CONFIRA

Previdência privada tem potencial entre autônomos, dizem especialistas

Secretário da Fazenda destaca a baixa penetração da previdência privada e a necessidade de adaptação ao novo perfil econômico do trabalhador

Fabiana Holtz

Por Fabiana Holtz

16/09/2026 | 18h23

Envato

Mercado de seguros ainda não dialoga com a economia “tal qual ela é”, diz Dudena - Envato
Mercado de seguros ainda não dialoga com a economia “tal qual ela é”, diz Dudena
Ouvir texto 2:27 1x

São Paulo - O País é movido por micro, pequenas e médias empresas, por autônomos e por uma massa crescente de trabalhadores com renda variável e isso tem sido pouco explorado pelo mercado de seguros e previdência privada. Esta afirmação é do secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Regis Dudena, que participou nessa manhã do XII Fórum Nacional de Seguros de Vida e Previdência Privada, em São Paulo.

O desconhecimento e a baixa penetração da previdência privada na população são uma oportunidade enorme para a expansão desse mercado."
Regis Dudena

Segundo Dudena, o mercado de seguros ainda não dialoga com a economia brasileira “tal qual ela é”. Ele se refere ao brasileiro que sai do emprego formal e trabalha como autônomo ou vira MEI, entra em plataformas, improvisa para sustentar família e negócio.

O problema é que, quando a renda é instável e o futuro é incerto, o sistema de proteção precisa ser desenhado para caber nessa trajetória, e não apenas no emprego tradicional (CLT) ou no serviço público.

O secretário avalia que, para alcançar o microempreendedor e a pequena empresa, o Brasil precisará de políticas públicas estruturais, com regulação, incentivos e produtos adequados. "Estamos falando aqui de uma agenda que não é de governo, mas de Estado, construída ao longo de anos".

Entre os dados lembrados por ele a partir de pesquisa da Fenaprev, o secretário ressaltou que 65% dos brasileiros contam com a Previdência Pública, mas não sabem quanto receberão no futuro e 45% dizem achar seguro de vida caro, mas nem sabem quanto custa. Em resumo: há demanda por segurança, mas falta informação, previsibilidade e produtos que “acompanhem a vida”, segundo ele.

Longevidade, renda e informalidade

Patrícia Freitas, CEO e presidente da Prudential do Brasil, também presente no evento, reconhece que a longevidade da população e seus impactos nos negócios são um fato. "Precisamos para agora um produto que faça uma cobertura do futuro dessas pessoas. A renda não é linear, temos uma economia informal muito grande", observa ela.

Segundo a executiva, a longevidade, somada à renda que não é linear e à mudança de necessidades ao longo dos anos, nos leva a esse debate sobre ampliar as soluções para esse público.

Freitas lembrou que a pirâmide etária não apenas no Brasil, mas no mundo, está virando e isso terá fortes reflexos na economia. "Até 2050, a tendência é haver mais pessoas acima de 60 anos do que até 14, o que pressiona aposentadoria, saúde e planejamento de longo prazo", afirmou. Aliado a isso, mais da metade da população economicamente ativa está na informalidade.

Seguro de vida universal

Nesse contexto, o seguro de vida universal aparece como peça relevante para o consumidor dentro do sistema de proteção, destaca a executiva.

Esta modalidade de seguro é um produto híbrido, que combina a proteção financeira tradicional (como cobertura para morte ou invalidez) com a acumulação de uma reserva de dinheiro ao longo do tempo. No Brasil, esse seguro possui uma norma geral publicada (CNSP 484/2025), mas o mercado e a Susep ainda aguardam detalhes regulatórios e tributários junto à Receita Federal para sua plena implantação comercial.

"A lógica é evitar a ruptura: se a pessoa sai do sistema, é difícil fazê-la voltar, e o custo de reaquisição pesa para todos", explica Freitas.

Além do seu potencial de flexibilidade em momentos de oscilação de renda, o seguro universal pode reduzir cancelamentos diante destas crises pessoais, diz a executiva.

Para profissionais do setor, esta modalidade é uma promessa técnica com implicações públicas que pode destravar novos horizontes para o mercado. 

Transparência e simplicidade

O setor de seguros busca há décadas abandonar o “segurês”, mas a pesquisa da Datafolha encomendada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), divulgada nesta quarta-feira, 16, mostra que a população segue sem entender o básico. O público ainda enxerga o seguro de vida e a previdência como produtos complexos e caros.

O diretor estatutário da Fenaprevi e diretor-executivo de Soluções de Acúmulo da Porto Seguro, Carlos Eduardo Gondim, destaca que o brasileiro consegue perceber o risco de ficar sem renda na aposentadoria, mas não consegue se organizar para enfrentar essa situação.

"Ainda falta muito conhecimento sobre o que é um seguro. Temos que agir e falar a linguagem [do público] para mudar essa realidade", afirma Gondim.

Na avaliação de Ângela Assis, vice-presidente da Fenaprevi e CEO da Brasilprev, o Brasil precisa se inspirar no modelo de países desenvolvidos que adotaram a previdência privada aberta e alcançaram boa adesão da população. "Isso é urgente no Brasil. Desonera a previdência pública e os serviços sociais", afirmou Assis, que participou do Fórum. (Com Jean Mendes)

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.