Por que as famosas câmeras GoPro estão à beira da falência?
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São Paulo - A famosa marca de câmeras GoPro emitiu, no começo de junho, um documento à SEC (órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários brasileira) informando uma "dúvida substancial" quanto à sua capacidade de continuar operando no próximo ano.
A empresa pioneira em câmeras de aventura, que já foi avaliada em quase 10 bilhões de dólares, teve uma redução de 64% no faturamento anual e demintiu quase um quarto de seus funcionários.
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Para quem lembra de seu auge, com as empolgantes filmagens de esportes radicais, vale conhecer a história da ascensão e queda da GoPro.
Quando todos puderam "ser um herói"
Durante uma viagem de surfe o americano Nicholas Woodman pensou em amarrar uma câmera ao seu pulso com um cinto para poder capturar seus momentos no esporte.
Em 2002 a ideia se transformou em um negócio, com o lançamento da primeira câmera GoPro e seu lema "Be a Hero" (Seja um herói).
Com um crescimento meteórico, a empresa abriu seu capital na Nasdaq – a bolsa de valores de Nova York – em 2014, com 10 bilhões de dólares em valor de mercado.
No entanto, como avalia a professora de marketing da EAESP-FGV, Lilian Carvalho, ser o pioneiro em um produto exige um grande esforço para criar um mercado novo e demanda inovação constante para não ser ultrapassado.
"É quase como na Fórmula 1, quando você tem um carro que está em primeiro lugar e o segundo vêm na rabeira, aproveitando o vácuo."
Trilhando caminhos errados
Em 2016 a GoPro lançou sua linha de drones para gravações aéreas, a Karma. A necessidade veio após o fim da negociação de uma parceria com a chinesa DJI, líder na fabricação das maquinas voadoras.
Enquanto os drones Karma despencavam do céu por erros de fabricação, a DJI investiu em seus próprios drones com câmera, mais estáveis e avançados, que passaram a dominar o mercado. Em 2018, a GoPro anunciou o fim da produção do Karma.
Para tentar contornar o prejuizo, em 2020 a GoPro investiu em um modelo de assinatura que, por 60 dólares ao ano, incluía armazenamento de arquivos em nuvem, troca de câmeras danificadas e acesso ao programa de edição Quik+.
Segundo análise do sócio fundador do Poliszezuk Advogados, Marcos Poliszezuk, a venda de assinaturas não funciona para todas as empresas, especialmente para produtos de hardware de longa duração, como as câmeras GoPro.
"A adesão a este modelo frequentemente sinaliza uma tentativa de estabilizar receitas em um negócio que já não se sustenta apenas com vendas de unidades físicas."
Carvalho acrescenta que, para os aventureiros que investem muito tempo e dinheiro para registrar seus feitos, não fazia sentido trocar os programas profissionais de edição aos quais estavam acostumados por uma novidade sem recursos que justificassem a mudança.
Uma crise inevitável
Em 2026, a alta demanda da inteligência artificial por pentes de memória RAM levou a uma crise mundial em todo o setor de hardware. Enquanto algumas BigTechs conseguiram sobreviver com seus próprios investimentos em IA, o custo de produção das câmeras GoPro cresceu entre 80% e 115%.
Como um último golpe letal, a Nasdaq notifica a companhia que suas ações, agora valendo menos de US$ 1, correm o risco de serem retiradas da bolsa.
No início de junho a empresa avisou que estava "aberta a novos investimentos". A expressão, segundo Poliszezuk, é um eufemismo de mercado para "a empresa não gera caixa suficiente para se sustentar e precisa de injeção externa de capital".
A professora Lilian Carvalho entende que a queda era inevitável: "As empresas nascem, explodem, escalam, atingem a maturidade... e depois algum dia entram em declínio e morrem. Algumas empresas conseguem se reinventar, outras não", enfatiza.
Poliszezuk termina lembrando que, mesmo com todos os mecanismos jurídicos para quem inovou em um setor, não existe um remédio milagroso para a estagnação.
"A GoPro não foi vítima de concorrência desleal; foi superada por concorrentes que ofereceram mais valor pelo mesmo preço."
Estagiário sob supervisão de Pedro Marques
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