado e validado pela equipe do pesquisador. Segundo ele, o instrumento utiliza 12 odores familiares à população, como café, chocolate e cravo, e pode ser aplicado em aproximadamente quatro minutos.

“Uma pessoa pode ter o olfato normal, mas não reconhecer um odor simplesmente porque nunca teve contato com ele”, afirma.

Claudia Galvão, engenheira civil, pesquisadora em tecnologias de avaliação olfatória e fundadora da NoAr Brasil, observa que a pessoa pode se acostumar à redução gradual. Continuar realizando as tarefas diárias também pode contribuir para deixar a dificuldade em segundo plano. Por isso, perguntar se alguém sente bem os cheiros não substitui uma avaliação padronizada.

Ela relata que o desenvolvimento do teste digital da NoAr envolveu a colaboração com Hummel e a comparação com a aplicação manual, para verificar se o novo formato preservava os resultados da avaliação.

Fornazieri afirma que ampliar o acesso é um dos objetivos do Olfato-UP, inclusive no SUS, onde, segundo ele, os exames olfatórios ainda são pouco disponíveis.

Olfato para sinais de perigo

O olfato participa do prazer de comer e da relação com memórias e emoções, mas também ajuda a reconhecer situações de risco, como fumaça, vazamentos de gás e alimentos deteriorados.

Hummel explica que a detecção de substâncias irritantes tende a ser mais preservada com a idade do que a percepção dos odores. Isso não garante proteção contra perigos domésticos: o estudo identificou lentidão na resposta cerebral ao CO₂ e não avaliou o reconhecimento de fumaça, vazamentos ou alimentos estragados na rotina.

Para Fornazieri, o primeiro passo é investigar a causa da perda e definir quais intervenções podem ajudar. “Minha principal mensagem é que a perda olfatória não deve ser negligenciada, mesmo em pessoas mais velhas.”

(Por Bárbara Marques, especial para o VIVA)

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