Mães vencem o 'não' da carreira e conquistam flexibilidade no trabalho
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São Paulo - “O não você já tem.” A frase popular já deve ter passado pela cabeça de muitas mães quando tentam voltar ao mercado de trabalho. Principalmente, entre aquelas para quem a maternidade chegou há pouco tempo. Foi o caso de Maria Gabriella Soares de Mendonça Baia e de Tayane Andrade. Mães recentes, ouviram muitos “nãos” antes de serem contratadas.
Elas contam que, antes de serem contratadas, os processos de contratação avançavam até as entrevistas, inicialmente entusiasmadas, mas o quadro mudava rapidamente quando a idade dos filhos vinha à tona.
Toda vez que falava de filho, a entrevista declinava. Nunca diziam que era por causa de ser mãe, mas isso ficava evidente”, conta Maria Gabriella Baia, que é mãe de Gael, de 2 anos.
Ela havia ficado sem emprego após a falência da empresa em que trabalhava. Agora, depois de oito meses de procura e frustrações, está há pouco mais de um mês trabalhando na You Lead Outsourcing. Executiva comercial, sua função principal envolve a prospecção de clientes.
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Fator crítico
Essa percepção de rejeição fica evidente em pesquisa realizada pelo Femsa Group, que atua na área de gestão de pessoas. Para 59,1% das profissionais que são mães a maternidade é vista como um fator crítico, que impacta negativamente a trajetória de carreira.
O estudo, divulgado em março, ouviu 595 profissionais de diversos níveis hierárquicos e de todas as regiões do País.
Um outro estudo, realizado pela B3, bolsa de valores do Brasil, e o Instituto Locomotiva, revela que 77% dos brasileiros acreditam que mulheres com filhos enfrentam mais desafios no mercado de trabalho. Entre mulheres com filhos, a percepção sobe para 86%.
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Andrade é executiva de contas também na You Lead, onde trabalha há 2 meses. Seu filho, Pedro está com 1 ano e meio de vida. O modelo de trabalho home office e a flexibilidade oferecida pela companhia foram atrativos decisivos.
“Com poucas reuniões e alta flexibilidade para ajustar a agenda é possível, por exemplo, ir a consultas médicas ou resolver eventuais emergências, um ponto crucial para mães, incluindo aquelas com filhos especiais, como as que a empresa acolhe. A empresa ainda oferece um auxílio home office”.
Inclusive, a You Lead tem o quadro formado quase todo por mulheres, 97%, sendo a maioria mães, o que favorece um ambiente de empatia. "Passamos pelas mesmas coisas. Assim, é muito fácil entender o que a outra está passando," diz Andrade.
Estudos comprovam que ambientes mais flexíveis apresentam melhores níveis de engajamento, produtividade e permanência, de acordo com a administradora e gerente do Instituto de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão (IBGPEX), do Grupo Uninter, Rosemary Suzuki.
É preciso afirmar com clareza: flexibilidade não é privilégio, é estratégia de inclusão. Para as mães, flexibilidade é condição para continuar trabalhando”, diz.
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Por isso, muitas abrem um negócio na tentativa de conciliar o papel de mãe com uma atividade profissional que também garanta a sustentabilidade.
Rumo ao empreendedorismo
Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) com base em dados da Receita Federal mostram que mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres em 2025. O número representa cerca de 42% do total de 4,96 milhões de empresas abertas no ano.
Duas dessas empreendedoras contam ao VIVA que a maternidade deu impulso aos negócios.
Para Bianca Coimbra, CEO e cofundadora da Lynv, marca de água de coco integral, a maternidade a tornou menos imediatista e mais orientada ao longo prazo, influenciando diretamente decisões estratégicas da empresa, desde posicionamento até ritmo de crescimento.
“Prefiro construir algo sólido, com identidade e verdade, do que crescer rápido sem consistência”, afirma a executiva.
Para Livia Carvalho Remy, fundadora e CEO da marca de skincare Allright, a maternidade trouxe uma mudança prática na forma de lidar com a rotina e o próprio corpo, influenciando diretamente suas decisões dentro e fora do negócio. “Passei a entender que cuidar de mim impacta a forma como eu lidero.”
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Segundo Remy, ela passou a dar mais atenção à rotina, ao bem-estar e à construção de um ambiente mais sustentável dentro da empresa. Na prática, declara, isso se reflete na condução da Allright, que passou a priorizar soluções mais alinhadas à rotina real das pessoas.
Questão de liderança
Estudo realizado pela Gupy com 1.300 mulheres, sendo que 75% são mães, mostra que 40% já recusaram promoções, vagas ou oportunidades de crescimento por dificuldade em equilibrar trabalho e cuidados com os filhos. E 50% delas já deixaram de se candidatar a oportunidades por ausência de benefícios considerados essenciais.
De outro lado, em uma carreira corporativa, o simples fato de serem mulheres pode dificultar a ascensão. O estudo realizado pela Femsa também aponta que 86,1% das respondentes concordam que o modelo ideal de liderança ainda é associado a traços masculinos.
Essa percepção impõe um alto preço comportamental, já que 91,9% das mulheres dizem que já precisaram ajustar sua postura natural para obter respeito ou validação no ambiente de trabalho.
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