CONFIRA
Eleições 2026

Nossa Senhora entra no debate à presidência: entenda o que rolou nas redes

Fake news sobre padroeira do Brasil gerou milhões de interações, decisões judiciais e acusações entre candidatos a presidente

Pedro Marques

Por Pedro Marques

28/09/2026 | 11h42

Adobe Stock

Caso ganhou tração nas redes sociais após decisão de André Mendonça, ministro do STF - Adobe Stock
Caso ganhou tração nas redes sociais após decisão de André Mendonça, ministro do STF
Ouvir texto 2:27 1x

A controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro e a suposta proposta de retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida gerou intensos debates nas redes sociais e levou a decisões judiciais sobre a remoção de publicações. A situação se agravou com trocas de acusações entre candidatos e grupos políticos, refletindo a polarização do cenário eleitoral de 2026.

A desinformação começou com um projeto arquivado em 2008 e ganhou força após ser resgatada por apoiadores do presidente Lula, resultando em um grande número de interações nas redes sociais. O Instituto Democracia em Xeque registrou mais de 977 mil publicações em um curto período, destacando a mobilização política em torno do tema.

Após a decisão inicial de remoção de conteúdos, o ministro Flávio Dino do STF reverteu essa medida, restabelecendo as publicações. A polêmica continua a impactar a campanha eleitoral, com Flávio Bolsonaro e outros candidatos trocando acusações, enquanto o efeito prático na disputa ainda é incerto.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Uma publicação que associou o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a uma suposta proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil se transformou, em poucos dias, em um dos principais episódios políticos nas redes sociais em 2026. A controvérsia passou por uma decisão judicial de remoção de conteúdos, uma reação em defesa da liberdade de expressão, a posterior liberação das publicações e uma troca de acusações entre candidatos e grupos políticos.

A decisão inicial partiu de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Na última sexta-feira, 25, Mendonça determinou a retirada de 1.125 publicações nas plataformas X, Facebook, TikTok e YouTube que associavam Flávio Bolsonaro a um Projeto de Lei (PL) para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Publicidade

Segundo a decisão, era "notoriamente inverídico" afirmar que Flávio Bolsonaro ou sua família tivessem proposto, articulado, apoiado ou pretendessem promover a retirada do título atribuído à santa católica.

A determinação atingiu, entre outros, o humorista Antonio Tabet, do Porta dos Fundos. Ele contestou a decisão e afirmou que não havia associado diretamente a postagem a Flávio Bolsonaro. Em uma publicação no X, Tabet havia escrito, acompanhando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida: "a família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!".

A decisão de Mendonça provocou uma nova onda de publicações. Parte dos perfis de esquerda passou a deslocar o debate da suposta retirada do título de Nossa Senhora Aparecida para uma discussão sobre censura e liberdade de expressão. Foi nesse contexto que Antonio Tabet contestou judicialmente a retirada de sua publicação. Em nota, o humorista afirmou que a decisão violava a liberdade de expressão e argumentou que sua postagem não identificava nominalmente Flávio Bolsonaro.

Publicidade

Como surgiu a informação

A origem da polêmica está em um projeto apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado federal Victório Galli, que à época era filiado ao MDB. A proposta foi arquivada em 2008.

De acordo com levantamento do Instituto Democracia em Xeque (IDX), a desinformação ganhou força depois que o projeto foi resgatado por apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e candidato à reeleição pelo PT, e passou a ser relacionado a Flávio Bolsonaro.

Segundo o monitoramento apresentado pela campanha do candidato ao TSE, a primeira publicação teria sido feita pelo influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, conhecido pelo perfil governista "Dilma Bolada", que negou ter publicado uma fake news.

Publicidade

A publicação, feita na noite da quarta-feira passada, 23, afirmava que católicos não deveriam votar em candidatos que quisessem retirar de Nossa Senhora Aparecida os títulos de "Padroeira e Rainha do Brasil" e fazia referência aos Bolsonaro.

A repercussão aumentou no dia seguinte, quando o programa "Em Pauta", da GloboNews, abordou a possibilidade de a Igreja Católica reagir a uma suposta mobilização de evangélicos em torno do projeto. Horas depois, a própria GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas pelo erro. Mesmo após a correção, porém, as publicações continuaram a circular nas redes sociais.

