Rápido envelhecimento é desafio para sustentabilidade do SUS no novo governo
Foco principal do governo deve ser transformar a longevidade em anos vividos com saúde, autonomia e dignidade, defendem especialistas ouvidos pelo VIVA
Por Bianca Bibiano
28/10/2026 | 09h39Marcelo Camargo/Agência Brasil
Em 2030, o Brasil terá mais pessoas acima de 60 anos do que menores de 14, o que exigirá uma reavaliação dos serviços públicos de saúde para atender a uma população envelhecida. Essa mudança demográfica impõe desafios significativos aos novos gestores, que precisarão planejar para as demandas futuras.
Especialistas destacam a necessidade de fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e garantir sua sustentabilidade frente ao aumento da população idosa, além de abordar questões de financiamento e a falta de profissionais capacitados na área de geriatria.
Medidas propostas incluem a reforma curricular na formação médica, a promoção de saúde preventiva desde o nascimento e a superação das desigualdades regionais no atendimento. A próxima gestão deve focar em transformar o envelhecimento em uma conquista social, promovendo saúde e qualidade de vida para os idosos.
São Paulo - Caso as projeções se tornem realidade, em 2030, ano de conclusão das gestões federal e estaduais recém-eleitas, o Brasil terá um ponto de inflexão na população: haverá mais pessoas acima de 60 anos de idade do que menores de 14.
Para além de uma mera curiosidade estatística, esse fato representa uma ampla repercussão nos serviços públicos de saúde e obriga os eleitos a considerarem as medidas que vão tomar para enfrentar, ainda no presente, as demandas futuras de uma população cada vez mais longeva.
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Para especialistas nos temas do envelhecimento e da longevidade consultados pelo VIVA, um dos principais desafios nesse campo é garantir a sustentabilidade e a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) diante de uma população que envelhece rápido.
A isso soma-se a necessidade de ampliar o atendimento da rede pública e reformular a maneira como se entende a saúde preventiva ao longo da vida.
Confira a seguir os seis principais aspectos citados em relação a essas demandas:
1) Fortalecimento do SUS
Segundo os especialistas ouvidos, a preservação e o aprimoramento da rede pública de saúde são vistos como a base para qualquer política voltada à longevidade. O médico e gerontólogo Alexandre Kalache, colunista do VIVA e referência internacional no tema, aponta que a rede pública é um patrimônio a ser protegido pela nova administração.
O principal desafio da próxima gestão para a saúde pública no Brasil é a defesa e consolidação do SUS, que é o nosso maior marco civilizatório dos últimos 40 anos. [...] Foram feitos avanços, mas é indispensável que a gente cada vez mais consolide e financie o SUS como ele merece ser".
Alexandre Kalache, gerontólogo e colunista VIVA
A visão é compartilhada pelo médico geriatra Leonardo Oliva, atual presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Ele alerta que o sistema precisa estar preparado para o salto demográfico:
"O principal desafio da próxima gestão, sem dúvida, é garantir a sustentabilidade e a capacidade do Sistema Único de Saúde diante de uma população que envelhece e envelhece rápido, apresentando, dessa forma, necessidades assistenciais cada vez maiores e mais complexas", explica.
2) Entraves no financiamento
Contudo, a sustentabilidade do SUS passa, obrigatoriamente, por equacionar a forma como os recursos são distribuídos, observa o médico epidemiologista Rômulo Paes de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pesquisador da Fiocruz. Ele adverte que a fragmentação do orçamento por forças políticas locais e federais ameaça o planejamento de longo prazo.
"O segundo grande desafio é financiamento. Nós temos um problema crônico de financiamento que melhorou nessa gestão que está em curso, mas ao passo que melhorou, houve um agravamento do peso das emendas parlamentares sobre o orçamento da saúde", analisa.
Segundo o especialista, a prática de emendas "sequestra recursos que são voltados para o investimento em saúde", gerando um problema sério agravado pelo efeito cascata no sistema legislativo: "Agora também os estados têm emendas e os municípios começam também a criar emendas na mesma lógica das emendas do Senado e do Congresso, ou seja, um péssimo exemplo para a organização das finanças públicas."
