Milton Hatoum: 'Não me sinto ameaçado pela inteligência artificial'
Divulgação - VIVO
São Paulo - O escritor amazonense Milton Hatoum, autor do romance "Dois Irmãos!" e da trilogia "O lugar mais sombrio", participa netsa terça-feira (01) do Encontro Futuro Vivo, evento no qual discute o papel da arte diante da tecnologia.
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Primeiro de seu Estado à integrar a Academia Brasileira de Letras, Hatoum conta ao VIVA que ainda escreve à mão e não se envergonha da "dimensão dinossáurica" do seu processo criativo, defendendo uma escrita humana em meio ao crescimento de conteúdo gerado por inteligência artificial.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva:
VIVA: A evolução tecnológica mudou o seu processo de escrita? Já considerou utilizar inteligência artificial?
Milton Hatoum: Nunca utilizei a IA. Seja para escrever romances ou ensaios, me apoio em livros. Imagine; quando eu comecei, escrevia a mão e passava a limpo numa máquina de datilografar.
Mas o computador foi uma grande vantagem, especialmente para fazer mudanças no texto. Eu reescrevo muito, cheguei a imprimir 20 versões de "Os Dois Irmãos" para poder corrigir cada uma, e nesses momentos a tecnologia fez a diferença.
Você acredita que os livros produzidos massivamente por inteligência artificial podem em algum momento substituir a literatura humana?
Não sabemos como será o leitor do futuro, mas não me sinto ameaçado pela IA, pois ela não tem a vivência do cotidiano, que é a base para a escrita. A literatura depende muito da empatia entre o autor e sua história, e da empatia entre esse texto e o leitor. A máquina pode escrever livros bem estruturados, mas nunca com a profundidade de uma ClariceLispector, ou uma linguagem nova como Guimarães Rosa.
A IA pode produzir milhares de romances medianos, mas romances medianos já existem há séculos."
VIVA: O que mudou no seu processo de escrita com a longevidade?
Quando se é jovem, você pode escrever 12 horas seguidas; dormir um pouco e voltar a escrever. Hoje, é difícil para mim escrever mais de 3 ou 4 horas por dia. Agora, eu escrevo de uma maneira muito mais reflexiva, mais pensada. Eu consigo logo de cara detectar os pontos frouxos e engasgos na narrativa.
Mas a insegurança e a ansiedade ainda são as mesmas. Quando escrevo, ainda tenho os mesmos tiques nervosos; os mesmos sonhos com os personagens.
Com o passar dos anos, você se imagina parando de escrever em algum momento?
Eu imagino sim. Parar de escrever é um ato tão corajoso quanto continuar escrevendo, ou até mais. Às vezes, um autor já disse tudo que precisava dizer, e precisa admintir que a "fonte secou".
Mas eu sinto que a minha fonte ainda não secou. Existem histórias que quero contar, especialmente sobre a minha infância em Manaus. Enquanto eu ainda conseguir lembrar, nem que seja uma lembrança nebulosa, eu quero escrever, porque a vida começa exatamente com a memória e a vida termina quando a memória se apaga.
Qual é o papel do contato intergeracional para preservar e estimular a literatura brasileira?
Eu sou amigo de alguns jovens escritores e, mesmo não conseguindo acompanhar tudo que é publicado, tento ler ao máximo as novas obras, porque são o que une a minha geração com a geração do meu filho.
Nos meus 14 anos, foi "Vidas Secas"as que me marcou para sempre e me tirou do lugar comum em que vivia em Manaus. É o mesmo livro que, meio século depois, em São Paulo , meu filho leu e se encantou. Esse é o poder do livro.
A literatura une gerações e cria uma espécie de argamassa comum entre o passado e o presente."
Serviço:
O Encontro Futuro Vivo – promovido pela operadora Vivo – reúne importantes vozes como Conceição Evaristo, Milton Hatoum, e Raquel Tupinambá, para debater o futuro da vida no planeta, equilibrando tecnologia e natureza.
Data: 01 de setembro de 2026; das 9h às 18h05; o painel com Milton Hatoum e Conceição Evaristo está marcada para as 17h25.
Local: Teatro Vivo, em São Paulo – Avenida Dr. Chucri Zaidan, 2460
Transmissão ao vivo: Pelo portal Terra
Inscrições e programação: no site "encontrofuturovivo.com.br"
*Estagiário sob supervisão de Claudio Marques
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