Carreira de TI paga melhor que média nacional, mas salário não é o alvo
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São Paulo, 23/02/2026 - Por muito tempo, as carreiras no setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) tinham um funcionamento simples entre empregador e empregado: um oferece boa remuneração e o outro cumpre uma função vital para o negócio. Mas o cenário está mudando, e vai muito além do valor no holerite.
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Segundo a pesquisa The Dice Tech Salary Report 2025, 47% dos especialistas estadunidenses do setor procuram ativamente novas oportunidades — mesmo com o aumento nos salários. O CEO da KOUD, empresa especializada em alocação de profissionais de TIC, Frederico Sieck; afirma perceber a mesma tendência no Brasil.
“Há cinco anos, a conversa começava pelo salário. Hoje, as perguntas iniciais do candidato envolvem autonomia, cultura de engenharia, maturidade tecnológica e liberdade para criar”
Altos salários de TIC: realidade ou ilusão?
O primeiro passo é entender se, de fato, a área de tecnologia "paga bem". Neste quesito; os números não mentem: o salário médio de TIC é o dobro da média nacional, segundo o levantamento da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais do Brasil (Brasscom). Olhando especificamente para a remuneração da área de software (como programadores ou web designers), este número sobe para três vezes a média nacional.
O desenvolvedor de software Lucas Quinália ingressou há pouco tempo na área e acredita que o pensamento sobre a remuneração é inflado, especialmente quanto à promessa de ganhar em dólar ou euro. "Realmente se paga muito bem; mas existe um preço: a grande barreira para entrar na área de tecnologia e alcançar cargos com maior senioridade", comenta.
A grande diferença se firma, então, na expectativa — uma grande recompensa, mediante à uma seleção agressiva. O professor de Engenharia de Computação da PUCPR, Afonso Miguel, viu esse mesmo choque durante suas décadas em sala de aula. Apesar de ter "alguns alunos que ficaram milionários"; Miguel não recomendaria que buscassem o setor de tecnologia com este sonho.
Mas a impressão que ambos têm é a mesma: o mercado está se equalizando. Com empresas nacionais e internacionais competindo pelos mesmos poucos profissionais qualificados, os salários se tornam parecidos; e outros fatores entram em jogo.
Liberdade e criatividade existem na tecnologia?
O estudo Talent Trends Tech 2025 revelou que a liberdade de trabalhar remotamente é um benefício vital para os profissionais de TIC no Brasil, sendo que 47% desses mudariam de emprego caso precisassem voltar ao escritório.
Quinália relembra, inclusive, que foi seu grande motivador para escolher a área da tecnologia: "Aproveitar todos os cantos do mundo enquanto trabalho, podendo só colocar o computador na tomada".
O mesmo estudo indica ainda que saúde mental (19%) e satisfação no trabalho (17%) são fator chave para um número maior de profissionais do que a remuneração (15%).
Se o local de trabalho é importante, Sieck afirma que, nos processos seletivos, o modelo de trabalho é ainda mais.
Eles querem entender se há senioridade de liderança, previsibilidade de projetos, ambiente seguro para errar e debater soluções, além de clareza estratégica e equilíbrio entre vida pessoal e profissional".
Este modelo pode estar em falta justamente por uma percepção errada do mercado: de que a área de tecnologia não exige criatividade. Miguel conta que uma de suas atividades preferidas no curso envolve buscar soluções tecnológicas para problemas reais.
Na visão do professor, as empresas encaram tarefas de TIC como sólidas e previsíveis, mas é a flexibilidade que os novos profissionais buscam. "Trabalhar com tecnologia é uma arte. Tal qual um pintor e sua tela, é usar as ferramentas que existem para criar algo, e não armar uma barraca já pronta".
Diferenças geracionais
Miguel atua no setor há mais de 30 anos e percebeu certas mudanças com o passar do tempo. Se a remuneração já foi o grande chamariz para quem ingressa na tecnologia, cada vez mais seus alunos são motivados por afinidade e paixão.
Observando os processos seletivos, Sieck tem a mesma impressão. “Os melhores profissionais querem trabalhar em projetos que importam. Querem sentir impacto real no produto, no negócio ou nos usuários. Eles falam muito sobre ‘trabalho com propósito’, algo que até pouco tempo atrás quase não aparecia nas conversas técnicas”, diz.
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A tendência é muito forte nas novas gerações, justamente por ser uma área predominantemente jovem — com mais da metade dos profissionais estando entre os 18 e 29 anos, segundo o relatório de diversidade da Brasscom.
Miguel explica que a entrada de pessoas mais velhas no setor é especialmente difícil, com cargos iniciais que cobram habilidades com as quais elas estão pouco acostumadas. No entanto, quanto mais avançam na carreira e encontram trabalhos que exigem uma visão ampla, mais se aproveitam das vantagens que o professor descreveu como "experiência e certeza do que quer".
Esta certeza é essencial em um cenário que Sieck analisa como "Os talentos escolhendo onde atuar, e não a empresa escolhendo o profissional". Uma possibilidade de decisão entre benefícios e culturas obtida a duras penas; da qual novos desenvolvedores, como Quinália, já podem "sentir um gostinho"; mas que só cresce conforme a senioridade do cargo.
*Estagiário sob supervisão de Luana Pavani
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