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Conheça Mayana Zatz, cientista que busca o segredo dos centenários brasileiros

Emanuele Almeida/VIVA

Nascida em Tel Aviv em 1947, Mayana Zatz hoje se dedica às pesquisas sobre distrofia muscular de Duchenne - Emanuele Almeida/VIVA
Nascida em Tel Aviv em 1947, Mayana Zatz hoje se dedica às pesquisas sobre distrofia muscular de Duchenne
Por Emanuele Almeida

08/03/2026 | 18h00

São Paulo, 08/03/2026 - A professora e geneticista Mayana Zatz esteve no início dos estudos sobre genética no Brasil. Na época – década de 1970 – a cientista não imaginava que a área iria se tornar tão importante para a medicina atual. Hoje, aos 78 anos, ela lidera o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (Genoma USP).

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“A gente não tinha ideia que a tecnologia avançaria tanto a tal ponto que a gente hoje pensa em editar e alterar a genética. Era uma coisa absolutamente impossível quando comecei”, relembra.

Desde criança, Zatz se interessava por descobertas científicas e achava “o máximo” livros de cientistas; Marie Curie era uma de suas principais inspirações na época. Hoje sua “ídola” é a ganhadora do prêmio Nobel de Medicina, Rita Levi-Montalcini.

“Rita morreu com 103 anos e fez várias coisas, inclusive, ganhou o Prêmio Nobel. E quando veio para o Brasil, ela tinha 78 anos e ainda fazendo mil planos de projetos, de pesquisas, uma coisa espetacular”, relembra Mayana que hoje, com a mesma idade, participou do Projeto Genoma Humano, pesquisa científica internacional com o objetivo de determinar os pares de bases que compõem o DNA humano.

Ainda atuante, a geneticista tem o sonho de encontrar o segredo genético dos centenários brasileiros, assim como descobrir o tratamento acessível de preservação do músculo para pessoas com distrofia muscular de Duchenne, uma condição degenerativa que atinge homens.

Mulheres na pesquisa

Sobre sua experiência como pesquisadora, Zatz reforça com veemência não ter sofrido discriminação de gênero no ambiente acadêmico brasileiro. “Quando eu falo que não sofri essa descrimação, falo no ambiente da ciência e universidade. Isso porque nós, mulheres, temos as mesmas oportunidades de entrada, com os mesmos salários pré-estipulados”, explica.

Mayana Zatz é uma mulher idosa, magra, veste uma camisa verde claro, tem cabelos curtos e escuros
Nascida em Tel Aviv em 1947, Mayana Zatz viveu parte da infância na França antes de se estabelecer definitivamente no Brasil, em 1955. Emanuele Almeida/VIVA

Ela lembra que o único momento em que sofreu algum tipo de preconceito de gênero foi em sua experiência de pós-doutorado nos Estados Unidos. “Eu me senti discriminada enquanto estive lá. O contexto é diferente do Brasil. Lá as mulheres têm salários diferentes, porque eles não são fixados pelo cargo, mas sim negociados, assim como não há licença maternidade”, conta a cientista.

Distrofias musculares

Foi um ambiente mais acolhedor para mulheres que permitiu com que Mayana desse o pontapé em pesquisas inovadoras no campo das doenças genéticas degenerativas. Um dos mais importantes para a cientista é a investigação de uma variante genética protetora em pacientes raros com distrofia muscular de Duchenne.

A doença ocorre apenas em homens que possuem uma mutação que determina a perda de uma proteína muscular chamada distrofina, e com isso eles vão perdendo a musculatura. “Então, com 10, 12 anos, eles param de andar e depois começa a afetar os músculos superiores, até chegar no coração e respiração, o que leva à morte”, explica a pesquisadora.

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Mas, com a ajuda de um pesquisador da Espanha, Mayana conseguiu encontrar homens que possuíam a mutação da doença, porém ainda andavam aos 25 anos. Foi ao analisar as amostras de DNA desses homens que a pesquisadora conseguiu identificar um gene “protetor” que permitiu que eles conseguissem manter a musculatura e viver normalmente até essa idade. 

