Tratar a obesidade como falta de vontade é ignorar a ciência, diz especialista
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São Paulo - A convivência com a obesidade envolve desafios que vão muito além das complicações físicas da condição. Para milhões de pessoas, o cotidiano é marcado pelo enfrentamento da gordofobia — um preconceito estrutural que compromete a saúde mental, restringe o acesso a tratamentos adequados e alimenta a exclusão em diversos setores da sociedade.
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O cenário ganha ainda mais urgência diante dos dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025, que projeta que cerca de 3 bilhões de adultos — aproximadamente metade da população adulta global — estarão com sobrepeso ou obesidade até 2030, caso o ritmo atual se mantenha.
Em alusão ao Dia de Luta Contra a Gordofobia, lembrado nesta quinta-feira, 10, especialista reforça a necessidade de desconstruir estigmas e ampliar a conscientização sobre a obesidade enquanto uma doença crônica, complexa e multifatorial.
Minimização da condição
Um dos principais vetores da gordofobia é a tendência de simplificar a condição corporal a um mero desvio de conduta, falta de disciplina ou escolha pessoal. Expressões populares e crenças enraizadas, como o mito do "é só fechar a boca", ignoram a ciência por trás do funcionamento metabólico.
De acordo com o médico nutrólogo, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e palestrante do Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026), Durval Ribas Filho, a obesidade resulta de uma interação intrincada entre diversos fatores.
A obesidade não é resultado apenas de escolhas individuais. Ela envolve fatores biológicos, genéticos, metabólicos, ambientais, comportamentais e sociais. Quando a sociedade ignora essa complexidade, reforça estereótipos que geram sofrimento emocional, isolamento e atraso na busca por tratamento", explica.
Ele adiciona que, quando a sociedade reduz essa condição à aparência física ou à força de vontade, acaba reforçando estereótipos nocivos que geram sofrimento emocional, isolamento e atrasos significativos na busca por assistência médica adequada.
Discriminação cotidiana
A gordofobia se manifesta de formas sutis e explícitas no dia a dia. Para Ribas Filho, ela está presente na ausência de acessibilidade em espaços públicos, na discriminação e exclusão no ambiente de trabalho, no contexto familiar e em pressões estéticas constantes.
Além disso, ele lembra que comentários frequentemente disfarçados de elogios — como "você tem um rosto bonito, mas..." ou "você seria mais bonita se emagrecesse" — funcionam como instrumentos de inferiorização e humilhação.
Os desdobramentos psicológicos dessa discriminação contínua são severos. O especialista destaca que a gordofobia está diretamente associada ao desenvolvimento de quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos alimentares, afetando com particular intensidade os adolescentes.
"Vale destacar também que o estigma atinge as mulheres de maneira ainda mais acentuada, sendo agravado por interseções de gênero, etnia e sexualidade.
Paralelamente, especialistas alertam para o equívoco de associar o peso diretamente ao estado de saúde global de um indivíduo", pontua.
Pessoas magras também adoecem, ao mesmo tempo em que indivíduos com obesidade podem apresentar bons indicadores de saúde em diferentes aspectos. Do mesmo modo, o excesso de peso não deve ser atrelado à preguiça, desleixo ou incompetência profissional.
10 pilares para transformar o cuidado
Para promover uma mudança efetiva, o combate à gordofobia deve ser estruturado como uma prioridade de saúde pública, articulando acolhimento, informação e respeito.
Com base na análise do especialista, destacam-se dez atitudes fundamentais para reconfigurar a relação da sociedade com a obesidade:
- Reconhecer a obesidade como doença: entender seu caráter crônico e multifatorial, superando a ideia simplista de falta de determinação.
- Combater a discriminação diária: eliminar barreiras de acessibilidade e situações constrangedoras que minam a dignidade;
- Revisar conceitos e preconceitos: desmantelar julgamentos e estigmas que promovem a humilhação e o isolamento social;
- Dissociar aparência de capacidade: não julgar a competência, dedicação ou profissionalismo do indivíduo pelo tamanho do corpo;
- Compreender as assimetrias de gênero: atentar para a pressão estética acentuada sobre as mulheres e suas interseccionalidades;
- Desconectar saúde exclusivamente do peso: reconhecer que indicadores metabólicos e bem-estar físico dependem de múltiplos fatores;
- Eliminar comentários sobre o corpo alheio: abster-se de opiniões não solicitadas ou frases preconceituosas fantasiadas de elogios;
- Mapear e acolher os impactos emocionais: oferecer suporte preventivo contra ansiedade, depressão e transtornos alimentares;
- Superar o mito do "é só fechar a boca": compreender as bases biológicas e sociais para cessar a culpabilização do paciente;
- Humanizar o tratamento médico: olhar para a pessoa como um todo, considerando saúde física e mental, hábitos, histórico e contexto social, e não apenas o número na balança.
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