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Obesidade afeta 1 em cada 4 no Brasil e amplia risco de doenças graves

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Obesidade está ligada a mais novos casos de hipertensão, infarto, AVC, diabetes e até alguns tipos de câncer - AdobeStock/Joa Souza
Obesidade está ligada a mais novos casos de hipertensão, infarto, AVC, diabetes e até alguns tipos de câncer
Por Bianca Bibiano

04/03/2026 | 08h00

São Paulo, 04/03/2026 - Dados recentes do Ministério da Saúde mostram que o número de brasileiros obesos mais que dobrou em menos de 20 anos. A análise comparou dados de 2006 e 2024  do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e mostrou que quase 25% da população já lida com a obesidade, enquanto mais de 60% está acima do peso.

O médico clínico Marcelo Bechara, estudioso em ciência da obesidade e especialista em hormonologia e reposição hormonal masculina pela Harvard Medical School, define o cenário como epidemia.

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O grande problema da obesidade são justamente as demais doenças associadas à condição. Veremos cada vez mais novos casos de hipertensão, infarto, AVC, diabetes e até alguns tipos de câncer."

"O fato é que o sistema de saúde do País será cada vez mais sobrecarregado, com aumento significativo dos custos e maior dificuldade em garantir atendimento adequado à população. É uma verdadeira bomba-relógio", acrescentou o especialista.

A pesquisa Vigitel também revela alterações no padrão de exercícios físicos, em que atividades simples como caminhadas e deslocamentos a pé despencaram de 17%, em 2009, para 11,3% em 2024.

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Em contrapartida, houve um aumento de 42% da proporção de adultos que realizam atividade física moderada em seu tempo livre.

Em meio à ascensão das canetas emagrecedoras, o especialista adverte que, em muitos casos, a adoção de hábitos simples pode diminuir significativamente os índices de sobrepeso e gordura corporal.

A prática regular de atividades físicas, aliada a uma alimentação saudável, rica em proteínas, verduras, legumes, vegetais e fibras, além da redução do estresse e de boas noites de sono, contribui diretamente para o funcionamento adequado do organismo."

"Outro ponto importante é o uso de medicamentos para o emagrecimento: nem todos os pacientes precisam de fármacos para eliminar gordura, sendo indispensável a indicação e o acompanhamento médico", conclui o médico.

Obesidade além do peso

Diabetes

A obesidade é fator determinante para resistência à insulina, mecanismo central no desenvolvimento do diabetes tipo 2, e está associada ao aumento de doenças cardiovasculares, principal causa de morte entre pessoas com a condição.

Com o avanço do excesso de peso no País, a tendência é de crescimento expressivo de novos casos e de complicações relacionadas à diabetes, afirma o endocrinologista Ronaldo Pineda Wieselberg, presidente da ADJ Diabetes Brasil.

A obesidade e o diabetes tipo 2 caminham juntos. Quando falamos em crescimento de 118% da obesidade no Brasil em menos de duas décadas, estamos falando também de um aumento expressivo no risco de novos casos de diabetes e de complicações cardiovasculares."

"Precisamos tratar a obesidade como doença crônica e prioridade de saúde pública para conseguirmos frear esse ciclo", acrescentou.

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Ele pondera que o problema extrapola o campo da saúde. "Os principais desafios para o sistema de saúde em relação à obesidade e diabetes são multifatoriais. Sabemos que pessoas que têm acesso à alimentação mais saudável têm menor incidência de diabetes e de obesidade", analisa

Sabemos também que pessoas que têm acesso a lugares com segurança e condições para a prática de atividade física também têm uma menor incidência dessas condições."

Para Wieselberg, muito mais do que apenas falar que o SUS não oferece medicação para obesidade no SUS, é preciso "entender que o sistema de saúde de maneira geral também precisa envolver a parte de urbanismo, a parte de atividade física, a parte de segurança alimentar, que infelizmente uma grande parte da nossa população não tem".

Impacto hormonal

Além do diabetes, a obesidade também está associada à síndrome metabólica, dislipidemias e alterações reprodutivas. Alterações em hormônios como leptina e grelina contribuem para aumento da fome e dificuldade na perda de peso, reforçando o ciclo metabólico da doença.

"A doença atinge múltiplos eixos hormonais e por isso está ligada a diferentes condições endócrinas", ressalta a endocrinologista Fernanda Parra.

"Muitos pacientes enfrentam uma barreira biológica real para emagrecer, pois os sinais de fome e saciedade ficam desregulados."

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No tratamento, a abordagem envolve avaliação individualizada, mudanças no estilo de vida e terapias farmacológicas voltadas ao controle metabólico. "O cuidado com a obesidade precisa ser contínuo, multiprofissional e focado na saúde metabólica, não apenas na balança", afirma a especialista.

