Exposição a telas vai reduzindo capacidade de atenção do cérebro, diz livro
Capacidade de atenção atual em telas dura menos de um terço do tempo de 20 anos atrás, segundo pesquisa
Envato
São Paulo, 09/10/2025 - A capacidade de manter o foco por longos períodos tem diminuído de forma consistente nas últimas décadas. O que antes parecia uma questão de disciplina ou hábito, hoje é compreendido pela neurociência como uma transformação estrutural do cérebro.
A pesquisadora americana Gloria Mark, especialista em atenção, conseguiu medir esta perda: em pesquisa para seu livro intitulado "Attention Span" , ela relevou que, entre 2004 e 2023, o tempo que conseguimos dedicar de atenção a telas caiu de 2,5 minutos para 47 segundos. Ou seja: menos de um terço do tempo no começo do século.
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De acordo com o neurologista Marcelo Masruha, o design das plataformas digitais, com notificações, vídeos automáticos, feeds infinitos e recompensas rápidas, remodelou o modo como o cérebro processa e prioriza informações. “Esses estímulos constantes ativam o sistema de recompensa e tornam o cérebro mais dependente de novidades. O resultado é a perda da capacidade de se manter em uma mesma tarefa por muito tempo”, explica.
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Desde 2012, com a popularização do feed infinito e dos algoritmos que priorizam conteúdos de alto engajamento, o ambiente digital passou a explorar diretamente os circuitos de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e motivação. O médico observa que o mecanismo é proposital.
“Cada rolagem de tela, cada curtida ou notificação, gera um pequeno pico de prazer. É um mecanismo que reforça o comportamento e estimula o consumo contínuo de informação, mesmo sem necessidade real”
Segundo ele, o impacto vai muito além da distração momentânea. A exposição constante a estímulos fragmentados enfraquece a memória de trabalho, reduz a tolerância ao tédio e aumenta os níveis de ansiedade. “Com o tempo, o cérebro se adapta a esse padrão, tornando-se mais impulsivo e menos resiliente. Passamos a buscar recompensas rápidas e evitamos atividades que exigem foco prolongado, como leituras extensas, estudo ou planejamento.”
Mas há caminhos para reverter esse processo, segundo o neurologista.
Estratégias para fortalecer a atenção:
- Trabalhar em blocos de tempo fixos, sem interrupções, favorece o reaprendizado do foco.
- Criar pausas sem estímulos, longe de telas e sons digitais, ajuda o cérebro a descansar e reorganizar ideias.
- Limitar o acesso a redes sociais, mesmo com pequenas barreiras, como deixar o celular em outro cômodo, reduz o uso automático.
- Permitir o “tédio criativo”, sem recorrer imediatamente ao celular, estimula conexões cerebrais associadas à criatividade e concentração.
“O foco é um recurso biológico valioso, e protegê-lo é uma escolha consciente”, conclui Masruha. “Nosso desafio hoje não é ter mais informação, e sim reaprender a direcionar a mente em meio a tanto estímulo.”
*Estagiário sob supervisão de Luana Pavani
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