Menopausa chega mais cedo e afeta mais a vida de mulheres negras no Brasil
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São Paulo, 04/02/2026 - Fogachos, vermelhidão, suores, cansaço, estresse e irritabilidade são alguns dos diversos sintomas da menopausa. Um levantamento divulgado na terça-feira, 3, pelo Instituto Esfera aponta que 29 milhões de brasileiras estejam, atualmente, em fase climatérica ou pós-menopausa, número que que tenderá a crescer nas próximas décadas impactando a saúde física e mental, além da produtividade desse grupo.
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A tendência de crescimento de pessoas que estarão em algum dos estágios da menopausa surge do aumento da idade média das mulheres brasileiras (35 anos) de acordo com o Censo 2022 e, sobretudo, do crescimento do grupo de pessoas de 65 anos ou mais (57,4%).
Menopausa mais cedo
Outra tendência apontada pelo estudo é a ocorrência da menopausa em idades inferiores à média de países de alta renda. A média internacional varia entre 49 e 52 anos, enquanto a idade mediana brasileira pode-se encontrar entre 46,5 anos, de acordo com estudo feito na região metropolitana de Campinas (SP).
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A prevalência de sintomas climatéricos desse período atingem quase 89% das mulheres brasileiras em alguma fase na menopausa. Os relatos mais frequentes envolvem ondas de calor ou fogachos (77,4%) e sintomas vasomotores (55,6%).
Os sintomas psicológicos também se apresentam com frequência. A depressão decorrente da menopausa variam nas regiões brasileiras. No Centro-Oeste e Nordeste, por exemplo, há uma maior prevalência de sintomas depressivos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019).
Mulheres negras sofrem mais
A falta de acesso a tratamentos para os sintomas apresenta diferença social e racial. Mulheres negras são mais impactadas, segundo o estudo: em geral, essa parcela da população feminina têm menor escolaridade e renda, frequentemente atuam em empregos manuais e têm menor flexibilidade e autonomia de horário.
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Pnaism) reconhece que as mulheres negras concentram maiores vulnerabilidades socioeconômicas e frequentemente atuam em ocupações manuais ou fisicamente exigentes.
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Por terem menor autonomia sobre suas condições e horários de trabalho, elas encontram possibilidades muito mais reduzidas para manejar os sintomas quando eles ocorrem, o que eleva drasticamente o risco de afastamento ou abandono do emprego.
A pesquisa retoma dados da PNAD Contínua 2022 que demonstram que mulheres negras apresentam uma renda média inferior em praticamente todos os grupos ocupacionais. Essa diferença aumenta quando comparada com a faixa-etária das pessoas na menopausa e interfere diretamente na continuidade do trabalho e pedidos de aposentadoria por invalidez.
Queda na produtividade
De acordo com o levantamento, a menopausa sem assistência afeta severamente a economia, pois incide sobre o auge da capacidade profissional dessas mulheres. Isso porque, das mulheres brasileiras em fase climatérica, 63% são economicamente ativas. Além disso, entre 33% e 45% delas são as principais responsáveis pela renda de suas famílias.
Nesse contexto, quase metade das brasileiras na menopausa aponta que o período tem impactos negativos no trabalho, com uma redução na produtividade relatada por 26% das brasileiras. Outras estimativas apresentadas no estudo projetam que cerca de 1,9 milhão de trabalhadoras brasileiras percam dias de trabalho anualmente por conta desses sintomas.
O impacto direto da perda de produtividade por absenteísmo (saídas antecipadas do trabalho) pode ultrapassar a marca de R$ 2 bilhões por ano – sem sequer contabilizar o presenteísmo (trabalhar sem a capacidade plena).
Para além disso, o ambiente corporativo se mostra amplamente hostil ou indiferente ao tema. O estudo aponta que 80% acreditam não receber apoio adequado profissionalmente, e 49% enfrentam barreiras na sua progressão de carreira e no reconhecimento profissional devido à condição.
Falta de políticas públicas
O estudo alerta que a menopausa é uma das maiores lacunas de políticas públicas em saúde feminina no Brasil. Isso porque, embora a Constituição Federal e tratados internacionais ofereçam uma base para a inclusão da menopausa nas políticas de saúde, a efetivação de tal ação permanece estagnada - mesmo com apenas 22,4% das 29 milhões de brasileiras em menopausa tendo acesso a algum tratamento para os sintomas.
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A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Pnaism) formalmente reconhece o climatério, mas não apresenta diagnóstico epidemiológico específico, indicadores de monitoramento, metas mensuráveis ou uma linha de cuidado estruturada.
Até mesmo o Sistema Único de Saúde ainda não possui diretrizes específicas e estratégias de monitoramento ou protocolos de tratamentos para a menopausa.
O que o estudo propõe
Para solucionar esse problema regulatório, o estudo propõe uma série de recomendações ao poder público:
- Criação de uma Política Nacional: adoção de uma estratégia combinada que una uma lei estruturante, uma portaria regulamentadora do Ministério da Saúde e a inclusão da política no Plano Plurianual (PPA) para garantir orçamento previsível;
- Protocolos Clínicos (PCDT): incorporação de protocolos específicos para o climatério no SUS, garantindo o acesso universal à Terapia Hormonal da Menopausa (THM);
- Dados e monitoramento: instituição de um registro nacional da menopausa para coleta de dados clínicos e sociodemográficos, além de incluir um módulo específico sobre o tema na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), produzindo dados desagregados por raça, renda e região;
- Capacitação profissional: inclusão obrigatória do climatério como eixo transversal nos currículos de graduação da área da saúde e promover a capacitação continuada de profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) para possibilitar diagnósticos precoces e manejo sistêmico.
- Articulação intersetorial: integração das áreas de saúde, trabalho, previdência e políticas para mulheres, adequando a resposta do Estado ao envelhecimento populacional brasileiro.
Sobre o estudo
A metodologia do levantamento baseia-se na análise de dados públicos. Para estruturar a pesquisa, foram realizadas projeções demográficas utilizando microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019) e do Censo IBGE 2022, aplicando parâmetros econômicos internacionais de forma conservadora à realidade brasileira para estimar os custos financeiros da menopausa.
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