Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Risco de hantavírus é baixo entre humanos mas requer cuidados

Reprodução/Antarctica Cruises

Nesta semana, três passageiros do cruzeiro Hondius, morreram em virtude de um surto de hantavírus; caso segue em investigação pela OMS - Reprodução/Antarctica Cruises
Nesta semana, três passageiros do cruzeiro Hondius, morreram em virtude de um surto de hantavírus; caso segue em investigação pela OMS
Por Bianca Bibiano

07/05/2026 | 14h28

São Paulo - Nesta semana, três passageiros de um cruzeiro que partiu de Ushuaia, na Argentina, com destino a Cabo Verde, na África, morreram em virtude de um surto de hantavírus. Até o momento, oito casos de contaminação foram registrados, sendo três deles confirmados por exames laboratoriais.

As investigações ainda seguem em andamento, mas o episódio colocou a hantavirose em evidência e levantou dúvidas sobre os riscos de transmissão da doença. 

Leia também: OMS inicia rastreamento de passsageiros de voo após morte por hantavírus

Casos de hantavírus no Brasil

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou sete mortes por hantavirose em 2026 até abril.

Em 2025, foram contabilizados 35 óbitos. Desde 2013, o País soma 860 mortes relacionadas à doença, em um cenário de redução gradual dos casos desde 2015, apesar de leve alta em 2023, concentrada especialmente na Região Sul. A maior parte das ocorrências continua concentrada em zonas rurais e ligadas ao armazenamento de grãos e à produção agrícola.

Hantavírus passa entre humanos?

Apesar da gravidade dos quadros clínicos associados ao vírus, infectologistas entrevistados pelo VIVA afirmam que o potencial de disseminação em larga escala a partir dos casos ocorridos no cruzeiro permanece baixo, especialmente porque a transmissão entre humanos é considerada rara.

Para o médico Alberto Chebabo, infectologista dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa, no Rio de Janeiro, a principal forma de contaminação segue relacionada ao contato indireto com roedores silvestres infectados. A transmissão entre humanos, embora possível, está associada a circunstâncias muito específicas. 

No Brasil, explica ele, os casos costumam ocorrer em áreas fechadas, silos e depósitos de grãos, quando partículas contaminadas presentes no ar são inaladas pelas pessoas.

Leia também: Entenda o que é o hantavírus, que matou três pessoas em cruzeiro no Atlântico

Chebabo destaca que o surto investigado no navio envolve a variante Orthohantavirus andesense, conhecida como cepa andina, uma das poucas capazes de transmissão interpessoal.

Essa é exatamente a espécie relacionada ao surto investigado no navio. Para contaminar, precisa ter contato intenso em locais com baixa circulação de ar. As condições do navio favoreceram o risco de transmissão entre humanos", afirma.

O especialista ressalta que já foram identificadas ao menos 38 variantes do hantavírus no mundo, geralmente associadas a reservatórios específicos de roedores. Casos da doença são registrados com maior frequência em regiões rurais da Argentina, Chile, Patagônia e algumas áreas da África do Sul.

O patologista  e virologista João Renato Rebello Pinho, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), observa que a situação é "relevante, mas não alarmante".

"Essa possibilidade [de contaminação entre humanos] já era conhecida para um tipo específico de hantavírus e continua sendo rara. O mais importante é que essa observação reforça a necessidade de diagnóstico precoce, isolamento de casos suspeitos e monitoramento de contatos próximos, especialmente em ambientes fechados como um navio", resume.

Leia tambémCientista brasileiro desenvolve mosquito que não transmite dengue

O episódio do navio não muda o que a ciência já sabe sobre o hantavírus. Trata-se de uma doença rara, mas potencialmente grave, que exige atenção médica rápida, não pânico."

Variantes

O comportamento da variante andina é um dos fatores que explicam o monitoramento internacional dos passageiros do cruzeiro. Ainda assim, os especialistas afastam a possibilidade de um cenário semelhante ao de pandemias respiratórias recentes.

O médico Heleno Strobel Rosa, especialista do Grupo Med+, explica que a hantavirose não possui dinâmica de transmissão comparável à gripe ou à Covid-19. "O hantavírus oferece risco real, mas não é um vírus de transmissão ampla como gripe ou Covid-19. A contaminação ocorre, em geral, pelo contato com urina, fezes ou saliva de roedores infectados", diz.

Leia tambémButantan recruta 6,9 mil idosos para testar nova vacina contra gripe

Segundo ele, a suspeita é de que os passageiros tenham sido expostos durante atividades em áreas naturais contaminadas.

