Mulheres e profissionais 50+ desafiam estereótipos na tecnologia
Divulgação/Raquelina Foto e Vídeo
São Paulo - A ideia de que a área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) valoriza apenas resultados e não pessoas ainda é comum, sustentada pela imagem estereotipada do profissional da área: indivíduo do sexo masculino e jovem. No entanto, a área vem abarcando mais mulheres em meio a desafios de diversidade e inclusão. Ainda assim, elas ganham menos.
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De acordo com a consultora em Inovação e doutoranda em Comunicação e Semiótica, Laura Hauser, esta disparidade é um espelho que amplia um problema social. "A área de tecnologia não inventa muita coisa, ela potencializa estruturas já existentes. E uma delas é a exclusão da mulher", argumenta.
O relatório de diversidade da Brasscom - Associação das Empresas de TIC e de Tecnologias Digitais mostra que atualmente as mulheres são 39% dos profissionais desta área, mas ocupam apenas 28,1% dos cargos de liderança. E em média, os homens recebem 37,1% a mais que elas.
A criadora da startup de impacto social PrograMaria, Iana Chan, conta que este é o momento de "separar o joio do trigo" e conhecer as instituições que não estão só preocupadas em cumprir metas de diversidade.
Não basta criar uma vaga de emprego e por uma mulher lá. Precisamos de representatividade em toda a jornada da tecnologia; desde a produção até a direção, e manter ambientes constantemente preocupados em acolher."
A seguir, o VIVA traz depoimentos de mulheres que conseguiram crescer na tecnologia quando acharam, ou criaram, um ambiente que as acolhesse e entendesse.
Da tesoura ao teclado
Um exemplo de que a idade não precisa ser um obstáculo é de Alessandra Gomes. Ela trabalhou por 30 anos como cabeleireira e, durante décadas, foi só esposa e mãe, acreditando que não deveria se tornar maior do que o marido. Mas em dado momento decidiu mudar, e descobriu o amor pela área de programação.
Após a indicação de uma colega, Gomes procuro a PrograMaria, iniciativa que empodera mulheres por meio de tecnologia e programação.
Ela sentia a hostilidade que o setor tem com mulheres, especialmente mais velhas. Quando surgiu a primeira prova para uma bolsa, chegou a pensar em desistir, pois era "coisa de jovem".
Conversando com sua mãe, ouviu um conselho simples e direto: "Se você tem capacidade para fazer a prova, vá e faça". Seguindo a voz da experiência, Alessandra conquistou a bolsa.
Não era sua primeira vez tentando aprender a desenvolver, mas foi a primeira vez que se sentiu acolhida. E entendeu que esta era a parte que faltava.
Muitas pessoas temem que, ao deixar o trabalho atual para começar algo novo, estarão perdendo todos os anos investidos. A fundadora da PrograMaria, Iana Chan, explica que toda a experiência é uma bagagem importante, e só vai acrescentar na nova jornada.
Alessandra Gomes, hoje com 50 anos, acredita que o salão de beleza foi sua escola da vida, onde aprendeu que a perfeição leva tempo. Hoje, aconselha todas as mulheres, não importando a idade, a não terem medo de começar algo novo.
Não importa se você estiver no fundo do poço. Busque força interior para firmar o pé e sair do poço."
Programação para crescer
Mariana Dutra atua na área há 20 anos. Ela conta que a falta de representatividade feminina que encontrou foi tanto uma dor quanto uma motivação.
Na faculdade, foi a única mulher na turma a se formar, e se lembra até hoje da única professora que teve, sua fonte de inspiração.
No trabalho, já foi a única em um andar com 60 homens, e nunca teve uma chefe mulher. Uma vez, ao anunciar sua pretensão salarial para uma vaga, recebeu como resposta: "Isso é o que eu pago para um homem aqui dentro."
Um alento para Mariana Dutra nesta jornada de desafios foi participar do PHP Women, grupo global focado em ensinar a linguagem de programação PHP para mulheres, como instrutora.
Ela deu aulas quinzenais em diversas empresas e pode sentir a diferença ao longo do tempo. Enquanto algumas alunas desistiam por não se ver trabalhando na área, outras conquistavam espaço.
Hoje, todas as empresas querem ter mulheres em seu time. Eu brinco que 'agora chegou a minha hora'."
Superando as barreiras etárias
Além da questão de gênero, o mercado de trabalho em TIC também impõe barreiras à idade. A consultora Laura Hauser conta que no setor uma profissional de 35 anos é considerada velha demais, o que considera “uma estupidez enorme". De fato, mais da metade dos profissionais de tecnologia tem entre 19 e 29 anos, e apenas um a cada duzentos está acima dos 56.
Para Katya Costa, especialista de sistemas de ativos no Banco Mercantil, de 63 anos, estes números nunca importaram. Em mais de 40 anos, Costa trabalhou com todo tipo de sistema, desde os primeiros computadores até a Inteligência Artificial. Ela sempre se sentiu acolhida, e percebeu nas diferenças de idade uma vantagem, procurando passar as experiências para os mais jovens.
Apesar de a evolução das ferramentas muitas vezes assustar algumas pessoas, Costa acredita que isto é apenas um detalhe quando se está aberta para o novo.
Eu nunca tive barreiras para aprender. Os jovens estão acostumados com IA; e sempre surgem novas linguagens de programação. Porém tudo no computador é 0 ou 1, não importa quanto mudem."
Alta performance exige diversidade
O estudo "Por que diversidade importa", da consultora McKinsey & Company, mostrou que empresas com diversidade de gênero têm 15% mais probabilidade de ter equipes de alta performance.
A vice-presidente de Negócios para Instituições Públicas da Positivo Tecnologia, Marielva Andrade Dias, colocou isso em prática. Ela conta que, quando entrou na Positivo, 30 anos atrás, não havia mulheres produzindo os computadores da empresa. Foi a primeira mudança que ela implementou. As vantagens eram claras: a performance só poderia vir com diferentes visões, habilidades e personalidades.
Guiando as equipes, a executiva cobra dos mais jovens a humildade de escutar a voz da experiência. E, de si mesma, cobra a disciplina para manter a saúde e o aprendizado. "É uma questão de querer, acreditar e agir. Tudo em que você coloca força expande", diz.
Caminhos para a igualdade
Segundo análise do Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD), o Brasil deixa de ganhar US$ 420 milhões por ano com profissionais, especialmente das ciências e tecnologias, que trocam empregos no País para buscar melhores oportunidades no exterior.
Alessandra Souza é uma dessas profissionais. Trabalhou como programadora por nove anos em território nacional, e está há dois anos no Canadá. Ela sabe que seu caso é exceção, e agradece por fazer parte de uma equipe diversa, tanto em gênero quanto em nacionalidade. Para ela, usar a experiência de outras culturas e países pode ser a chave para as mudanças internamente.
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A mesma análise do IBSD mostrou ainda que, com investimentos certos, a porcentagem de mulheres trabalhando com software no País pode sair de 28% para 40% até 2031, por meio de um aporte de R$ 1,5 bilhão em possíveis programas de capacitação e vagas inclusivas.
*Estagiário sob supervisão de Marcia Furlan
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