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Eleições 2026

Quase 70% dos idosos não se manifestam politicamente nas redes sociais

Pesquisa aponta que quase 70% dos eleitores com mais de 60 anos evitam a militância digital, mas superam os jovens no convencimento interpessoal

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

24/10/2026 | 12h54

Arquivo Pessoal

57,1% desses eleitores mais velhos declararam atuar diretamente no diálogo interpessoal - Arquivo Pessoal
57,1% desses eleitores mais velhos declararam atuar diretamente no diálogo interpessoal
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Durante o segundo turno das eleições, eleitores idosos se destacam por sua participação ativa, apesar de sua ausência nas redes sociais, com 88,9% afirmando que comparecerão para votar, o que pode influenciar significativamente o resultado da disputa.

A pesquisa revela que 57,1% dos eleitores com 60 anos ou mais preferem o engajamento pessoal para convencer outros a votar, em contraste com a militância digital predominante entre os jovens, refletindo uma cautela em relação à polarização nas redes sociais.

Movimentos sociais, como o Coletivo Mulheres em Lutas 60+, estão organizando ações para combater o etarismo e promover a inclusão dos idosos na vida cívica, com foco em questões como saúde, direitos e combate à desigualdade social, evidenciando a relevância desse eleitorado nas eleições.

Resumo gerado por IA

São Paulo - À primeira vista, o termômetro das campanhas neste segundo turno parece pulsar quase com exclusividade na tela do celular. No entanto, longe dos embates virtuais, os eleitores idosos encontram saídas para manter sua voz política ativa.

Os dados da 18ª rodada da pesquisa Nexus/BTG Pactual mostram um contraste geracional: enquanto os jovens de 16 a 24 anos dominam a militância digital — 60,6% divulgam materiais de seus candidatos nas redes sociais —, 69,1% das pessoas idosas se mantêm distantes da corrida virtual.

Por outro lado, 57,1% desses eleitores mais velhos declararam atuar diretamente no diálogo interpessoal para convencer outras pessoas a votar em seu candidato, superando a taxa da faixa etária mais nova (55,5%).

O engajamento no boca a boca é sustentado por uma pretensão de comparecimento no segundo turno que permeia 88,9% dos entrevistados com 60 anos ou mais, os quais afirmaram na pesquisa que já decidiram com absoluta certeza que vão comparecer para votar.

Para Cléa Klouri, cofundadora do hub de inteligência de mercado data8 e coordenadora do Movimento Voto 70+, a menor presença dos idosos nas redes sociais não é sinônimo de silêncio, mas de cautela diante da agressividade do ambiente digital.

"O que me pareceu é que eles não quiseram entrar nessa militância de redes sociais e nessa polarização que a gente está vendo tão intensamente em outras fatias da população", pontua Klouri.

"Talvez seja a sensatez de não querer entrar em conflito com a família ou se expor a ataques e a expressões raivosas. As pessoas mais velhas recuam um pouco para não ficarem sujeitas ao preconceito e à violência verbal, mas isso não significa que não haja interesse: eles têm convicção, querem votar e estão politicamente presentes."

A especialista destaca que esse eleitorado vem respondendo ativamente a ações cívicas. No primeiro turno, a taxa de abstenção entre os eleitores com 70 anos ou mais — faixa em que o voto é facultativo pela Constituição — caiu de 58,8% em 2022 para 49,1%, uma redução de 9,7 pontos percentuais no não comparecimento, de acordo com o levantamento do Movimento Voto 70+.

"Hoje, são cerca de 17 milhões de eleitores com 70 anos ou mais no Brasil", lembra Klouri. "Numa disputa acirrada, em que cada voto tem peso, o voto 70+ não é apenas simbólico: ele pode decidir de fato o rumo do País."

Quem é o manifestante 60+?

A psicóloga aposentada e ativista Genilda Alves de Souza, de 71 anos, cofundadora do Coletivo Mulheres em Lutas 60+, um braço do Coletivo Mulheres em Lutas, ressalta que sua geração traz na bagagem a experiência histórica de enfrentamento e de conquistas sociais.

