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Cientistas brasileiros avançam na criação de vacina universal para malária

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Atualmente, as vacinas disponíveis contra a malária possuem eficácia parcial e não protegem contra todas as espécies de parasitas - AdobeStock
Atualmente, as vacinas disponíveis contra a malária possuem eficácia parcial e não protegem contra todas as espécies de parasitas
Por Bianca Bibiano

02/07/2026 | 10h30

São Paulo - Pesquisadores da Fiocruz identificaram um conjunto inédito de fragmentos de proteínas do parasita Plasmodium que pode viabilizar o desenvolvimento de uma vacina universal contra a malária

O estudo, publicado ontem na revista internacional Nature, aponta um caminho para imunizantes capazes de proteger contra diferentes espécies da doença, como P. falciparum e P. vivax, atuando em múltiplas fases da infecção. Segundo a Fiocruz, a descoberta representa um avanço importante para o combate global à enfermidade após anos de investigações.

O que esperar da nova vacina contra malária?

Atualmente, as vacinas disponíveis contra a malária possuem eficácia parcial, são direcionadas principalmente à espécie P. falciparum e atuam apenas na fase inicial da infecção, com uma proteção que tende a diminuir ao longo do tempo.

O novo estudo propõe um imunizante capaz de atacar o parasita em múltiplos estágios, tanto no fígado quanto no sangue, além de ser eficaz contra variadas espécies.

"Hoje, as vacinas não cobrem completamente todas as fases da infecção. Nosso trabalho mostra que esses antígenos estão presentes em vários momentos, o que atende a uma demanda importante da Organização Mundial da Saúde", explicou a pesquisadora Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas e coordenadora do estudo, em nota divulgada pela instituição.

Outro diferencial identificado foi a consistência dos alvos entre diferentes indivíduos. Os cientistas observaram que os mesmos peptídeos eram apresentados em pessoas com perfis genéticos distintos, o que eleva o potencial de a vacina funcionar em populações diversas.

Como a técnica funciona?

O método baseou-se em entender como o sistema imunológico reconhece o causador da doença. Em vez de focar apenas na produção de anticorpos, uma estratégia convencional das vacinas atuais, a equipe - liderada pelas doutorandas Camila Barbosa e Luna de Lacerda, da Fiocruz Minas - investigou o papel de células de defesa que identificam e destroem diretamente as células infectadas.

Como  explica a coordenadora Caroline Junqueira, há mais de 50 anos se tenta desenvolver uma vacina contra a malária e, só recentemente, foram aprovados imunizantes com eficácia limitada. "Um dos principais desafios sempre foi encontrar bons alvos vacinais”.

Segundo ela, o diferencial do estudo foi mostrar que as "células T CD8+" também desempenham um papel central no combate ao parasita e mapear quais proteínas são reconhecidas por elas.

A técnica combina imunologia e proteômica para mapear os antígenos. No total, os cientistas mapearam 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do parasita. “É o primeiro trabalho no Brasil a utilizar imunopeptidômica nesse contexto e o primeiro já realizado para malária”, acrescentou. 

Ao analisar a origem dos fragmentos proteicos, o grupo descobriu que a maioria vinha de proteínas chamadas housekeeping, responsáveis por funções biológicas básicas e indispensáveis para a sobrevivência do parasita. Ao contrário das estruturas que mudam ao longo do ciclo de vida ou variam entre as espécies, estas permanecem estáveis.

“Essas proteínas são necessárias em todos os estágios do ciclo de vida do parasita e são altamente conservadas entre diferentes espécies. Isso as torna alvos muito interessantes para uma vacina universal”, esclareceu Junqueira.

Por que a descoberta é importante?

Na prática, um imunizante baseado nesses alvos tem mais chances de agir de forma ampla. Por outro lado, as proteínas associadas à virulência, que variam frequentemente, apareceram em menor quantidade na análise.

A eficácia do mapeamento foi testada em diferentes frentes. A resposta  imunológica foi confirmada em cinco espécies diferentes e em múltiplos hospedeiros, incluindo humanos naturalmente infectados, humanos submetidos à infecção experimental e modelos animais, tanto em camundongos quanto em primatas.

Nos testes com animais, os antígenos induziram resposta das células T em órgãos-chave, como o fígado e o sangue, demonstrando efeito protetor ao reduzir a carga do parasita. “Não é só reconhecimento: vimos indícios de proteção, o que é fundamental para o desenvolvimento de uma vacina”, complementou Junqueira.

A vacina universal de malária já tem patente?

Os resultados geraram a concessão de uma patente que engloba os antígenos identificados. A proteção intelectual foi emitida pelo escritório norte-americano United States Patent and Trademark Office (USPTO) e por duas organizações regionais do continente africano: a African Regional Intellectual Property Organization (Aripo) e a Organisation Africaine de la Propriété Intellectuelle (Oapi).

Esta é uma conquista enorme. Estamos falando de 166 proteínas que podem ser exploradas nas próximas décadas. É só a ponta do iceberg”, comemorou Junqueira.

De acordo com Ana Paula Granato, coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Minas, o registro internacional facilitará parcerias futuras. “As concessões mostram a potência deste estudo, que percorreu um longo caminho. Estamos muito otimistas de que os resultados obtidos a partir da pesquisa possam culminar no desenvolvimento de uma vacina”, declarou Granato.

Apesar do avanço científico, a equipe ressalta que o caminho até a chegada do imunizante ao mercado ainda é longo, dependendo de novas validações e de testes clínicos em humanos

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