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‘IA permite que médico seja médico novamente', diz CEO da Carecode

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IA já está presente em 32% das instituições de saúde brasileiras, mostra pesquisa - Adobe Stock
IA já está presente em 32% das instituições de saúde brasileiras, mostra pesquisa
Por Emanuele Almeida

24/03/2026 | 12h48

São Paulo - A inteligência artificial (IA) na saúde tem avançado a passos largos, dividindo opiniões e redefinindo dinâmicas em clínicas e hospitais do Brasil. A chegada de soluções focadas em resolver gargalos administrativos dialoga diretamente com o momento de transição do setor médico no País. Segundo dados da Doctoralia, o uso da IA já está presente em 32% das instituições de saúde brasileiras, e é o objetivo futuro de outras 40%. 

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Além disso, 38% dos profissionais acreditam que a automação com IA será a maior tendência na saúde para 2026. Uma das empresas que se projeta na transformação do mercado é a Carecode, idealizada por Thomaz Srougi, fundador do Dr. Consulta, em conjunto com Pedro Magalhães.

A startup, que atua como um call center com agentes de inteligência artificial para o atendimento a clientes de empresas de saúde, realiza tarefas de forma automática via WhatsApp — como agendamentos, check-ins e cobranças —, fugindo do modelo tradicional para se posicionar como uma empresa tech que coloca o serviço em primeiro lugar.

A companhia iniciou suas operações no mercado privado amparada por um aporte inicial de US$ 4,3 milhões, liderado pelos fundos Andreessen Horowitze QED Investors, e declarou um investimento de R$ 15 milhões em pesquisa e desenvolvimento de sua plataforma. 

Nos seus primeiros seis meses de operação, a empresa registrou 30 clientes e processou cerca de 700 mil mensagens. Srougi projeta que a operação tem um potencial de crescimento de oito vezes com a base atual de clientes. "Com mais clientes, o crescimento será maior, mas é dificil prever neste momento", estima o empresário. Hoje, a Carecode atende clientes da rede privada desde consultórios individuais (1 médico) até redes de clínicas e hospitais.

Modelo de cobrança ainda pode gerar dúvidas

A Carecode foge do modelo atual de empresas de tecnologia, o Software as a Service (SaaS) que baseia-se em pagamentos recorrentes — mensais ou anuais — para acesso a softwares baseados na nuvem. A empresa atua no formato "Service as a software", sendo assim, a cobrança é feita por interação com a plataforma de IA. 

Leia também: IA vai dar diagnóstico? Entenda a nova resolução do CFM

Contudo, a preocupação com os custos gerados por ferramentas de IA é uma das maiores preocupações de instituições de saúde. A pesquisa realizada pela Doctoralia aponta que o custo elevado das soluções de IA é apontado por 44% dos entrevistados como a principal barreira ou limitador para a adoção. Sendo assim, com a aplicação de uma cobrança por interação, a volatilidade dos custos e dificuldade de prever uma estratégia financeira para o investimento pode ser preocupante

Thomaz é um homem branco e magro com cabelos grisalhos que sorri para a foto
Thomaz também é fundador do Dr. Consulta,, é uma rede de centros médicos que oferece consultas médicas, exames e serviços de saúde. Reprodução

Frente a isso, Srougi destaca que, embora o modelo variável gere essa dúvida inicial, a tendência é que as clínicas comecem a migrar naturalmente para ele. Segundo o executivo, os gestores podem acabar percebendo que, se a ferramenta está gerando muitas conversas e aumentando a fatura, é porque mais pacientes estão entrando e a receita da clínica também está crescendo, o que faz a cobrança valer a pena. 

Ele exemplifica a atuação da IA da Carecode na rede Hospital Care. A aplicação da ferramenta demonstrou capacidade de lidar com pacientes em situação de vulnerabilidade clínica, gerando aumentos em eficiência e faturamento. Após a implementação da tecnologia, a taxa de resolutividade da inteligência artificial — ou seja, chamados resolvidos de ponta a ponta sem a necessidade de um atendente humano — saltou de 30% para 77,7%.

A rede também registrou um crescimento de 60% na conversão para consultas (que passou de 33% para 52,8%) e um aumento de 312% na conversão para exames de ressonância magnética, métrica que subiu de 8% para 32,6%. "Gostamos deste caso porque demonstra como Carecode performa bem com pacientes em situação de alta vulnerabilidade clínica, em ambientes com alta complexidade clinica", explica Srougi. 

IA na administração, não no diagnóstico 

Embora a automação esteja em alta, o mercado ainda separa muito bem as funções administrativas da atuação clínica. As instituições estão aplicando a IA massivamente em agendamentos de consultas (40%), enquanto apenas 9% a aplicam em diagnósticos.

Essa divisão reflete não apenas limitações técnicas, mas também regulatórias. Uma recente resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) determinou que a soberania é sempre do médico, sendo a IA apenas uma ferramenta de apoio, vedando a delegação de diagnósticos à máquina. 

Leia também: Pessoas 60+ não confiam em IA na saúde e sim em médicos, diz pesquisa

Os próprios modelos de linguagem ainda esbarram na complexidade humana: um estudo da Nature Medicine revelou que IAs acertam 95% dos cenários médicos na teoria, mas quando colocadas para conversar com pacientes reais para identificar sintomas, a taxa de acerto despenca para menos de 35% devido à falta de informações completas passadas pelos usuários durante a dinâmica. 

A desconfiança também é um fator cultural, sobretudo entre o público 60+, em que a maioria (56%) ainda prefere marcar a consulta diretamente com o médico de confiança em vez de usar tecnologias.

Para Srougi, essa divisão de tarefas entre o que a máquina e o ser humano devem fazer não é um problema, mas sim a grande solução do setor. "Se a IA vai substituir o médico, eu não acredito", crava o executivo.

Ele avalia que o verdadeiro potencial da IA é turbinar a produtividade das equipes, tirando as funções burocráticas dos ombros dos profissionais de saúde, que hoje gastam metade de seu tempo apenas com tarefas administrativas e cobranças de planos.

O papel da inteligência artificial permite que o médico consiga ser médico novamente. Toda essa parte administrativa exigida pelo plano de saúde pode ser feita pela IA."

O fundador da Carecode enxerga o mesmo processo de transformação para o setor de atendimento e recepção. Ele explica que a IA não tem o objetivo de eliminar postos de trabalho nas clínicas, mas sim de requalificar funções. Contudo, um estudo feito pela Microsoft em 2025 ainda aponta que cargos administrativos, como recepcionista, são um dos mais ameaçados pela inteligência artificial no contexto atual do mercado de trabalho. 

Srougi reforça que, em vez de passar o dia preenchendo formulários repetitivos para planos de saúde e respondendo a dezenas de mensagens simultâneas que causam burnout, o recepcionista poderá assumir o papel de controlador tecnológico da recepção. Esse novo contexto, segundo ele, fará com que esses profissionais ganhem tempo para realizar o acolhimento humano, conversar com os pacientes na sala de espera e oferecer um suporte verdadeiro à equipe médica. 

Leia também: IA acerta 95% na teoria mas erra com pacientes reais, mostra estudo

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