Nas primeiras 17 horas depois da informação inicial da GloboNews, o Instituto Democracia em Xeque identificou 397,2 mil menções ao tema e 2,3 milhões de interações em Facebook, Instagram, YouTube, X e TikTok.

Publicidade

Em um levantamento posterior, divulgado em 26 de setembro, o instituto contabilizou 977,6 mil publicações sobre o assunto em 55 horas, com 8,5 milhões de interações. Nas primeiras 24 horas, foram 669,9 mil publicações, o que colocou o episódio, segundo o estudo, como o terceiro maior mobilizador de debate político na internet brasileira em 2026 naquele intervalo.

O monitoramento apontou ainda que, entre 345 publicações de perfis políticos analisadas, 66% foram produzidas por grupos classificados pelo estudo como de esquerda, 33% por grupos de direita e 1% pela imprensa. Considerando as interações, a participação atribuída à esquerda foi de 70%, contra 30% da direita.

Também no dia 26, a campanha de Flávio pediu a prisão preventiva de George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom). Segundo a campanha, ele teria incentivado a divulgação da informação falsa.

Publicidade

Marques havia republicado uma mensagem que estimulava a continuidade da divulgação da informação mesmo depois da retratação da GloboNews. A mensagem, posteriormente apagada, dizia para que as pessoas continuassem compartilhando que Nossa Senhora havia sido atacada e que o conteúdo deveria chegar ao interior das regiões Norte e Nordeste.

A reação dos candidatos à presidência

Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento com uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O candidato também acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de explorar a discussão religiosa para fins eleitorais.

"Eu sempre respeitei todas as religiões. Todos sabem que eu sou cristão, que eu sou evangélico, mas que eu respeito todas as religiões", afirmou.

Publicidade

Lula comentou a polêmica em entrevista ao programa Canal Livre, da Band. Lula afirmou que "mexer com a Nossa Senhora Aparecida não é aceitável" e defendeu o respeito às diferentes religiões.

Questionado sobre o fato de a história envolvendo Flávio Bolsonaro ter sido classificada como fake news, Lula respondeu que não sabia se era fake news. Disse, porém, que o conteúdo estava circulando fortemente nas redes sociais e mencionou episódios anteriores envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

Já nesta segunda-feira, 28 de setembro, o candidato Ronaldo Caiado (PSD) criticou Flávio por envolver a CNBB na controvérsia.

Publicidade

"Quanto mais Flávio tenta se explicar, mais ele se complica. Como sempre. Agora, está acusando a CNBB de ser conivente com a polêmica envolvendo Nossa Senhora", escreveu Caiado no X.

Dino derruba decisão e libera publicações

A disputa ganhou um novo capítulo na noite deste domingo, 27, quando o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a decisão de Mendonça que havia determinado a remoção das 1.125 publicações. Dino acatou recurso de Antonio Tabet e a decisão também alcançou outras postagens retiradas após a decisão de Mendonça.

Para Dino, não era possível identificar na publicação do humorista o grau de certeza necessário para determinar, sem uma instrução processual adequada, consequências consideradas duras para a liberdade de expressão. O ministro também afirmou que a retirada dependeria de presumir que a expressão "família miliciana" se referia a determinado candidato à Presidência.

Publicidade

Dino determinou que as plataformas digitais restabelecessem a postagem de Tabet e as demais publicações que haviam sido excluídas pelo mesmo fundamento.

Também no domingo, Flávio Bolsonaro voltou a falar sobre o episódio durante entrevista em Goiânia. O candidato afirmou que o PT teria contado com a ajuda de "gente de dentro da CNBB" para espalhar a informação falsa.

"A maior fake news da campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida", afirmou. Segundo Flávio, não existiria movimento, projeto ou iniciativa para retirar da santa o título de padroeira do Brasil.

Publicidade

O candidato também criticou a decisão de Flávio Dino de restabelecer as publicações e acusou o PT de manter uma estrutura para disseminação de informações falsas.

A CNBB negou ter produzido ou divulgado informações falsas e afirmou que acusações sem provas atingem a instituição.

Publicidade

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.