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'A obesidade vai contra a longevidade': médicos explicam riscos para os 50+

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O ganho excessivo de peso compromete diretamente a autonomia, a independência e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento - Freepik
O ganho excessivo de peso compromete diretamente a autonomia, a independência e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento
Por Bianca Bibiano

15/01/2026 | 09h08

São Paulo, 15/01/2026 - O sobrepeso e a obesidade representam risco de saúde real para todas as idades, mas se tornam especialmente preocupantes a partir dos 50 anos. Segundo dados da Pesquisa Covitel 2023, consultada no Observatório da Saúde Pública, 68,5% das pessoas entre 45 e 54 anos estão com sobrepeso, a maior taxa entre as faixas etárias analisadas. De 55 a 64 anos, o índice é de 59,9%, caindo para 56,8% entre pessoas acima de 65.

Para médicos que acompanham esse público de perto, esses números refletem uma realidade crescente nos consultórios e expõem um alerta: na maturidade, o ganho excessivo de peso não afeta apenas o peso corporal, mas compromete diretamente a autonomia, a independência e a qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

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"A obesidade vai contra a longevidade", explica o médico Alfio Borghi Neto, professor da Associação Brasileira de Nutrologia e nutrólogo de personalidades como Adriane Galisteu. "Essa é uma doença crônica que provoca alterações no tecido gorduroso e no cérebro, inclusive alterações genéticas, desencadeando um estado inflamatório crônico. Você não sente uma inflamação visível, mas é um corpo sendo agredido cronicamente, todos os dias, em pequenas doses."

O médico esclarece que esse processo contínuo gera estresse oxidativo e torna o organismo mais suscetível a doenças como diabetes, hipertensão e dislipidemias, reduzindo a autonomia e aumentando o risco de dependência na velhice. "Longevidade não é que você vai viver mais anos do que viveria, mas que os anos que você tem para viver você vai viver com mais autonomia e independência", pondera.

Tudo começa no sobrepeso

De acordo com o médico Marcelo Carneiro, cirurgião do reality Quilos Mortais Brasil e idealizador da clínica Obesicenter, mesmo pessoas que nunca tiveram obesidade podem desenvolver a doença após os 50 anos.

"A partir dos 50 anos a gente tem alterações metabólicas e hormonais muito importantes. Chega a menopausa, a andropausa, os hormônios ficam alterados, a taxa metabólica cai, perde músculo, e aí que a obesidade pode aparecer mesmo".

Por ser crônica e progressiva, os efeitos da doença também são potencializados pela idade. "Conforme a obesidade vai avançando e a idade também, as pessoas começam a apresentar mais comorbidades, como hipertensão, diabetes, colesterol alto, apneia do sono, problemas osteoarticulares e até perda de massa muscular, que é a sarcopenia". Por isso, pacientes com 50 anos ou mais tendem a concentrar um número maior de doenças associadas, completa o especialista.

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Para ele, um ponto importante nesse cenário é o sobrepeso, frequentemente minimizado. "Na medicina, falamos que o sobrepeso nunca é saudável. Mesmo antes da obesidade instalada, já há alterações hormonais e metabólicas relevantes", pondera.

"O sobrepeso ou até a obesidade grau 1 pode gerar síndrome metabólica, resistência insulínica, aumento do colesterol, da pressão arterial e apneia do sono", explica. Por isso, o médico reforça que o ideal é permanecer em uma faixa de peso considerada normal, com o Índice de Massa Corpórea (IMC) até 25. "Se o sobrepeso começa a surgir depois dessa idade, a pessoa deve procurar uma equipe multidisciplinar para não chegar a desenvolver obesidade."

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O tratamento, no entanto, não é padronizado. "O mais importante é fazer uma avaliação individualizada", defende Carneiro. Ele explica que fatores como estilo de vida, presença de comorbidades e critérios clínicos, incluindo o IMC, orientam a conduta.

É mais difícil emagrecer depois dos 50?

Infelizmente, sim. "O metabolismo está mais lento, há perda de massa muscular, alterações hormonais e, muitas vezes, maior dificuldade para fazer atividade física", explica Carneiro. Ele diz ainda que mudanças de rotina, como a aposentadoria, saída dos filhos de casa e até situações de luto afetam a alimentação e levam ao ganho de peso. 

"A pessoa sai de uma rotina ativa, muda hábitos, e isso interfere muito no tratamento", diz. Por isso, ele defende a investigação cuidadosa das causas do ganho de peso para definir a melhor estratégia terapêutica.

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Outro desafio é a compreensão da obesidade como doença crônica. "Poucas pessoas entendem que obesidade é doença", afirma Carneiro. "Ela não tem cura e é progressiva. Se a pessoa não tratar, ela vai piorar." Segundo ele, quem inicia um tratamento precisa entender que não pode relaxar os cuidados. "Ela nunca vai poder abaixar a guarda, porque senão a doença volta."

A busca por soluções rápidas é um erro comum. "As pessoas querem perder peso rápido ou usar o medicamento que o vizinho está usando", alerta. "Isso causa perda de massa muscular, reduz a taxa metabólica e leva ao efeito sanfona, que faz muito mal à saúde."

