Como os medicamentos para obesidade estão mudando a relação com a comida
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São Paulo, 04/03/2026 - O avanço dos medicamentos para tratamento da obesidade tem provocado uma transformação silenciosa no comportamento alimentar dos brasileiros. Associadas à perda de peso acelerada, essas drogas vão além da balança e atingem circuitos cerebrais ligados à fome, ao prazer e à tomada de decisão alimentar.
Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que o número de brasileiros obesos mais que dobrou em menos de 20 anos. A análise comparou dados de 2006 e 2024 do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e mostrou que quase 25% da população já lida com a obesidade, enquanto mais de 60% está acima do peso.
Esse cenário impulsionou a popularização de fármacos que regulam apetite e saciedade. Estudos indicam que eles reduzem a fome impulsiva, o consumo calórico diário e a frequência do chamado 'comer automático'.
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A doutora em ciências farmacêuticas Roseane Leandra da Rosa, coordenadora do curso de nutrição da UNIASSELVI, afirma que o impacto ocorre porque o padrão alimentar ainda é guiado por estímulos emocionais e ambientais, e não apenas pela fome fisiológica.
Grande parte das escolhas alimentares acontece no ‘piloto automático’, ativada por estresse, ansiedade, rotina ou estímulos externos. Quando o medicamento reduz a sinalização da fome e do desejo, ele interfere diretamente nesses circuitos, o que gera a sensação de ‘controle’. Mas isso não significa, necessariamente, consciência alimentar."
Fome e reeducação
Do ponto de vista da neurociência, a redução farmacológica da fome pode interromper o impulso, mas não reeduca os sinais internos. "O medicamento interrompe o impulso, mas não ressignifica a relação com a comida. O cérebro deixa de pedir, mas não aprende a escolher", destaca a especialista.
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O efeito pode ser confundido com mudança de comportamento, quando representa a terceirização do autocontrole ao fármaco. A longo prazo, isso pode enfraquecer a autonomia alimentar.
A fome não é inimiga, é um sinal biológico essencial. Quando ela é suprimida sem um processo educativo, corre-se o risco de desconexão corporal, rigidez alimentar e até medo de comer sem o medicamento."
Especialistas chamam atenção para um efeito menos debatido: a substituição do comer automático por um padrão de controle excessivo. Sem acompanhamento nutricional e psicológico, a ausência da fome pode reforçar restrição, culpa alimentar e distorções sobre corpo e alimento.
"Quando as questões emocionais permanecem ativas no cérebro, mas o apetite é silenciado, o foco deixa de ser a comida e passa a ser o controle. Isso aumenta o risco de comportamentos alimentares disfuncionais, especialmente em pessoas com histórico de ansiedade, depressão ou transtornos alimentares", complementa Roseane Leandra da Rosa.
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Impactos psicológicos
O uso de agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, cresceu nos últimos anos. Desenvolvidos para diabetes tipo 2 e obesidade, passaram a ser utilizados também por pessoas sem indicação clínica formal, impulsionadas por demandas estéticas.
Em março de 2024, estudo publicado na revista Scientific Reports analisou dados de mais de 160 mil pacientes nos Estados Unidos e identificou associação entre o uso desses medicamentos e maior incidência de desfechos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e ideação suicida. Os autores ressaltam que não há relação causal comprovada, mas recomendam monitoramento psicológico.
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Na prática clínica, a psicóloga Maria Klien diz observar mudanças preocupantes.
Tenho percebido um número maior de pessoas extremamente magras, algumas com sinais claros de anorexia, tanto na clínica quanto em ambientes como academias".
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"Quando digo que essas canetas estão sequestrando nossa identidade, falo sobre pessoas que passam a se reconhecer apenas pelo tamanho do próprio corpo, como se toda a existência fosse reduzida a essa métrica", declarou em nota.
Maria acrescenta que autoridades do Reino Unido e do Brasil emitiram alertas sobre relatos de pancreatite aguda associados ao uso desses medicamentos, reforçando a importância de acompanhamento médico.
"A medicação não cria o sofrimento, mas pode amplificar aquilo que já estava presente e sem espaço de escuta", pontua a psicóloga, e completa: "Investigar a relação da pessoa com comida, controle, autoestima e imagem corporal precisa fazer parte do processo terapêutico", diz Maria Klien.
Quando transformamos angústia em meta de peso, deixamos de escutar o que está sendo comunicado por trás desse movimento. A discussão sobre essas medicações precisa incluir essa dimensão."
Uso sem indicação cresce
Estudo internacional liderado por pesquisadores das faculdades de Medicina e de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) aponta avanço do uso desses medicamentos por pessoas sem diagnóstico de diabetes tipo 2 ou obesidade.
Conduzida por Fernanda Scagliusi e Bruno Gualano, pesquisadores do Centro de Medicina do Estilo de Vida da FMUSP, a análise mostra que os agonistas de GLP-1 passaram a ser usados como ferramenta de otimização corporal.
"Nas redes, vemos narrativas muito sedutoras que apresentam esses medicamentos como soluções simples e rápidas, sem mencionar riscos ou limitações. Tudo isso pressiona as pessoas a recorrerem a estratégias farmacológicas mesmo sem necessidade clínica, apenas para atingir um ideal estético amplificado digitalmente", aponta Scagliusi.
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Nesse sentido, Bruno Gualano complementa que há uma 'lacuna importante de conhecimento'. "Sabemos que esses medicamentos são eficazes para pessoas com obesidade, mas ainda faltam estudos que avaliem segurança, impacto psicológico e efeitos de longo prazo em indivíduos sem indicação clínica. Isso torna o uso estético especialmente preocupante".
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