Envelhecimento impulsiona mercado de cannabis, diz cônsul do Uruguai
Emanuele Almeida/VIVA
São Paulo - O envelhecimento da população é um dos principais fatores que
impulsionam o mercado de cannabis do Uruguai e do Brasil, de acordo com a cônsul-geral do Uruguai, Maria Noel Reyes durante coletiva de imprensa para divulgação do evento ExpoCannabis Brasil 2026, nesta quarta-feira, 22.
"É um mercado em constante expansão devido também ao envelhecimento populacional", apontou a Reyes, que revelou que ela mesma observa os efeitos benéficos do medicamento à base da flor da planta no tratamento de sua mãe.
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A representante do Uruguai no Brasil apontou que, em 2025, foram produzidas 28,2 toneladas de cannabis medicinal, 24,3 toneladas de cannabis industrial (não psicoativa) e 3,9 toneladas de cannabis psicoativa para o mercado regulado do país.
O setor expandiu também as oportunidades dentro do mercado de trabalho. Reyes afirma que o setor gera mais de 700 empregos diretos e centenas de indiretos, além de ter mais de 120 mil pessoas registradas para aquisição legal no país.
Em complemento, Reyes reforçou a experiência do Uruguai dentro do setor e como o país pode ser referência e parceiro do Brasil frente às novas regulamentações aprovadas pela Anvisa, que devem começar a valer em 4 de agosto. De acordo com o prazo estabelecido, as diretrizes expandem as oportunidades de plantio dentro do território brasileiro.
Frente aos dados do setor no Brasil, a perspectiva é positiva para o mercado de cannabis a médio e longo prazo. Durante o evento, o CEO e cofundador da Kaya Mind, Thiago Cardoso, empresa focada em dados do mercado de cannabis trouxe dados que mostram esse cenário:
Financeiramente, o setor privado, que engloba importações, farmácias e associações, tem projeção de alcançar R$ 1bilhão em vendas neste ano, somado a cerca de R$ 100 milhões anuais em compras públicas movimentadas pelo SUS", elencou.
Ele adiciona que, em 2025, o País atingiu o marco histórico de mais de 1 milhão de pacientes em tratamento, possuindo um potencial estimado de chegar a 6,9 milhões de pessoas. Cardoso destacou também que, até 2025, foram registrados mais de 850 mil frascos comercializados. "O mercado está equilibrado entre medicamentos importados e produtos de farmácia nacionais", adicionou.
Hoje, o Uruguai ainda é a referência no mercado de cannabis na América Latina. O país regulamentou todo o setor ainda 2013, tomando a dianteira jurídica e de produção que, hoje, resulta em mais de 10 anos de experiência de uso individual e medicinal, assim como na fabricação industrial de produtos à base da planta.
O contexto atual é onde o Brasil oferece escala e o Uruguai oferece experiência", diz Reyes.
'Cannabis é para os velhos'
A CEO da ExpoCannabis Brasil, Larissa Uchida, reforça que a cannabis "é para os velhos", principalmente levando em conta o aumento de comorbidades, entre elas as neurológicas e psicológicas. "É uma opção muito viável, principalmente quando lembramos do acúmulo de medicamentos consumidos por esse grupo conforme o envelhecimento avança", aponta.
A confundadora da Latinnabis e da ExpoCannabis, Mercedes Ponce de León, reforça que, hoje, o Uruguai é um país que tem a população acima dos 50 anos como maioria. "Somos o que se pode dizer um país de velhos e a cannabis pode ser vista como uma planta para os velhos, quando falamos sobre sobre o uso medicinal", observa.
As duas lideram a parceria entre os países na realização do ExpoCannabis Brasil, evento voltado para a educação, inovação e estruturação mercadológica do setor de cannabis no País, que acontece entre os dias 20 e 22 de novembro, no São Paulo Expo.
Além disso, León pontua que os dados recentes do mercado de cannabis no Uruguai contrariam a expectativa e o preconceito de um aumento do consumo entre os jovens e a redução do uso pelo público mais velho." Os dados mostram que, com a liberação do produto, a idade média para o primeiro contato com a cannabis subiu de 18 para 20 anos, assim como vimos uma expansão do uso do produto pelo público adulto e idoso", aponta.
Ela atribui esses resultados ao maior acesso à informação sobre os efeitos dos componentes da planta no corpo tanto pelos pacientes/usuários quanto pelos profissionais da saúde e governo.
Receituário e acesso ainda são desafios
No Brasil, um dos pontos de destaque da nova regulamentação é a revisão da legislação vigente (RDC 327), permitindo a simplificação da prescrição e o acesso aos produtos. Para aqueles que contêm abaixo de 0,2% de THC, será exigido receita de controle especial. Já acima dessa porcentagem será necessário ter notificação de receita tipo A, com prescrição por médicos e cirugiões dentistas.
Diante desse contexto, um dos principais desafios é a educação dos profissionais da saúde para compreenderem os efeitos benéficos do cannabidiol para o paciente e como é a melhor forma de receitá-lo dentro de uma rotina medicamentosa.
Durante a discussão, o CEO Kaya Mind, Thiago Cardoso, analisou que a capacitação de médicos do atendimento primário, principalmente em Unidades Básicas de Saúde, é um dos principais gargalos para o avanço das estratégias relacionadas à expansão e comercialização de produtos medicinais à base de cannabis.
No Brasil, menos de 10 mil médicos prescrevem medicamentos à base de cannabidiol dentro de um contexto mais de 600 mil médicos atuantes no País."
Ele complementa dizendo que antes não se ensinava sobre o sistema endocanabinoide - rede de sinalização celular essencial para manter o equilíbrio interno do corpo, onde os elementos do cannabidiol agem - na faculdade de Medicina de décadas atrás. "Então, aquele médico que atua há mais de 30 anos em regiões periféricas, por exemplo, ainda não teve acesso e não sabe como receitar ou se quer receitar", reforça Cardoso.
Tem cannabidiol no SUS?
Outro ponto destacado no evento foi a falta entendimento da população sobre o obtenção gratuita de medicamentos à base de cannabidiol. Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza medicamentos à base de canabidiol (CBD). Porém, essa oferta não é padronizada em todo o País pela lista oficial federal (RENAME), sendo assim, o acesso é garantido através de leis estaduais e municipais.
Os especialistas apontam que essa provisão descentralizada é um desafio em um País continental como o Brasil - fator que contribui para que, em muitos casos, o fornecimento ocorra apenas por via judicial.
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