Clima instável do outono aumenta crises respiratórias em pessoas 60+
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São Paulo - As oscilações de temperatura típicas do outono têm agravado quadros de doenças respiratórios em todo o País, especialmente entre crianças e pessoas com mais de 60 anos.
Além do aumento de casos de gripe e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), especialistas alertam que a estação pode piorar crises de rinite, sinusite e doenças cardiovasculares durante os dias de frio e ar seco.
Dados do último Boletim InfoGripe, da Fiocruz, mostram que todas as unidades federativas apresentam alta incidência de SRAG, totalizando 57.585 casos este ano. O avanço é mais intenso entre crianças menores de dois anos, impulsionado pelo vírus sincicial respiratório (VSR), mas a mortalidade segue mais elevada entre idosos, principalmente em decorrência da influenza A.
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"A principal forma de prevenção contra agravamentos e óbitos por VSR e influenza A é a vacinação. Por isso, é essencial que as pessoas com maior risco de agravamento por esses vírus se vacinem", afirma a pesquisadora Tatiana Portella, do Boletim InfoGripe e do Programa de Computação Científica da Fiocruz.
Em artigo enviado ao VIVA, a geriatra Monalise Brasilina do Carmo, do Ambulatório Médico da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP), explica que essa preocupação é necessária porque as pessoas idosas costumam sofrer mais com as mudanças climáticas, por conta das alterações naturais do envelhecimento.
O envelhecimento pode provocar alterações imunológicas e fisiológicas que reduzem a capacidade do corpo de se adaptar rapidamente às variações climáticas. Por isso, durante o outono, tornam-se mais comuns episódios de infecções respiratórias, crises alérgicas e descompensações de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares."
Segundo a médica, o ar seco irrita as vias respiratórias e favorece a circulação de vírus. Já o frio provoca vasoconstrição, o estreitamento dos vasos sanguíneos, o que pode elevar a pressão arterial e aumentar a sobrecarga sobre o coração.
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Outro problema frequente é a desidratação. Com menos sensação de sede, muitas pessoas reduzem a ingestão de líquidos. Entre idosos, isso pode provocar tontura, queda de pressão, confusão mental e aumentar o risco de quedas.
Para reduzir os impactos do período, os especialistas recomendam vacinação em dia, hidratação constante e atenção às mudanças de temperatura ao longo do dia. O uso de roupas em camadas ajuda a adaptar o corpo às oscilações térmicas entre manhã, tarde e noite.
A prática regular de atividade física também é indicada, já que contribui para a circulação sanguínea, fortalece o sistema imunológico e ajuda a preservar equilíbrio e mobilidade.
Nariz mais vulnerável
As condições típicas do outono também favorecem crises de rinite e sinusite. De acordo com o Miguel Tepedino, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o clima seco e frio compromete o funcionamento natural do nariz.
"O nariz funciona como um ‘filtro de ar’, mas, para o bom funcionamento, depende de umidade e temperatura adequadas. Quando o ar está frio e seco, a mucosa resseca, os cílios ficam mais lentos e a secreção se torna mais espessa, reduzindo a capacidade de eliminar partículas e vírus" ,explica, e complementa:
A maior permanência em ambientes fechados favorece a concentração de ácaros e a circulação de vírus respiratórios, que aumentam tanto as crises alérgicas quanto as infecções."
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O especialista explica que a rinite afeta a mucosa nasal, geralmente por alergias, enquanto a sinusite atinge os seios paranasais. Já a rinossinusite envolve simultaneamente o nariz e os seios da face.
"A rinossinusite não envolve apenas o nariz, mas também os seios da face, caracterizando um quadro inflamatório mais amplo, com sintomas como obstrução nasal, secreção, congestão e pressão facial", afirma o Tepedino.
Segundo ele, é importante procurar atendimento médico quando os sintomas durarem mais de uma semana, houver febre alta, dor facial intensa, secreção espessa persistente ou piora após melhora inicial. "Esses sinais podem indicar que não se trata de um resfriado comum."
Entre os principais desencadeadores das crises estão ácaros, poeira, mofo, poluição, perfumes, produtos de limpeza, infecções virais e mudanças bruscas de temperatura.
Não existe uma solução única de prevenção, mas sim um conjunto de cuidados que fazem a diferença, como reduzir ácaros em colchões, travesseiros e tecidos; manter os ambientes ventilados e com luz natural; controlar a umidade para evitar o mofo; evitar o acúmulo de poeira e reduzir o uso de produtos muito perfumados."
A lavagem nasal com soro fisiológico também é recomendada como forma de aliviar sintomas e prevenir inflamações.
"Esse procedimento atua de forma mecânica, removendo secreções, partículas e mediadores inflamatórios. No entanto, é importante utilizar a solução adequada, evitando pressão excessiva e mantendo os dispositivos limpos."
O médico ainda alerta para erros comuns, como o uso excessivo de descongestionantes e antibióticos sem orientação médica. "É importante ressaltar que embora os descongestionantes ofereçam o alívio rápido, eles não tratam a causa e o uso contínuo, por mais de três a cinco dias, pode causar o efeito rebote, com a piora da obstrução nasal e até mesmo a dependência funcional", explica.
Cuidado simples e eficaz
Além da vacinação, um cuidado simples continua sendo decisivo para conter infecções respiratórias: lavar as mãos corretamente, destaca o Filipe Piastrelli, infectologista e coordenador do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Alemão Oswaldo Cruz..
Higienizar as mãos é um ato imprescindível. A OMS [Organização Mundial de Saúde] afirma que higienizar corretamente as mãos pode reduzir em até 23% as infecções respiratórias. Isso significa que um pouco de água e sabão podem fazer o que muitos medicamentos caros, por vezes, não conseguem sozinhos".
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Segundo o especialista, a higienização reduz a transmissão de vírus e bactérias responsáveis por gripes, resfriados, conjuntivites, infecções intestinais e doenças de pele. A orientação é esfregar as mãos com água e sabão por pelo menos 40 segundos, incluindo palmas, dorso, unhas, polegares e punhos. Quando não houver acesso à água, o álcool em gel 70% é uma alternativa momentânea eficaz.
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