"A minha geração não ia envelhecer como nossos pais e avós, recolhidos dentro de casa, na cadeira de balanço ou no dominó, sem papel social", afirma. Para Genilda, a decisão de se mobilizar e votar transcende a ideia tradicional de sacrifício como legado para as gerações mais novas.

Existia uma ideia de que a única coisa que a pessoa idosa podia fazer era pensar no futuro dos filhos e netos. Eu quero um futuro bom para mim. Tenho mais 15, 20 anos de vida pela frente e quero condições dignas para mim e para todos os que vierem depois.
Genilda Alves de Souza, cofundadora do Coletivo Mulheres em Lutas 60+

Combater o idadismo é motor para os idosos

Do lado dos movimentos sociais, a militância na idosidade ganha contornos de afirmação cidadã contra o idadismo (ou etarismo) — preconceito e discriminação etária.

Genilda carrega a experiência de ter atuado como professora universitária e militante política com mais de 50 anos de trajetória. Em plena linha-dura da ditadura militar, ingressou no movimento estudantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1976, foi presa durante uma tentativa de reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Ativista Genilda Alves sorri diante de grande faixa azul com a frase Mulheres Sabem Votar.
Psicóloga aposentada e ativista Genilda Alves de Souza, de 71 anos, cofundadora do Coletivo Mulheres em Lutas 60+ - Acervo Pessoal

Por conta dessa atuação, foi perseguida e monitorada por órgãos de segurança até a década de 1990 e chegou a ser demitida de um órgão público por motivação política, tendo sido reconhecida como anistiada política em 2024. A aposentada reforça que é apta e protagonista para lutar ativamente em defesa da democracia.

"Nós participamos de muitas revoluções no terreno social, político e de direitos. Ao fazer 60 anos, você ganha de presente uma nova opressão, que é o etarismo, em que dizem que você não pode, não deve e não sabe. Mas nós estamos rompendo com isso: temos presente e queremos um futuro em melhores condições."

Dentro do coletivo feminista nacional Mulheres em Lutas, Genilda notou a expressiva presença de mulheres com mais de 60 anos e propôs organizar um braço específico para esse segmento. O grupo deu origem ao movimento e ao manifesto "O Futuro é o Envelhecimento", que formula propostas em quatro eixos centrais:

  1. Saúde geriátrica e cuidados;
  2. Combate à violência e proteção financeira;
  3. Mobilidade e lazer;
  4. Inclusão digital contra o etarismo tecnológico.

Para a militante, a exclusão dos idosos na participação cívica começa no preconceito. "É a visão de enxergar a pessoa idosa não como alguém que continua seu ciclo, mas como alguém que vai regredindo. Estabeleceu-se um marco de regressão aceitável para o exercício do voto: até aí você pode exercer o seu direito; depois disso, é questionável".

Para embasar a hesitação de muitos idosos em militar no ambiente digital, Cléa Klouri cita o caso da influenciadora mineira Dona Dirce Ferreira, de 77 anos, que foi alvo de ataques nas redes sociais após declarar publicamente sua preferência de voto.

Para a coordenadora do Movimento Voto 70+, os insultos dirigidos à criadora de conteúdo revelam como a violência política on-line se funde diretamente ao idadismo. "Ela publicou um post falando em quem ia votar e foi xingada de coisas horríveis, de 'velha louca' para baixo. Eu fiquei horrorizada".

"Isso mostra por que as pessoas mais velhas têm receio de se expor nas redes: para não ficarem sujeitas a ataques raivosos nem a esse preconceito que diz que, por ser velho, você 'não sabe o que está pensando' ou é 'gagá'. Elas recuam da militância virtual por autoproteção, não por falta de convicção política."

Qual a luta de um Brasil para os idosos?

A enquete "O Brasil que os 70+ sonham", promovida pelo Movimento Voto 70+ e pelo data8 com mais de 18 mil participações, mostrou que as principais preocupações e reinvindicações dos eleitores com 70 anos ou mais concentram-se no:

  • Enfrentamento da desigualdade social (35%);
  • Questões ligadas ao idadismo e aos direitos da pessoa idosa (25%);
  • Combate à corrupção e à polarização política (20%).

No vocabulário espontâneo dessa parcela da população, as palavras mais repetidas foram saúde, casa própria, respeito e aposentadoria digna.

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