Autismo é cercado de fake news, enquanto aumenta número de diagnósticos
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São Paulo - Para especialistas, o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado hoje, reforça a importância de ampliar o debate sobre diagnóstico, acesso e cuidado. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados ano passado, 2,4 milhões de pessoas no País declararam ter recebido diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), sendo 760,8 mil estudantes.
A tendência é mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, a estimativa mais recente do centro americano de controle e prevenção de doenças aponta que uma em cada 31 crianças está no espectro autista, um crescimento expressivo em comparação com os anos 2000, quando a prevalência era de 1 para cada 150, e na década de 2010, quando passou para 1 em cada 69.
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O cenário levanta dúvidas: estamos, de fato, diante de um aumento real de caso, ou há outros fatores envolvidos? De acordo com a pediatra Anna Dominguez Bohn, do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, duas principais hipóteses ajudam a explicar esse fenômeno.
O aumento dos diagnósticos está muito relacionado ao avanço da ciência, com melhores ferramentas e maior compreensão do desenvolvimento infantil. Além disso, fatores ambientais e do estilo de vida moderno ainda estão sendo estudados e podem ter influência, embora não estejam totalmente esclarecidos".
O TEA não é identificado por exames laboratoriais ou de imagem. O diagnóstico é clínico e baseado em critérios internacionais que avaliam o comportamento e o desenvolvimento da criança.
“Não existe um exame único que confirme o autismo. O diagnóstico exige uma avaliação criteriosa, feita ao longo do tempo e em diferentes contextos, observando padrões de comportamento e interação social”, explica a médica.
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Risco de fake news
Com o aumento do volume de diagnósticos, as redes sociais e grupos de mensagem foram inundados por promessas de 'curas milagrosas' e tratamentos sem evidência científica. Esse tipo de caso tem levado especialista e organizações, como a Academia Brasileira de Neurologia (ABN), a reforçar o cuidado com a proliferação de notícias falsas.
A coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Infantil da ABN, Juliana Gurgel Giannetti, diz que o objetivo é "garantir que as famílias brasileiras não sejam vítimas de charlatanismo e tenham acesso ao que há de mais moderno e seguro na neurologia mundial".
O autismo não é uma doença a ser curada, mas uma condição de desenvolvimento que exige intervenção precoce e baseada em evidências."
Ela diz ainda que a organização tem atuado ativamente no combate a protocolos experimentais perigosos, "como o uso de substâncias tóxicas, dietas restritivas sem base científica e suplementações desnecessárias que prometem a reversão do quadro".
Espectro de múltiplas formas
O TEA é caracterizado por grande diversidade de manifestações. Hoje, o diagnóstico considera principalmente dois grandes grupos de sinais: dificuldades na comunicação social e padrões de comportamento repetitivos ou interesses restritos.
"Cada criança dentro do espectro é única. Algumas podem ter linguagem altamente desenvolvida, mas apresentar dificuldades na interação social ou na compreensão de sinais não verbais", destaca Bohn.
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Essa variabilidade torna o diagnóstico um desafio, especialmente nos casos mais leves, que podem passar despercebidos ou, ao contrário, receberem um avaliação equivocada.
O neurologista infantil Hélio Van Der Linden, membro do Departamento Científico de Transtornos de Neurodesenvolvimento da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), observa a ampliação dos critérios diagnósticos.
"Houve um aumento expressivo na identificação dos casos mais leves, especialmente do TEA nível 1 de suporte. Hoje, entram no diagnóstico situações que antes não seriam classificadas dentro do espectro".
Ele ressalta, porém, que embora existam indícios de aumento real de casos, outros fatores ainda estão em estudo:
Fatores ambientais, genéticos, idade paterna e materna mais avançada e condições durante a gestação podem influenciar, mas a principal causa do aumento da prevalência é, de fato, a ampliação dos critérios diagnósticos.”
Diagnóstico precoce
Um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry demonstrou que a aplicação sistemática de triagem para autismo em consultas pediátricas pode antecipar o diagnóstico em meses decisivos para o desenvolvimento infantil.
A pesquisa, que acompanhou cerca de cinco mil crianças, mostrou que aquelas submetidas a rastreio padronizado foram encaminhadas para avaliação mais cedo, em média aos 20 meses, contra 24 meses no grupo sem triagem sistemática.
“Essa diferença de poucos meses é extremamente relevante. Estamos falando de um período de intensa plasticidade cerebral, em que intervenções precoces podem mudar significativamente o desenvolvimento da criança”, afirma Anna Dominguez Bohn.
Ela reforça que o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como uma ferramenta:
O diagnóstico não é o fim, e sim um ponto de partida. Ele permite entender as necessidades e potencialidades de cada criança, direcionando intervenções mais adequadas e promovendo melhor qualidade de vida."
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Além disso, ela observa que o rastreamento precoce permite identificar crianças com sinais mais sutis, que provavelmente demorariam mais para receber diagnóstico.
Van Der Linden complementa que o maior acesso à informação também ajuda. “Hoje há uma enorme disponibilidade de informações sobre o autismo. Isso aumenta a conscientização, mas também abre espaço para a disseminação de informações falsas, principalmente em relação a tratamentos”, alerta.
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Segundo o médico, terapias sem comprovação científica podem prejudicar as famílias. “Muitas vezes, há investimento de tempo, dinheiro e expectativa em abordagens que não têm validação científica. O tratamento deve ser individualizado, baseado em avaliação clínica e em intervenções estruturadas, como a análise aplicada docomportamento”, explica.
Ele diz que a pesquisa em autismo segue avançando, com estudos sobre fisiopatologia, neurotransmissores e possíveis subtipos do transtorno. “Já existem estudos sugerindo subtipos de autismo relacionados a diferentes alterações cerebrais. No futuro, isso pode ajudar a prever melhor a evolução de cada criança”, afirma.
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