3) Déficit de geriatras
Outro aspecto apontado como um dos gargalos mais urgentes é a falta de profissionais capacitados para atender às especificidades das pessoas idosas. Kalache aponta um verdadeiro "apagão" na formação médica brasileira voltada à gerontologia, estimando, a partir de dados da SBGG e do Conselho Federal de Medicina, um déficit de 30 mil geriatras no Brasil.
"Não estamos a formar médicos, nem tampouco outros profissionais que tenham destreza e conhecimento para lidar com a população idosa", alerta Kalache. O especialista propõe uma mudança estrutural no ensino:
"O desafio principal é fazer com que a gente tenha uma reforma curricular que necessita do Ministério de Educação e da Saúde, para que a gente possa dar um 'banho de gerontologia' em todos os estudantes que estão a ser treinados e também a nível de residência, os jovens médicos", diz.
4) Mudança no modo de enxergar o envelhecimento
Os especialistas defendem também que o poder público deixe de tratar o envelhecimento apenas pelo viés da doença. Nesse sentido, Oliva enfatiza a necessidade de superar o modelo assistencial focado no tratamento de episódios agudos e pensar em uma estratégia de prevenção e promoção de qualidade de vida.
"Precisamos deixar de avaliar o sucesso da nossa assistência, do acompanhamento em saúde, apenas pelo controle de doenças e considerar a capacidade funcional, a autonomia, a qualidade de vida, a capacidade de participação social dos idosos. É um conceito que vai além do tratamento de doenças", defende o presidente da SBGG.
A gente precisa entender que o envelhecimento da população não deve ser tratado como um problema e sim como uma conquista social, mas é uma conquista que exige planejamento. O verdadeiro desafio da próxima gestão será transformar a longevidade em anos vividos com saúde, autonomia e dignidade."
Leonardo Oliva, presidente da SBGG
Na mesma linha, Alexandre Kalache complementa apontando a classe médica muitas vezes atende o idoso de forma pontual e desconectada de seu contexto de vida:
"A gente tem que ter uma visão da saúde mais ampla, não é só no contexto daqueles breves momentos em que você está a ser atendido [...] Você querer tratar um episódio crônico como se ele fosse agudo é um dos desafios que a gente tem na mentalidade dos nossos profissionais da saúde."
5) Prevenção no ciclo de vida
Para não sobrecarregar o sistema no futuro, a próxima gestão precisará pensar na saúde das pessoas idosas muito antes de o cidadão completar 60 anos, defende Rômulo Paes de Sousa. "A questão para enfrentar esses problemas, essas demandas, ela primeira questão é: esse cuidado começa desde o nascimento", pontua, e complementa: "Ou seja, é preciso que nós adotemos um comportamento saudável para que nós tenhamos uma velhice mais tranquila".
Tudo depende desses processos cumulativos que nós vamos ter ao longo da vida para que nós cheguemos aos 60 anos mais saudáveis. Se for assim, o peso dessa população mais envelhecida sobre os sistemas de saúde e sobre a própria dinâmica social não será tão grande, mas depende de como se chega, portanto, nesse momento. O cuidado com a prevenção acontece o tempo todo."
Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco
Leonardo Oliva complementa dizendo que as frentes práticas dessa prevenção exigirão campanhas e acesso facilitado:
"Para que tudo isso dê certo, um ponto fundamental é prevenção. O Brasil também precisa investir em vacinação, em estímulo à atividade física regular, a orientação e fornecimento, né, e capacidade de que a população receba ou se beneficie de uma alimentação adequada e saudável."
6) Desigualdade territorial e vazios assistenciais
Paes de Sousa destaca que a capacidade de atendimento varia drasticamente de uma cidade para outra e que o Brasil esbarra em sua própria geografia e nas profundas diferenças socioeconômicas regionais na hora de cuidar dos seus idosos.
"É um problema estrutural da desigualdade [...]. Algumas municípios, sobretudo as capitais e as grandes cidades, concentram muita capacidade instalada, enquanto que outros municípios têm uma situação muito desfavorável", avalia o presidente da Abrasco.
Ele ressalta que, embora a atenção primária tenha alcançado boa capilaridade, a rede especializada e o suporte logístico ainda deixam a desejar, prejudicando idosos com dificuldades de mobilidade. "Mesmo assim, nós temos vazios de atenção, principalmente no atendimento especializado", finaliza.
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