Médico explica como alta exposição a cloro de piscina pode afetar o organismo
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11/02/2026 | 08h34
São Paulo, 11/02/2026 - No último sábado, seis pessoas sofreram intoxicação por cloro de piscina e uma morreu em uma academia de São Paulo após praticar natação. Os alunos relataram um forte cheiro químico na água, seguido de sintomas como queimação nos olhos e episódios de vômito.
A academia foi interditada e a polícia investiga se houve erro na dosagem ou uso de produtos químicos irregulares na piscina, já que uma hipótese inicial sugere que a mistura de substâncias liberou um gás tóxico, causando asfixia, queimaduras nas vias aéreas e bolhas nos pulmões das vítimas.
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Para entender esses riscos, o VIVA conversou com o médico Natan Chehter, clínico geral e docente do curso de Medicina da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Ele explicou que o problema da exposição ao gás cloro é que ele gera a produção de ácidos no pulmão, como ácido clorídico, ácido hipoclorídrico e outros, causando uma reação direta no organismo.
Isso faz com que a pessoa tenha irritação das vias aéreas, falta de ar, muitas vezes até broncoespasmo, que é aquele chiado no peito, enfim, problemas para respirar em decorrência da irritação das vias aéreas."
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O médico explica que nem todos os casos de exposição evoluem da mesma forma e isso tem a ver com o tempo de exposição e com condições individuais, além da concentração do cloro no ambiente, que deveria ser sempre ventilado.
"Há casos leves, em que a irritação é simples, o olho coça, a pessoa espirra, tosse, tem algum desconforto mais leve, mas há situações mais graves, em que a pessoa realmente sente falta de ar muito séria, dificuldades de fato para respirar. São casos que exigem internação em hospital e tratamento em ambiente de urgência e, muitas vezes, de terapias intensivas."
Além disso, explica queexistem pessoas que são mais suscetíveis à intoxicação pelo cloro, incluindo pessoas 60+.
Pessoas que já têm comorbidades ou doenças pulmonares, um pulmão mais prejudicado ou fragilidade por outros motivos de saúde, sempre têm mais risco de ter quadros graves e é mais perigoso para esses casos. Idosos, crianças, pessoas com alguma doença, se forem expostos a maior concentração de cloro, podem ter quadros mais sérios e complicados."
Andamento do caso
Na manhã desta terça-feira, 10, o manobrista investigado por ter aplicado o produto, Severino José da Silva, prestou depoimento no 42º Distrito Policial, no Parque São Lucas, na capital de São Paulo, que conduz o caso.
No documento obtido pelo VIVA, ele conta que foi contratado formalmente como manobrista, mas que realizava a manutenção das piscinas sem possuir qualquer habilitação técnica, cumprindo ordens diretas do proprietário da unidade.
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De acordo Silva, a rotina de limpeza era improvisada: ele media os níveis de cloro e água, enviava fotos dos testes para o patrão via mensagens de WhatsApp e recebia instruções sobre quais produtos e quantidades aplicar. Silva revelou que um técnico profissional chegou a prestar serviço no local por uma semana e ofereceu manutenção permanente após problemas anteriores na água, mas o proprietário optou por não contratá-lo.
Ele lembra que, no dia do acidente, mesmo com a água turva e a presença de alunos na piscina, o proprietário teria ordenado a aplicação imediata de cloro, mas que ele não chegou a aplicar o produto diretamente na piscina. O homem afirma que preparou uma solução com seis medidas do produto em um balde e, em seguida, deixou o recipiente próximo ao acesso do trocador infantil, a cerca de dois metros da borda da piscina grande, e voltou ao posto de manobrista.
Cerca de dez minutos depois, um forte odor de cloro tomou conta do ambiente. Segundo o depoimento, o SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados, mas não compareceram ao local, e os feridos tiveram que ser socorridos por meios próprios.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o caso é investigado pelo 42º Distrito Policial (Parque São Lucas). "Até o momento, a Polícia Civil foi notificada sobre seis vítimas, sendo uma fatal. A autoridade policial determinou a oitiva de funcionários e responsáveis pelo estabelecimento e realiza outras diligências para o completo esclarecimento dos fatos. Laudos periciais estão em fase de elaboração e serão analisados assim que concluídos", disse o órgão em nota.
A secretaria afirma ainda que o estabelecimento possui Certificado de Licença do Corpo de Bombeiros (CLCB) vigente, emitido para a ocupação classificada como educacional e cultura física, conforme a legislação estadual de segurança contra incêndio. "Ressalta-se que o certificado atesta exclusivamente as condições de segurança contra incêndio da edificação", conclui a nota.
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