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Professoras 55+ tendem a naturalizar mais a violência de gênero nas escolas

Rovena Rosa/Agência Brasil

Segundo pesquisa, a percepção de casos de violência de gênero nas escolas tende a cair entre mulheres acima de 55 anos de idade - Rovena Rosa/Agência Brasil
Segundo pesquisa, a percepção de casos de violência de gênero nas escolas tende a cair entre mulheres acima de 55 anos de idade
Por Bianca Bibiano

28/08/2026 | 11h17

São Paulo - Professoras acima dos 55 anos tendem a considerar normal a violência de gênero nas escolas, por terem vivido grande parte da trajetória profissional em contextos onde assédio e desigualdade eram frequentemente tolerados. Essas educadoras identificam situações concretas de desrespeito, mas muitas vezes não as reconhecem formalmente como violência de gênero.

Estas são algumas das conclusões da pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) divulgada este mês no contexto das campanhas de Agosto Lilás. O levantamento deixa claro quea percepção da violência de gênero nas escolas tende a diminuir com a idade.

Apesar de as professoras acima de 55 anos representarem o principal grupo etário de respondentes do levantamento, essa percepção é maior entre as mais jovens.  Na faixa etária de 24 a 34 anos, mais de 60% das mulheres disseram ter presenciado casos que possam ser caracterizados desse modo, enquanto 57,3% das mulheres de 35 a 44 anos tenham relatos semelhantes.

A taxa começa a cair a partir dos 55 anos, chegando a 21,2% entre mulheres acima de 75 anos. Considerando todas as faixas de idade e ambos os sexos, 43,9% dos profissionais da educação em SP tiveram conhecimento de episódios desse tipo.

Tipos de violência de gênero nas escolas

O estudo indica uma dissociação entre reconhecer o problema socialmente e identificar situações vividas como violência, o que sugere que os números da pesquisa possam subestimar a real incidência da violência de gênero no ambiente educacional paulista.

Em alguns casos, o ambiente escolar demonstra uma “naturalização silenciosa” dessas práticas, especialmente quando partem de colegas ou da própria gestão.

Entre as situações de violência de gênero mais relatadas pelos participantes estão:

  • Comentários desrespeitosos ou constrangedores.
  • Condutas que possam ser caracterizadas como assédio moral.
  • Situações de intimidação ou exposição indevida.
  • Tratamento desigual entre homens e mulheres.
    Situações de constrangimentos no ambiente de trabalho.
  • Condutas que possam ser caracterizadas como assédio sexual

O levantamento também demonstra que a realidade é mais preocupante na rede pública de ensino, na qual  46,2% dos entrevistados afirmam já ter presenciado situações de violência de gênero, contra 28,4% na rede privada.

Do total, 75,6% dos participantes da pesquisa são mulheres, refletindo a composição predominante da categoria e reforçando que a discussão sobre violência de gênero tem impacto direto sobre a maior parte dos profissionais da educação.

Violência digital se torna realidade entre professoras

Além das formas de violência identificadas no ambiente escolar, o CPP afirma que tem observado o crescimento de episódios de violência digital contra professoras. Entre os relatos recebidos pela entidade estão casos de:

  • Montagens ofensivas.
  • Disseminação de “figurinhas”.
  • Conteúdos  com teor humilhante em aplicativos de mensagens.
  • Uso de inteligência artificial para criar imagens e vídeos falsos de cunho sexual.

Para o presidente do CPP, Silvio dos Santos Martins, os dados mostram que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa incluir também o ambiente escolar. “A educação é uma profissão majoritariamente feminina e muitas dessas profissionais convivem diariamente com situações de desrespeito, constrangimento e assédio que acabam sendo tratadas como algo normal", pontua.

Hoje, essas agressões também ultrapassam os muros da escola e chegam ao ambiente digital, ampliando a exposição e os impactos sobre as vítimas. Essa naturalização precisa ser combatida. Garantir um ambiente escolar seguro e respeitoso também é uma forma de proteger as mulheres e fortalecer a educação.”

Fragilidade nos mecanismos de proteção

Os entrevistados avaliaram diferentes aspectos do ambiente escolar em uma escala de 1 a 5, analisando fatores como respeito entre homens e mulheres, respeito a mulheres em cargos de liderança, sensação de segurança, seriedade no tratamento dos casos e existência de canais de denúncia.

Os canais de denúncia e acolhimento receberam as piores avaliações entre todos os indicadores, especialmente entre profissionais que já vivenciaram situações de violência, indicando baixa confiança na capacidade das instituições em acolher e encaminhar os casos.

Segundo a advogada do CPP, Ana Carolina Soares, a legislação brasileira oferece instrumentos de proteção às mulheres, mas elas precisam ser acompanhadas de protocolos claros de prevenção, acolhimento e encaminhamento das denúncias.

Quando as profissionais não se sentem seguras para relatar essas situações, perde-se uma etapa fundamental para interromper esse ciclo e garantir um ambiente de trabalho mais seguro e respeitoso.”

Apesar desse cenário, há consenso sobre a necessidade de mudança. Segundo a pesquisa, 90,7% dos entrevistados defendem a ampliação de ações de prevenção e combate à violência de gênero no contexto educacional, demonstrando forte apoio à implementação de políticas permanentes de proteção, acolhimento e conscientização nas escolas.

Realizado em parceria com a WorkData, Inteligência e Análise, o estudo 'Violência de Gênero nas Escolas: percepção e realidade entre profissionais da educação paulista' ouviu 1.416 profissionais da educação, entre professores, gestores, funcionários escolares e aposentados das redes pública e privada do Estado de São Paulo. 

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