Agora, o objetivo da pesquisadora é descobrir a partir dessa variante rara um tratamento para a condição. “A importância disso é que nós mostramos pela primeira vez que é possível ter um músculo funcional sem a proteína distrofina”, reforça. 

Infográfico com duas imagens de meninos e demonstração dos sintomas de distrofia de duchenne
Bebês com a alteração geética não apresentam sintomas da doença ao nascer.Figura adaptada/Fonte Movimento Duchenne

A urgência dessa descoberta se dá pelo custo "escandaloso" das terapias atuais; a última aprovada em caráter excepcional (medicamento Elevidys) chega a custar R$ 20 milhões por paciente, um valor inviável para o sistema de saúde do Brasil a longo prazo. 

Em 2025, houve a primeira aplicação do remédio, contudo, o registro é válido até dezembro de 2029, e sua renovação dependerá do cumprimento de requisitos específicos pela empresa. O valor de comercialização de cada dose, segundo precificação junto à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), foi definido em R$ 11 milhões. O objetivo da cientista é que esse gene protetor origine um tratamento financeiramente acessível a todos.

O "segredo" dos centenários brasileiros

Outra descoberta ainda em andamento feita pela equipe de Mayana Zatz foi sobre os centenários e supercentenários brasileiros: a diversidade e miscigenação no País é um dos principais fatores que permitiram que essas pessoas vivessem durante tanto tempo.

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O estudo, publicado na revista Genomic Psychiatry, coletou dados clínicos e amostras biológicas de mais de 100 centenários, sendo 20 delas supercentenários, de diferentes origens sociais e culturais, distribuídos pelo Brasil. Para entender os mecanismos genéticos que fazem esses idosos resistirem a doenças como a Covid-19, os pesquisadores chegam a gerar células pulmonares a partir do sangue dos pacientes em laboratório. 

Esses centenários não tiveram acesso à medicina moderna durante grande parte da vida. Eles se alimentam e vivem bem. Nosso objetivo agora é entender geneticamente qual é o segredo para isso." 

Esperançosa, Mayana acredita que a descoberta do segredo dos centenários brasileiros ajudará as futuras gerações a envelhecerem bem e passar dos 100 anos com qualidade. “O brasileiro tem uma genética boa. Acredito que temos boas chances de envelhecer bem”, observa. 

Zika e tumores

A partir dos estudos sobre a epidemia de Zika e os casos de microcefalia, a equipe de Zatz fez uma descoberta promissora. Ao constatar que o vírus Zika ataca e destrói especificamente as células neuroprogenitoras presentes no cérebro de bebês em formação, os cientistas decidiram injetar o vírus em linhagens de tumores do sistema nervoso central, que são ricos nesse mesmo tipo de célula. 

Os testes, realizados em camundongos e posteriormente em cães com tumores espontâneos, revelaram resultados impressionantes: houve grande redução e, em alguns casos, o sumiço completo dos tumores cerebrais e de metástases. Além da eficácia, o tratamento não apresentou efeitos colaterais graves associados à quimioterapia ou radioterapia, causando apenas um dia de febre nos animais. 

A expectativa é grande para o futuro da pesquisa: “O próximo passo é desenvolver um vírus modificado para, mediante aprovação da Anvisa, dar início aos testes em pacientes humanos”, explica. 

Genética no Brasil e o SUS

Apesar de o custo do sequenciamento genético ter caído drasticamente nas últimas décadas — passando de bilhões de dólares para cerca de um a dois mil reais, segundo Zatz —, a geneticista alerta para a falta de apoio do Sistema Único de Saúde (SUS) às pesquisas e atendimentos feitos no Genoma USP. 

