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Tolerância ao álcool cai com a idade? Entenda o que causa essa mudança

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A mesma quantidade de bebida tem um impacto mais forte nos 50+
Por Bianca Bibiano

02/05/2026 | 08h07

São Paulo - Se você está pensando em tomar alguns drinks ou cervejas neste fim de semana, talvez devesse repensar a dose. Nesta semana, a reportagem do VIVA conversou com diferentes especialistas da área da saúde e todos confirmam: a tolerância ao álcool cai com a idade.

E o que na juventude rendia apenas uma leve ressaca, após os 50 anos pode gerar sintomas que parecem tão graves quanto em alguma doença viral. O principal 'culpado' disso é o metabolismo, que vai mudando naturalmente com o tempo.

"Com o envelhecimento, o organismo passa por mudanças fisiológicas que alteram a forma como o álcool é metabolizado. A partir dos 50 anos, há uma redução da quantidade de água corporal e, muitas vezes, um aumento proporcional de gordura. Como o álcool é hidrossolúvel, ele fica mais concentrado no sangue, levando a efeitos mais intensos com a mesma quantidade ingerida", explica a endocrinologista Fernanda Parra.

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A médica nutróloga Sandra Fernandes, da Kora Saúde, complementa que essa redução de água corporal faz com que o álcool fique mais concentrado no organismo. "Com o metabolismo mais lento, as enzimas hepáticas, responsáveis por processar o álcool, não funcionam da mesma forma eficiente que antes", aponta. 

Somado ao fato de que o cérebro se torna mais sensível aos efeitos do álcool, isso faz com que a mesma quantidade de bebida tenha um impacto mais forte nos 50+ do que em idades mais jovens."

Efeitos do álcool no corpo

Nessa fase da vida, os efeitos do consumo de álcool podem se tornar mais evidentes no corpo. "O mais comum é uma sonolência maior e lapsos de memória, o que pode afetar as atividades diárias", afirma Fernandes.

O risco de quedas também aumenta devido à diminuição da coordenação motora e do equilíbrio. Além disso, o álcool piora a qualidade do sono, interferindo nos ciclos de sono e afetando o descanso."

Ela ressalta que as interações com medicamentos também devem ser levadas em conta, pois essas bebidas podem alterar a ação de diversos remédios, potencializando efeitos colaterais. 

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O médico cardiologista André Brandão, do grupo Kora, complementa que, nessa faixa de idade, em comparação com mais jovens, "os impactos do álcool tendem a ser mais clinicamente relevantes".

Do ponto de vista cardiovascular, o consumo pode contribuir para elevação da pressão arterial, arritmias, especialmente fibrilação atrial, e piora de condições já existentes."

Já o nutricionista Thyago Nishino pontua que, do ponto de vista nutricional, isso faz bastante sentido. "Com o passar dos anos, há mudanças na composição corporal, como redução de massa muscular e aumento de gordura, e isso interfere diretamente na forma como o álcool se distribui no organismo. Como ele não se dilui da mesma maneira que antes, seus efeitos acabam sendo mais intensos."

Além disso, a alimentação e o estado nutricional passam a ter um peso ainda maior. Pessoas que comem pouco, têm baixa ingestão de proteínas ou passam longos períodos em jejum tendem a sentir o impacto do álcool de forma mais rápida e acentuada."

Nishino lembra que o consumo constante de bebidas alcóolicas pode interferir no equilíbrio do corpo. Segundo ele, é comum observar maior dificuldade para manter o peso, principalmente pelo fato de o álcool ser calórico e não trazer saciedade. Ou seja, ele soma calorias sem nutrir, o que favorece o acúmulo de gordura, especialmente abdominal.

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A regulação da glicose também é alterada com o consumo frequente, o que pode desorganizar o controle do açúcar no sangue e é especialmente relevante para quem já tem ou está com risco de desenvolver resistência à insulina ou diabetes.

"O álcool pode afetar a absorção e o aproveitamento de nutrientes importantes, como vitaminas do complexo B, além de impactar a hidratação. Com o tempo, isso pode refletir em mais cansaço, pior recuperação do organismo e até queda na qualidade da alimentação como um todo."

Ainda do ponto de vista metabólico, Fernanda Parra diz que o álcool pode contribuir para maior dificuldade no controle do peso especialmente nas mulheres.

Em mulheres após a menopausa, o álcool pode impactar negativamente o equilíbrio hormonal e favorecer acúmulo de gordura abdominal."

Quanto beber?

Parra explica que tradicionalmente as diretrizes internacionais consideravam como consumo moderado até uma dose por dia para mulheres e até duas doses por dia para homens. "No entanto, esse conceito vem sendo cada vez mais revisto", destaca.

Hoje sabemos que não existe uma quantidade totalmente segura de álcool do ponto de vista de saúde. Mesmo pequenas quantidades já podem trazer impactos, especialmente quando o consumo é frequente."

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Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não existe um nível totalmente seguro de consumo de álcool. Para Fernanda Parra e demais especialistas, o risco passa a ser maior quando o consumo deixa de ser ocasional e passa a ser regular, principalmente associado a fatores como idade acima de 50 anos, presença de doenças metabólicas, uso de medicações ou histórico familiar relevante.

Por isso, a recomendação não é apenas falar em 'moderação', mas sim individualizar. "Em muitos casos, reduzir ao máximo ou até evitar o consumo pode ser a melhor estratégia para preservar saúde, metabolismo e qualidade de vida", complementa Parra.

A opinião é complementada pela nutróloga Sandra Fernandes, que pondera: "Não se trata de radicalismo, mas sim de consciência. Se você optar por beber, é sempre importante lembrar que menos é melhor", e conclui:

Em muitos casos clínicos, a escolha mais segura, especialmente após os 50, é zero álcool. Envelhecer com saúde não é apenas sobre o que fazemos, mas também sobre as escolhas que fazemos em reduzir certos hábitos que podem impactar nossa saúde a longo prazo."

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