Mary Del Priore
Colunista VIVA
08/09/2026 | 10h46
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Historiadora e doutora pela FFLCH/USP, pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, é autora de mais de 50 livros de História do Brasil, premiada no Brasil e exterior.
Velhice negra e o respeito à transmissão de conhecimentos da cabeça branca
Envato
São Paulo - Em encontro recente, no MaturiFest, conheci Lenny Blue de Oliveira: preta de cabeça branca e autora de "Idosidade: Crônicas de uma Mulher Negra Para Inspirar Tâmaras" (Editora Matrioska, 2024). Mãe, avó, advogada e militante feminista, Lenny tem um papel importantíssimo como protagonista das lutas na Comissão da Verdade sobre a Escravidão negra no Brasil e é autora de um belo projeto sobre a “velhice negra”.
Extremamente bem-humorada, sorridente e elegante, Lenny é capaz de frases terríveis: “Sou velha, invisível, sem desejos e vontade, dizem até que sou descartável”.
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Seu livro foca na desigualdade e nos problemas que o segmento enfrenta. Mas sua percepção do envelhecimento cabe como uma luva em qualquer uma de nós. Clarisse e Lygia* também criaram personagens cujo sentimento de abandono e fragilidade são igualmente tocantes. Ou chocantes.
Um olhar africano sobre a velhice
As crônicas de "Idosidade" revelam o universo de negras, vítimas de racismo e pobreza. E me fizeram pensar na nossa História. Entre quatro milhões de escravizados que cruzaram o Atlântico rumo ao Brasil, mulheres e homens adaptaram valores, crenças e práticas para sobreviver. Formaram famílias que nem sempre vinham das mesmas regiões ou culturas. Mas a vida seguiu. E muitos envelheceram juntos, no campo e nas cidades.
Com eles veio também uma maneira africana de olhar a velhice. Ser velho, explicou o antropólogo Louis-Vincent Thomas, era um dom dos deuses. A longevidade indicava que a pessoa vivera de acordo com as leis dos ancestrais. Por isso, quanto mais velho, maior a dignidade. Na praça de muitos vilarejos africanos, onde eram tomadas decisões importantes, havia lugares reservados aos chefes e anciãos.
Mulheres, sobretudo, ganhavam importância com a idade. Mães de grande prole, responsáveis por “ressuscitar os ancestrais” nos filhos, adquiriam prerrogativas e podiam interferir nas questões da comunidade.
Nas Áfricas, o velho e a velha não são expressões pejorativas. Eram 'os grandes', 'as grandes pessoas', 'a cabeça branca', o Pai ou a Mãe de um grupo."
A idade nunca significou afastamento. Dispensados dos trabalhos mais pesados, os idosos continuavam úteis na cestaria, tecelagem, olaria, preparação de remédios ou vigilância do fogo. Podiam ser curandeiros, juízes, sacerdotes, intérpretes de sonhos e poetas. As mulheres monopolizavam conhecimentos ligados aos partos, à fecundidade, às ervas e à alimentação.
E havia os netos. As relações entre avós e netos eram sólidas. Aos mais velhos cabia transmitir conhecimentos dos quais eram considerados guardiães. Sua experiência assegurava a continuidade da comunidade. Os muito idosos já eram vistos quase como ancestrais, homens e mulheres que em breve se reuniriam aos mortos.
Velhos nas senzalas
O que aconteceu com esse patrimônio cultural quando seus portadores foram transformados em escravos? Apesar da violência do cativeiro, parte dele sobreviveu.
O antropólogo Arthur Ramos encontrou no folclore brasileiro a figura de Pai João e da Mãe Maria, negros muito velhos dos engenhos, de cabelos brancos e voz trêmula, transmissores de histórias e cantigas. Nele se reuniam personagens diferentes: guardiões das tradições africanas, conhecedores das crônicas da família, às vezes até a lembrança de reis e príncipes destronados.
Mas haveria realmente lugar para velhos nas senzalas? Havia. Pesquisas sobre a família escrava demonstraram que pais, filhos, avós e netos podiam conviver durante anos nas mesmas propriedades.
No norte fluminense, os historiadores Manolo Florentino e José Roberto Góes encontraram três e até quatro gerações vivendo nas fazendas. Sete entre dez crianças conviviam com os pais e, possivelmente, com algum dos avós. Joaquim Nabuco, Pedro Calmon e José Lins do Rego, entre outros, os homenagearam em suas memórias.
Envelhecer no lugar onde se havia constituído família significava, portanto, adquirir um estatuto diferente. O velho conhecia as pessoas, as regras, as histórias e os segredos do trabalho."
Era portador de uma memória que interessava aos demais. Não por acaso, em kimbundo, senzala quer dizer povoado.
Nada disso torna a escravidão mais branda. Relações de proximidade não eram relações entre iguais. A família escrava não nasceu da bondade dos proprietários, mas da capacidade dos próprios cativos de reconstruir laços, preservar tradições e criar espaços de vida dentro do cativeiro.
Nas senzalas e mocambos, avôs mostravam aos netos como preparar armadilhas, pescar, enxertar plantas e reconhecer ervas. Contavam histórias africanas de tartarugas, coelhos e aranhas nas quais a inteligência derrotava a força. Ensinavam jogos, provérbios, músicas e cantigas.
Em Minas Gerais, os vissungos, cantos de trabalho alguns deles de caráter religioso, passavam dos mais velhos aos mais jovens.
E as avós? Elas guardavam outros saberes. Conheciam os alimentos, os temperos, as ervas, os banhos e as defumações. Dominavam segredos culinários que atravessaram séculos e ajudaram a formar a cozinha brasileira.
Amas idosas cuidavam das crianças, acompanhavam meninas e moças e acabavam conhecendo seus medos, amores e segredos. Gilberto Freyre lembrava que foram elas que amoleceram palavras para colocá-las na boca dos pequenos: cacá, pipi, papato e tantas outras.
Mas talvez nenhum documento diga tanto quanto a carta escrita, em 1866, pela escrava Teodora ao filho Inocêncio. Depois de pedir notícias, despedia-se: “boto minha benção. Deus te abençoe por muito tempo, te dê saúde”. E assinava como aquilo que nenhuma escravidão conseguira apagar: “sou tua mãe que te adora”. Quem sabe não foi avó, também?
Entre violências, perdas e separações, velhos e velhas afro-brasileiros fizeram mais do que envelhecer. Guardaram histórias, transmitiram conhecimentos, protegeram crianças, mediaram conflitos, preservaram sabores, palavras e crenças. Eram bibliotecas vivas num mundo em que quase tudo lhes podia ser arrancado."
Talvez por isso a cabeça branca fosse tão respeitada. Nela não estava apenas a idade. Estava a memória. E é dela, também, que Lenny Blue tira sua força para dizer “com coragem, ânimo e fé e de pé mais uma vez, atenta à luta das demandas da mulher preta idosa, _ Salve o Tempo!”. E eu digo, Salve, querida Lenny! Na sua cabeça branca, o tempo não pesa: ele fala. Ele ensina.
*Menção a Clarisse Lispector e Lygia Fagundes Telles
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