Alexandre Kalache
Colunista VIVA
03/08/2026 | 08h53
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Gerontólogo e professor, é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil) e co-diretor do Age Friendly Institute. Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra
O impacto das ondas de calor na mortalidade de pessoas idosas
Envato
Rio de Janeiro - Em agosto de 2003 a Europa sofreu uma onda de calor que levou à morte dezenas de milhares de pessoas, 80% delas idosas. As estimativas indicam cerca de 70 mil mortes. Os países mais afetados foram a Itália, com cerca de 20 mil mortes, e a França, com mais de 16 mil. Neste último, o alarme não veio do setor saúde. Foram as agências funerárias que acionaram as autoridades face ao excesso de “demanda”.
Os profissionais da saúde tinham outras preocupações já que agosto é o mês em que os franceses tiram, em massa, suas férias anuais. E, claramente, não havia um sistema de vigilância para um monitoramento sistemático.
Essa onda de calor há mais de 20 anos foi uma das catástrofes mais letais da história recente do continente.
Subsequentemente, muitos governos europeus estabeleceram planos nacionais de prevenção para ondas de calor, incluindo sistemas de alerta precoce (pois, afinal, elas são previsíveis), monitoramento de pessoas vulneráveis, em particular, pessoas idosas, e protocolos específicos para unidades básicas de saúde, hospitais e serviços de emergência. No entanto, não só as autoridades sanitárias foram pegas de surpresa como reagiram tardia e defensivamente.
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Minha experiência com o tema na OMS
Nessa época eu trabalhava na Organização Mundial da Saúde, em Genebra, como diretor do departamento de envelhecimento e saúde. Assim que as vítimas começaram a ser contabilizadas, solicitei à diretoria um alerta da OMS ao governo francês. Achei, ingenuamente, que a tragédia poderia servir para algo construtivo, chamando a atenção para a urgente necessidade de adoção de políticas públicas para o envelhecimento populacional, muito além das consequências da onda de calor. Mas não me deram permissão, já que a divisão à qual meu departamento pertencia era dirigida por alguém indicado pelo governo francês da época.
Um alerta poderia ser interpretado como uma interferência ou crítica ao governo por parte da OMS com possíveis consequências negativas para ambos, o governo francês e a própria organização.
Aprendi a lição: políticas locais, regionais ou internacionais são altamente sucessíveis a interesses mundanos."
Somente posso especular se uma ação mais imediata do governo francês poderia ter evitado algumas das mortes já que, entre pessoas idosas, elas não estão restritas ao período em que a onda calor se verifica.
Muitas mortes são subsequentes, por exemplo, por complicações de doenças respiratórias e cardiovasculares (DCV). Por isso é necessário levar em conta a mortalidade em excesso por vários dias ou semanas (óbitos acima do esperado para o período), pois pessoas mais idosas apresentam frequentemente comorbidades, como as já citadas.
É comum associar uma morte por calor extrema somente a hipertermia que ocorre quando a temperatura corporal sobe a níveis críticos, acima de 40 °C, fazendo com que o organismo perca a capacidade de dissipar calor.
O que é uma onda de calor extremo?
Uma onda de calor é definida como exposição prolongada a calor extremo por um período de vários dias consecutivos em que as temperaturas permanecem anormalmente elevadas para uma determinada região e época do ano.
Embora não exista uma definição única adotada mundialmente, comumente converge para um período de cinco ou mais dias em que a temperatura máxima diária excede em 5 °C ou mais a média climatológica da temperatura máxima para um determinado local - conforme a Organização Meteorológica Mundial, OMM, similar à definição adotada no Brasil pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).
Portanto, a definição é relativa e leva em consideração entre outros fatores o local e a umidade relativa do ar que pode interferir na capacidade de dissipar calor através do suor. A cada 1 grau Centígrado de aumento da temperatura do solo, a umidade relativa do ar aumenta 7%.
Por que idosos são vulneráveis a ondas de calor?
