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'Nunca é tarde', diz aposentada que começou a tocar violino aos 66 anos

Acervo pessoal/Lucia Warizaya

Apesar do sonho de infância, Lucia Warizaya só começou as aulas de violino após os 60 - Acervo pessoal/Lucia Warizaya
Apesar do sonho de infância, Lucia Warizaya só começou as aulas de violino após os 60
Por Bianca Bibiano

14/05/2026 | 08h00

São Paulo - Quando era menina, a aposentada Lucia Warizaya se escondia entre as cercas para ouvir um viajante que se hospedava aos domingos na casa ao lado e tocava no violino a valsa 'Branca', de Zequinha de Abreu. "Eu não era convidada para assistir de perto. Então eu ficava pensando: 'Um dia ainda vou ter um instrumento desse. Um dia ainda vou tocar como ele'."

O sonho atravessou a infância e hoje, aos 70 anos, a moradora de Viradouro (SP) se orgulha de conseguir tocar justamente a música que a encantava naquela época. "Era uma valsa que eu ouvia nas rádios e me dava aquela sensação de prazer."

Apesar de ter carregado a vontade de aprender violino ao longo da vida inteira, a realização só começou aos 66, enquanto ela enfrentava um tratamento contra um câncer de mama. Fragilizada pelas sessões de quimioterapia, Lucia encontrou no instrumento musical uma maneira de deslocar o pensamento para além da doença.

Um amigo saxofonista falou para mim: 'Aquele teu sonho de estudar violino, por que que você não começa agora? Aí você vai mudar teu foco, não ficar pensando na doença e você vai driblá-la com isso. Você vai poder mudar seu destino tocando violino'. A ideia ficou plantada e entre a quimioterapia e radioterapia, entre tudo o que estava acontecendo comigo, eu não mudei o foco. Eu pensava: 'Eu vou sarar e vou tocar o violino'.

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Após um tempo, ela conseguiu comprar o instrumento em uma cidade vizinha, mas, sem professores disponíveis por perto, encontrou na internet as primeiras aulas e passou a estudar em casa online.

A aposentada descreve o violino como algo que ultrapassa a música. Conta que o aprendizado ajudou não apenas durante o tratamento do câncer, mas também em outros momentos difíceis que vieram depois, como a perda de sua mãe e de um irmão, uma separação conjugal e os desafios da rotina ao lado do filho com deficiência.

"O violino é um remédio antidepressivo. Ele é antiestresse e dá calma", pondera, e afirma que o estudo constante da música mudou até a forma como enfrentou situações emocionalmente difíceis.

Eu mesma me surpreendi com a calma que eu tive para resolver tudo. Eu não tive desespero. Eu tive ponderação. Eu tive paciência e, sobretudo, coragem de perdoar."

Benefícios da música para a saúde

A relação entre música e saúde não é nova, mas ganhou respaldo científico mais sólido nos últimos anos. Em relatório publicado em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu resultados de mais de três mil estudos e concluiu que as artes têm papel relevante na promoção da saúde, na prevenção de agravos e no manejo de doenças ao longo da vida, inclusive em questões ligadas à saúde mental.

Outra pesquisa, publicada em 2023 por pesquisadores coreanos, mostrou que escutar entre 30 e 60 minutos de música pode reduzir dor e ansiedade em pacientes cirúrgicos, além de melhorar respostas fisiológicas como pressão arterial e frequência cardíaca.

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Ao mesmo tempo, instrumentos musicais antes associados apenas à formação infantil ou ao ensino clássico passaram a ocupar outro espaço na vida adulta. O violino é um desses casos. Mais do que técnica musical, ele aparece como alternativa para quem busca concentração, disciplina e momentos de pausa em uma rotina atravessada por telas e excesso de estímulos.

O professor de violino Arthur Lauton, que ensina Lucia e outros adultos pela internet há quase duas décadas, afirma que muitos alunos chegam carregando a sensação de que "já passaram da idade". Segundo ele, o impacto do aprendizado vai além da música.

Muita gente chega para mim dizendo: 'será que eu posso aprender ainda? Acho que eu já passei da idade'. E o mais interessante é que, quando a pessoa começa a aprender, começa a evoluir, mesmo que seja aos poucos, ela começa a perceber uma coisa muito mais importante, que ainda é capaz de aprender uma coisa nova."

Ele ressalta que aprender violino exige atenção, memória, coordenação e escuta, mas também fortalece autoestima e autonomia

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Música como propósito de vida

Hoje, quatro anos depois das primeiras aulas, Lucia ainda se define como aprendiz, embora já toque em apresentações públicas e para amigos. Em uma dessas ocasiões, ela foi convidada para tocar em um evento que buscava arrecadar fundos para custear exames de mama entre mulheres em vulnerabilidade e que, ao mesmo tempo, fez uma homenagem à sua trajetória.

"[A médica] contava a minha vida, contava o sentimento dela quando fez o meu tratamento e como eu tinha superado e estava ali tocando violino. E quando eu vi que aquilo ajudaria mulheres carentes a fazer exame de mama, eu me senti muito útil", relembra.

Apesar das apresentações, o nervosismo continua aparecendo antes de tocar em público. "Antes de tocar vem frio na barriga, nervoso, mão gelada. Acho que esqueci tudo, ansiedade. É tudo desesperador."

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Ela conta que, aos poucos, o medo dá lugar à concentração. "Conforme vai passando o tempo, você vai relaxando. E quando vê, já terminou. Aí você pensa: 'Puxa vida, eu consegui. Se eu consegui desta vez, eu vou conseguir outra vez'."

Mesmo com a rotina apertada, Lucia insiste em ter horários para estudar e manter o violino presente no dia a dia. Além dos estudos e cuidados da casa, ela conta que tem uma horta, anda de bicicleta pela cidade, frequenta academia e faz pilates.

Tem dia que eu não consigo estudar porque chego cansada. Mas desistir de estudar, nunca."

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