Ela destaca que a data é uma oportunidade de conscientização. "Mais do que reduzir peso, o objetivo é interromper o ciclo hormonal e metabólico que favorece o surgimento do diabetes tipo 2 e de outras doenças."

Câncer

O excesso de gordura corporal está associado a pelo menos 13 tipos de câncer, segundo organismos internacionais. Embora nem todos os casos desses tumores ocorram em pessoas com obesidade, o acúmulo de gordura aumenta o risco populacional e pode influenciar também na resposta ao tratamento.

"O tecido adiposo não é inerte. Ele produz substâncias inflamatórias e altera o equilíbrio hormonal do organismo", explica o oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas.

Isso pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de tumores. Além disso, os resultados dos tratamentos dos tumores em pessoas com obesidade tendem a ser piores."

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Ele reforça que a condição vai além do peso corporal. "Não se trata apenas de peso na balança, mas de um desarranjo metabólico sistêmico", afirma Donadio. "A inflamação crônica com disfunção imunológica e as alterações hormonais criam um terreno biologicamente mais favorável ao câncer."

Cânceres associados à obesidade:

  • Mama, especialmente na pós menopausa
  • Cólon e reto
  • Endométrio
  • Ovário
  • Fígado
  • Pâncreas
  • Rim
  • Esôfago, especialmente adenocarcinoma
  • Vesícula biliar
  • Estômago, região da cárdia
  • Tireoide
  • Mieloma múltiplo
  • Meningioma

Doenças inflamatórias intestinais

A relação entre obesidade e doenças inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e retocolite ulcerativa, tem chamado a atenção da comunidade médica. O excesso de gordura corporal amplia o estado inflamatório do organismo e pode agravar sintomas, aumentar a frequência de crises e reduzir a resposta a medicamentos biológicos.

O tecido adiposo libera citocinas e adipocinas que intensificam a inflamação intestinal. Além disso, dietas ricas em gorduras e ultraprocessados favorecem alterações na microbiota, contribuindo para a piora clínica.

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Segundo Sérgio Teixeira, diretor médico da Ferring Brasil, o tratamento deve considerar fatores metabólicos e emocionais. "A associação de suporte psicológico com o tratamento adequado se faz essencial para que esses pacientes possam ter melhor qualidade de vida", destaca.

Joelho e quadril

O excesso de peso compromete diretamente articulações como joelho e quadril, tanto pela sobrecarga mecânica quanto pelo ambiente inflamatório crônico associado ao tecido adiposo. Conforme o grau de obesidade, o risco de desenvolver artrose de joelho pode ser até 4,7 vezes maior.

"A cada passo, o joelho recebe uma carga que pode chegar a três ou quatro vezes o peso corporal. Quando há excesso de peso, essa sobrecarga se repete inúmeras vezes ao longo do dia, acelerando o desgaste da cartilagem. Além disso, o tecido adiposo libera substâncias inflamatórias que também contribuem para a degeneração articular", explica o ortopedista Mauro Meyer.

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"Hoje sabemos que a obesidade não é apenas uma questão de peso sobre a articulação. Existe um componente inflamatório importante que altera o funcionamento da cartilagem e acelera o processo degenerativo", afirma.

Como fator de risco modificável, a perda de peso pode retardar a progressão da doença. "Reduções mesmo que modestas de peso já diminuem a pressão sobre o joelho e podem aliviar dor e inflamação. Associar alimentação equilibrada, atividade física supervisionada e fortalecimento muscular é fundamental tanto para prevenção quanto para controle da artrose inicial", orienta.

Doenças cardíacas

A obesidade está associada ao aumento de hipertensão, diabetes e outras condições que ampliam significativamente o risco de infarto, insuficiência cardíaca e morte súbita. O excesso de gordura corporal mantém o organismo em estado de inflamação constante e provoca danos progressivos aos vasos sanguíneos.

"Estamos falando de uma doença crônica que altera o metabolismo e mantém o organismo em estado de inflamação constante. Esse processo favorece a resistência à insulina, aumenta o risco de diabetes tipo 2 e provoca danos progressivos aos vasos sanguíneos, o que eleva, de forma importante, a chance de complicações cardiovasculares", explica a médica Flávia Pieroni, endocrinologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica.

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a cardiologista Fernanda Erthal destaca a sobrecarga direta sobre o coração. "Com o aumento da massa corporal, o coração precisa trabalhar mais para bombear o sangue, e a pressão arterial tende a se elevar", diz. "Além disso, o excesso de gordura, especialmente a gordura visceral (aquela que se acumula na região abdominal), está associado a um estado inflamatório persistente no organismo", acrescenta.

Esse processo favorece o desenvolvimento de placas nas artérias e aumenta o risco de infarto, insuficiência cardíaca e outras complicações. Manter um peso saudável é uma das formas mais importantes de proteger o coração."

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