Pessoas idosas são mais vulneráveis ao impacto de uma onda de calor por terem menor capacidade de manter o meio interno relativamente estável, mesmo quando o ambiente externo muda – o que se chama homeostase (a manutenção do equilíbrio interno do organismo, permitindo que ele continue funcionando adequadamente apesar das mudanças no ambiente).
O impacto se dá sobretudo porque o sistema nervoso central é afetado, podendo ocorrer uma sobrecarga cardíaca, na coagulação do sangue, bem como danos nos rins fígado e músculos. Em não havendo um tratamento rápido, uma falência múltipla de órgãos pode resultar, levando a óbito.
Mesmo que os números finais não tenham ainda sido consolidados, as ondas de calor do final de junho passado causaram, a um mês de sua ocorrência, milhares de mortes Europa afora. No final de julho, os países que pareceram mais afetados foram Alemanha, com cerca de 7 mil mortes, seguida do Reino Unido (2,700), França (2,050), Bélgica (1750) e Espanha (975). A maioria das vítimas (mais de 90%) tinha 65 anos ou mais.
Como evitar mortes por calor extremo
Medidas simples com base na vigilância sanitária podem prevenir as complicações desencadeadas por uma onda de calor. Alguns exemplos:
- Hidratação: insistir que as pessoas idosas bebam ao menos 2,5 litros de líquidos por dia),
- Resfriar o corpo: com várias duchas de água tépida ou fria ou aplicar rapidamente compressas de água fria, sobretudo nas axilas, pescoço e virilha;
- Levar a pessoa para um local fresco, sombreado;
- remover excesso de roupas;
- Quando possível, fazer imersão em água fria
- Em caso de hospitalização, monitorar e tratar as complicações tais como alterações cárdicas, insuficiência renal e distúrbios da coagulação.
Alguns países europeus, durante ondas de calor subsequentes às do final de junho, adotaram gratuidade a cinemas, museus e outros equipamentos públicos refrigerados, abrigando pessoas idosas e assim dando-lhes um "respiro” de algumas horas.
Brasil deve se preparar para o 'Super El Niño'
Embora o local onde ocorram as ondas de calor seja um fator determinantes, há um mito de que em países como o Brasil as pessoas não sofram tanto as consequências por estarem mais acostumadas. Por um lado, estamos. E a própria arquitetura das construções pode aliviar o efeito – muito embora as moradias onde vivem os mais pobres, com coberturas de laje de cimento, vielas que impedem a circulação de ar, abastecimento de água ou de eletricidade precários, inexistência de parques e escassa arborização, em nada mitigam os efeitos.
O preço da desigualdade social é alto para grande parte da população que carece de moradias com ar-condicionado.
Há aqui também mortes causadas por ondas de calor. O INMET estima que no período entre 2000 e 2019 mais de 120 mil mortes tenham ocorrido em consequência delas. Nos últimos cinco anos registramos temperaturas médias ainda mais altas. O órgão calcula em mais de 40 mil o número de mortes consequentes a ondas de calor no período entre 2021 e 2025.
A situação tende a se agravar em consequência do previsto “Super El Niño” que deve perdurar ao longo do segundo semestre de 2026 e primeiros meses do próximo ano. Prevê-se um verão particularmente quente em algumas regiões do Brasil. acompanhado de secas e temperaturas altas ao longo das noites.
O aquecimento global amplamente documentado nos últimos anos tende a se intensificar. E o negacionismo de alguns governos, levando a não-adoção de medidas para uma diminuição da poluição atmosférica em paralelo ao rápido envelhecimento da população global exigirá a adoção de políticas que mitiguem o impacto dos câmbios climáticos mundo afora."
Para nós, no Brasil, as consequências podem ser particularmente severas já que o número absoluto de pessoas idosas (acima de 60 anos) saltará dos atuais 34 milhões para o dobro em 2050.
Talvez você que esteja lendo essa coluna hoje e tenha 35 anos, possa vir a ser uma vítima daqui a apenas 25 anos. A resposta a todo esse contexto exige conscientização, políticas públicas e responsabilidade individual: estamos todos no mesmo barco chamado Planeta Terra.
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