O impacto da obesidade para as mulheres

Entre as mulheres, a menopausa representa um ponto de inflexão importante. O médico Alfio Borghi Neto explica que a queda do hormônio estrogênio que acontece nessa fase altera o humor, o sono, o paladar e a composição corporal, levando ao ganho excessivo de peso.

"Muitas mulheres dizem que nunca gostaram de doce e, de repente, passam a desejar muito açúcar", relata. Além disso, a deficiência hormonal leva à perda do formato corporal feminino, aumentando a cintura, 'achatando' os glúteos e levando ao aumento da gordura abdominal, com elevação para o risco metabólico.

especialista nutrólogo Alfio Borghi Neto
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O sono ruim, muito comum nas mulheres após a menopausa, agrava ainda mais esse quadro. Segundo Neto, alterações hormonais fazem com que o cortisol seja liberado em horários inadequados, prejudicando o descanso e a energia ao longo do dia. "Esse desequilíbrio hormonal faz o cérebro buscar recompensa rápida, geralmente na forma de doce e carboidrato", explica. "Dormir mal faz com que a pessoa engorde."

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O envelhecimento também afeta o paladar e a absorção de nutrientes. "O idoso tende a preferir alimentos mais ricos em sal, açúcar e gordura", diz Alfio. O problema é que, nessa fase, a necessidade de proteína aumenta, mas o consumo geralmente diminui. O resultado é perda de massa muscular, redução da mobilidade, aumento da gordura abdominal e maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer.

Para o nutrólogo, a base do tratamento está na alimentação, no exercício físico e na qualidade do sono. "Sou a favor de suplementação e medicação, mas isso nunca pode substituir uma alimentação equilibrada", afirma. Ele defende mudanças graduais de hábitos, evitando metas irreais que geram frustração.

Muito além da estética

O impacto da obesidade nessa faixa etária também é percebido no sistema de saúde. Dados da Prefeitura de São Paulo mostram que os atendimentos a idosos com obesidade passaram de 38.815 em 2021 para 143.266 em 2023, um aumento de quase 270% em dois anos.

médico Edson Rumuth
"A obesidade é a doença do século" e um dos principais desafios de saúde pública da atualidade, pondera o médico Edson Ramuth, CEO do Emagrecentro - Divulgação

Não à toa, o médico Edson Ramuth, CEO do Emagrecentro, diz que "a obesidade é a doença do século" e um dos principais desafios de saúde pública da atualidade. "Ela está diretamente relacionada a uma série de doenças crônicas e afeta a longevidade, não apenas a estética", afirma.

Segundo ele, serviços de saúde e clínicas especializadas têm adaptado protocolos para atender esse público, considerando limitações de mobilidade, alterações metabólicas e condições pré-existentes. "Manter um peso adequado se torna mais difícil com o passar do tempo, e por isso é fundamental contar com estratégias adequadas e uma equipe capacitada", completa.

No Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, existe um protocolo desde 2020 que prevê a identificação do sobrepeso e da obesidade a partir da atenção primária em saúde ou atenção hospitalar, encaminhando as pessoas identificadas para ações de promoção, proteção e recuperação da saúde para evitar o ganho excessivo de peso.

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Ainda segundo o protocolo, essa identidicação pode ser feita tanto por médicos e enfermeiros quanto por agentes de saúde, que são vistos como profissionais-chave para o acolhimento dessas pessoas, fazendo a ponte entre eles, a equipe saúde da família e a unidade de saúde. 

Reganho de peso: por que a cirurgia não é um "atalho"

Os especialistas convergem em um ponto central: envelhecer bem exige cuidado contínuo. "Não se trata de buscar soluções rápidas, mas de compreender a obesidade como uma doença crônica que precisa ser acompanhada ao longo da vida", reitera Alfio Borghi Neto.

Mesmo procedimentos considerados eficazes, como a cirurgia bariátrica, não encerram o tratamento da obesidade. Neto fala do tema a partir da própria experiência, quando chegou a pesar 140 quilos e passou por cirurgia bariátrica em 2016. Dez anos depois, usa o exemplo pessoal para alertar pacientes sobre a necessidade de acompanhamento contínuo e o papel central da atividade física.

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"O exercício é o meu aliado, é o que me dá liberdade", diz o nutrólogo. Segundo ele, não se trata de restrição extrema ou de uma vida alimentar rígida, mas de equilíbrio. "Eu tenho uma vida normal, faço exceções, mas o exercício me traz essa liberdade e prazer de viver."

Para ele, esse entendimento é fundamental para evitar o ciclo de perda e reganho de peso, comum quando a obesidade não é tratada como uma condição crônica, acrescentando que cerca de 40% das pessoas submetidas à bariátrica apresentam reganho de peso significativo ao longo dos anos. "A bariátrica é uma excelente estratégia, dependendo do caso e da avaliação individualizada, mas se eu não enxergar a obesidade como uma doença crônica, a chance de reganho de peso é gigante", afirma.

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Ele reforça que a cirurgia não elimina os mecanismos biológicos e comportamentais. "Quantas pessoas a gente conhece que já reganharam peso mesmo tendo feito bariátrica?", e conclui destacando que o procedimento exige cuidados permanentes e pode trazer efeitos colaterais que precisam ser monitorados ao longo da vida.

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