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Tecnoafetividade: os impactos da IA nas relações e nos negócios

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Segundo Laura Hauser, atravessar a era da tecnoafetividade exige questionar as próprias certezas - Adobe Stock
Segundo Laura Hauser, atravessar a era da tecnoafetividade exige questionar as próprias certezas
Por Alessandra Taraborelli

06/08/2026 | 19h32

São Paulo - Disponível 24 horas por dia, gratuita e programada para interagir sem gerar confrontos ou julgamentos, a inteligência artificial (IA) oferece uma experiência de "perfeição" conversacional. Essa convivência constante com respostas polidas afeta diretamente a paciência para lidar com seres humanos reais, que erram, julgam e discordam.

Laura Hauser, curadora da plataforma de conteúdo KES e pesquisadora do departamento de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, onde desenvolve doutorado sobre inteligência artificial e seus impactos éticos e comportamentais, conceitua essa dinâmica como o paradoxo da alteridade.

Capa do livro Saber conversar na era da IA: (sobre)viver na tecnoafetividade
Capa do livro - Divulgação

A autora do livro "Saber conversar na era da IA: (sobre)viver na tecnoafetividade" lembra que a constituição do indivíduo depende inevitavelmente do outro e da convivência com a diferença. A relação com o próximo é, por essência, baseada no conflito e na diversidade.

Contudo, ao acostumar a mente com a conveniência de espelhos algorítmos, que apenas refletem e confirmam as vontades do usuário, a tolerância para o que é diferente desmorona. A linguagem se altera, o tempo de escuta encurta e a disposição para elaborar pensamentos ou aceitar o tempo do outro se reduz drastically.

(Sobre)viver na tecnoafetividade

No livro, Laura pondera que o caminho para preservar a empatia e a escuta ativa sem descambar para um discurso tecnofóbico passa pelo exercício constante da crítica ética.

Como enfatiza a autora, ética consiste em refletir continuamente sobre o impacto das nossas ações e da nossa omissão no mundo. Em uma sociedade habituada a terceirizar responsabilidades, seja para os algoritmos, para os gestores ou para a política, a preservação das conexões humanas exige autorresponsabilização.

Atravessar a era da tecnoafetividade exige recuperar a capacidade de fazer perguntas difíceis, questionar as próprias certezas e assumir o protagonismo na construção das relações diárias.

Esgotamento humano

No livro, Laura pondera que as redes sociais e os aplicativos de relacionamento reformularam o sentimento de pertencimento, criando o que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu como conexões líquidas, marcadas pela facilidade de conectar e desconectar.

No contexto dos relacionamentos afetivos, as plataformas digitais alimentam a ilusão de um cardápio humano inesgotável, onde sempre existirá uma opção teoricamente melhor disponível a um toque de distância.

A busca incessante por novidade e quantidade resultou no fenômeno do dating burnout, o esgotamento gerado pelos aplicativos de paquera. A lógica algorítma falha ao tentar absorver a essência das relações reais, já que encontrar e construir algo com outra pessoa continua sendo um processo trabalhoso, difícil e profundamente humano. Em resposta a esse desgaste, observa-se um movimento de retorno ao presencial.

Adultos com mais de 40 anos buscam resgatar encontros fora das telas, enquanto jovens da geração Z passam a valorizar momentos de convivência sem a presença de celulares."

Impacto nas empresas 

Laura Hauser
Laura Hauser, pesquisadora do departamento de Comunicação e Semiótica da PUC-SP - Divulgação

Laura avalia que a polarização e a formação de bolhas ideológicas não nasceram com a inteligência artificial, mas encontraram nas plataformas digitais um ambiente de amplificação sem precedentes.

O consumo diário e contínuo de conteúdos personalizados prende o usuário em loops de confirmação, reduzindo drasticamente a abertura para visões divergentes.

No ambiente corporativo, essa incapacidade de lidar com a diferença afeta diretamente os processos de inovação. Para que a inovação aconteça de forma genuína, é indispensável haver diversidade cognitiva.

Quando os profissionais perdem a tolerância para dialogar com pensamentos opostos, o repertório coletivo se empobrece."

Dados do "Barômetro da Confiança", da Edelman, apontam que, globalmente, apenas 20% das pessoas aceitam trabalhar com quem pensa de maneira muito diferente delas. Essa barreira de comunicação resulta na perda de milhões em resultados e no travamento do potencial criativo das empresas.

IA e a solidão

Laura avalia que a solidão é um dos fatores que levam as pessoas a buscar soluções afetivas tecnológicas, mas ressalta que há outras questões envolvidas, como o solucionismo tecnológico, a crença de que a tecnologia será a solução para tudo, inclusive para problemas estruturais.

Para a especialista, a grande saída é saber pensar e questionar eticamente o mundo, e não apenas a IA.

"Saber se perguntar o que é fazer a coisa certa em cada situação. Eu trago uma filósofa no livro, a Ágnes Heller, que diz que ética é refletir sobre os impactos da nossa ação e da nossa não ação no mundo. Acho que temos uma tendência a terceirizar muito as responsabilidades para a IA, para políticos, para o chefe, para os colegas. Essa autorresponsabilização e esse questionamento constante são o que pode nos ajudar a atravessar essa era", afirma Laura.

Para desacelerar a mediação algorítma e resgatar a profundidade nas interações humanas, o controle e o contato olho no olho, Laura Hauser dá algumas dicas:

  • Tenha períodos intencionais sem celular e sem IA: Defina momentos específicos no dia ou na semana — seja em família, com amigos ou mesmo sozinho — em que o uso de dispositivos móveis seja totalmente suspenso.
  • Pense no objetivo e na produtividade das conversas: Antes de iniciar um diálogo importante, reflita sobre a intenção da troca e busque clareza no propósito daquela interação.
  • Não reduza assuntos difíceis à lógica da hashtag: Temas complexos e dilemas humanos exigem tempo e elaboração; evite simplificar discussões profundas em bordões ou rótulos práticos.
  • Conheça o seu fanático interno: Identifique e monitore o seu próprio lado inflexível e intolerante. Reconhecer a existência desse componente interno é fundamental para desenvolver maior abertura ao divergente.
  • Exerça a curiosidade, o humor e o pensamento crítico: Tenha menos autoritarismo consigo mesmo, cultive a dúvida saudável e questione continuamente o mundo e as certezas ao seu redor.

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