"No caso do navio MV Hondius, investigado após casos e mortes ligados a um cruzeiro na Argentina, a suspeita é de exposição em ambiente natural contaminado, possivelmente durante atividades em terra. O episódio chama atenção, mas não significa risco generalizado para viajantes", afirma.

A avaliação é semelhante à do infectologista Luis Felipe Visconde, coordenador do SCIRAS do Grupo São Lucas. "O recente surto documentado envolve, justamente, essa variante que pode ser transmitida de pessoa a pessoa. O alerta é justificado pela gravidade da doença, mas sabemos que a transmissão do vírus de pessoa a pessoa exige contatos mais prolongados. O mecanismo é diferente das doenças respiratórias, por exemplo, como Covid e gripe", afirma.

Visconde explica ainda que as variantes do hantavírus apresentam diferenças importantes entre continentes.

Enquanto as cepas descritas nas Américas costumam provocar comprometimento pulmonar e cardíaco, algumas variantes asiáticas estão mais associadas a alterações renais e cardiovasculares.

Evolução da doença

Um dos principais desafios da hantavirose é justamente o diagnóstico precoce. Os sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser confundidos com outras infecções virais, o que dificulta a identificação dos casos nos primeiros dias.

Segundo Luis Felipe Visconde, o vírus desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo. "Alguns pacientes apresentam um fenômeno em que essa inflamação exagerada acomete os pulmões e interfere com o funcionamento dos vasos pulmonares. O resultado é uma insuficiência respiratória grave", explica.

Além do comprometimento respiratório, o hantavírus também pode atingir diretamente o coração. "O hantavírus também tem ação sobre as células do coração, podendo promover uma inflamação que dificulta o coração de desenvolver sua atividade de bombeamento do sangue", afirma.

Apesar de a variante transmitida entre humanos ser conhecida desde 1996, ainda não existe tratamento antiviral específico. "Embora tenhamos conhecimento amplo da síndrome, em termos médicos, ainda não temos um tratamento específico contra o vírus. O manejo se baseia no suporte intensivo", diz o infectologista.

Como evitar

Especialistas afirmam que as medidas preventivas continuam sendo a forma mais eficaz de evitar infecções. A recomendação é evitar contato com locais infestados por roedores, especialmente galpões, depósitos, trilhas, construções abandonadas e ambientes fechados sem ventilação adequada.

Em viagens de cruzeiro, o cuidado deve ser redobrado durante atividades em áreas rurais ou silvestres. "Em cruzeiros, o principal cuidado é evitar contato com locais que possam ter roedores, como trilhas, galpões, depósitos, áreas de mata, construções abandonadas ou espaços com lixo acumulado", orienta Heleno Strobel Rosa.

O especialista também recomenda atenção aos sintomas após viagens, sobretudo febre, dores no corpo, tosse seca e falta de ar. "Se houver piora rápida, especialmente após exposição em área rural ou silvestre, a pessoa deve procurar atendimento médico e informar o histórico de viagem", afirma.

Já em aeroportos, o risco de hantavírus para passageiros é baixo, com atenção maior para quem atua nas áreas de carga, manutenção, depósitos, lixo e alimentação, onde pode haver presença de roedores.

Para a população em geral, complementa Strobel Rosa, seguem valendo medidas simples, como higienizar as mãos, evitar contato com resíduos, não consumir alimentos expostos e comunicar sinais de infestação à administração do local.

Acompanhamento dos casos

Alberto Chebabo destaca que o monitoramento dos passageiros continuará nos países de origem devido ao período de incubação da doença, que pode variar entre três e 60 dias. Para ele, informação e prevenção seguem sendo fundamentais para manter o número de casos sob controle.

Leia também: Doenças respiratórias avançam em 15 capitais e no DF devido a sazonalidade

"O próprio conhecimento dos mecanismos de transmissão da doença e a identificação rápida dos casos fazem com que você consiga reduzir o número de casos. A orientação dos produtores rurais em relação ao armazenamento adequado dos grãos e a ventilação dos locais reduzem o risco de transmissão e contato humano com esse vírus", diz.

Os especialistas também apontam que a redução recente dos registros no Brasil pode não refletir completamente a circulação da doença. Luis Felipe Visconde avalia que a hantavirose ainda enfrenta subnotificação. "Muitas vezes, não é feito o diagnóstico pela similaridade da doença com outros quadros clínicos e pelo não acesso a métodos diagnósticos com facilidade", completa.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Gostou? Compartilhe

Últimas Notícias