O Centro Genoma USP é um prédio de dois andares e tem cores branca e azul com uma pequena passarela para acesso
O prédio de atendimento do Genoma USP foi inaugurado em 2000. Desde então, mais de 100 mil pessoas, pertencentes a famílias com afetados por diferentes patologias foram atendidas. Cecília Bastos/USP Imagens

O centro da USP atende inúmeras famílias e busca fechar diagnósticos rápidos para iniciar tratamentos e promover o aconselhamento preventivo, mas, como não há financiamento do governo para os exames, o centro optou por cobrar dos pacientes que podem pagar os exames para conseguir oferecer testes gratuitos às famílias de baixa renda.

Contudo, mesmo sem o apoio governamental para os exames, o centro continua atendendo centenas de famílias por mês. Mayana explica que cada tipo de atendimento é dividido nos dias da semana – ela atende às segundas-feiras. 

Além disso, ela reforça que iniciativas públicas recentes para a realização do exame genético em 11 Estados para detecção de doenças raras é um avanço para o início mais rápido de tratamentos. “Quando você faz o diagnóstico de uma doença, você pode começar tratamentos quando a condição ainda é tratável. E com o exame difundido, você pode fechar o diagnóstico com um simples exame de sangue”, acrescenta. 

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Um outro marco importante da equipe foi a criação do maior banco genômico de idosos da América Latina, focado em brasileiros com mais de 60 anos. O sequenciamento mostrou que a população miscigenada reage de forma diferente da europeia. Mutações genéticas conhecidas por causar altíssimo risco de câncer de mama no exterior, por exemplo, foram encontradas em idosas brasileiras que nunca desenvolveram a doença. 

Mayana reforça que o estudo em idosos ajuda na identificação de tendências genéticas no Brasil e na medicina de precisão. “Se estou estudando uma doença, que eu não sei qual é o gene que causa a causa, mas acho uma mutação, eu posso dizer: ‘Será que essa mutação é que está causando a doença?’ Se eu verifico no banco de dados de idosos e eles estiverem normais, mesmo tendo aquela mesma mutação, eu já sei que não é aquela alteração que está causando a doença”, detalha. 

Polilaminina

A pesquisadora manifestou preocupação com a comunicação na ciência, especialmente sobre o cuidado necessário da mídia ao divulgar tratamentos sem a devida comprovação. Ela comenta sobre o alarde em torno de substâncias recentes como a Polilaminina:

Pacientes com distrofia muscular estão me escrevendo perguntando se podem tomar também a polilaminina para saber se ela vai servir para distrofia”. 

Mayana comparou a situação com o antigo caso da fosfoetanolamina (a polêmica "pílula do câncer"), ressaltando que divulgar pré-prints ou relatos isolados gera falsas esperanças na população. Ela defende que todo novo tratamento deve obrigatoriamente passar por rigorosos estudos clínicos controlados e revisão científica antes de ser anunciado ao público. 

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Desafios na pesquisa 

Apesar de liderar projetos inovadores, a cientista relata que fazer pesquisa no Brasil envolve enfrentar crescentes obstáculos institucionais e burocráticos. Um dos maiores entraves apontados por Zatz é a lentidão excessiva dos comitês de ética, que muitas vezes paralisam os estudos por meses.

"Muitas pesquisas que a gente fez e que deram resultados muito importantes, hoje, teríamos que esperar muitos meses por um parecer de comitês de ética. Enquanto isso, todo mundo fica com medo de que a pesquisa não seja aprovada. E enquanto aguarda o resultado, o estudo fica parado”, conta. 

Mulher negra cientista faz testes em laboratóri
Mayana Zatz explica que a maioria dos reagentes necessários são comprados de fornecedores nos EUA. Adobe Stock

Além disso, a burocracia alfandegária para importar reagentes fundamentais é um desafio diário. A espera pela chegada dos produtos pode levar meses, resultando na perda de tempo e no enorme desperdício de verbas e materiais, já que muitos insumos perdem a validade antes de a encomenda completa chegar ou acabam estragando por mau condicionamento na alfândega.

Para a geneticista, o processo deveria ser simplificado e sem intermediários, permitindo que o pesquisador utilize a verba do projeto para comprar os insumos diretamente, com a mesma facilidade com que "se compra livro pela internet".

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